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Análise: Days Gone (PS4) — uma jornada fragmentada pelo apocalipse

O mais novo título exclusivo de PS4 possui qualidade inegável, mesmo frente a seus problemas de narrativa e desempenho.


Days Gone (PS4) é o mais recente exclusivo do PlayStation 4, lançado em 26 de abril deste ano. Desenvolvido pelo estúdio Bend, da Sony, o game busca não ser apenas mais um jogo de zumbis no mercado e, embora consiga atingir seu objetivo até certo ponto, falha em alguns aspectos cruciais, que acabam tirando um pouco de seu brilho final.


Dias que se foram

Days Gone traz como protagonista Deacon St. John, um ex-fuzileiro da Décima Divisão de Montanha do Exército Americano e membro de uma gangue de motoqueiros no estado de Oregon, nos EUA. Quando uma desgraça causada por um vírus transforma grande parte da população em criaturas violentas e irracionais chamadas de Frenéticos, St. John precisa tomar uma importante decisão: seguir ao lado de seu melhor amigo Boozer e protegê-lo dos inimigos em solo; ou entrar no helicóptero de resgate em que sua esposa Sarah está. Acreditando que amada ficaria bem nas mãos de médicos e soldados militares, o motoqueiro acaba decidindo ficar e ajudar o melhor amigo a sobreviver, para depois então irem atrás de Sarah.

Após pouco mais de dois anos sobrevivendo junto de Boozer, Deacon passa por um período de luto intenso, não deixando seu passado para trás e sempre lamentando a morte da esposa. Ele e Boozer vagam pelo Oregon como uma dupla intrépida de caçadores de recompensas, buscando meios de sobreviver a qualquer custo, e evitando criar raízes ou laços com qualquer pessoa.



Deacon St. John, ou Deek, para os mais conhecidos, é um personagem machucado pela própria perda e excessivamente apegado ao passado recente. Busca se manter distante dos outros, embora demonstre traços de ternura e carinho por outros em certos diálogos e momentos da história. Porém ele não deixa que essas características floresçam em si, se mantendo leal de verdade apenas ao melhor amigo. Descobrir sua história, viver seu presente e tentar desvendar os mistérios que cercam Deacon é um dos pontos mais agradáveis de Days Gone, tornando seu protagonista palatável e crível.

As interações de St. John com outros personagens oferecem momentos interessantes, trazendo informações sobre as regiões que o jogador visita e sobre o passado de outros personagens, como os líderes de acampamento Mark Copeland e Iron Mike.

O jogo é dividido em pequenas linhas narrativas, que contam com percentual de conclusão. Conforme o jogador conclui missões, as linhas narrativas vão se completando, avançando o progresso geral da história. Esse é o maior problema de Days Gone: ele não possui uma linha de história central.

A história é contada de forma bastante fragmentada, exigindo que o jogador complete missões de uma determinada linha narrativa para prosseguir em outra. Não é incomum acabar misturando algumas das histórias. Ainda que haja um “mistério principal”, o mesmo é prejudicado pelo excesso de narrativas adjacentes, sendo impossível progredir apenas na resolução do mistério que assombra Deek. Tudo isso acaba com o ritmo do jogo, que se torna extremamente arrastado, especialmente quando se encaminha para a última porção do título.

Há uma ou outra incoerência que encontrei durante meu tempo com Days Gone. Não será possível detalhar aqui para evitar spoilers, mas, em determinada situação, um personagem específico incita em Deacon uma determinada ação. Logo na missão seguinte, o mesmo personagem parece ignorar tudo que disse e incitou ao protagonista. Esperava-se uma espécie de reviravolta mais a frente, mas o jogo parece deixar esse buraco aberto.

Ajudando acampamentos

Days Gone é um jogo de tiro em terceira pessoa com foco em sobrevivência. Sendo assim, o jogador terá à disposição um bom número de armas, como pistolas, escopetas, rifles de assalto e de precisão; e deverá buscar coletar recursos de criação de suprimentos por todo o cenário. Oferece certa liberdade para encarar seus combates, deixando que o jogador opte por uma abordagem mais furtiva ou mais direta.

É possível encontrar materiais em todos os cantos. Coletar querosene, trapos, curativos, dentre outros materiais, permite a criação de itens de cura, explosivos e fortalecimento de armas brancas, criando novas opções como tacos de madeira com pregos ou serras encaixadas na ponta. A criação é feita de forma bastante simples e sem firula através da Roda de Criação. Basta segurar L1 e usar o analógico esquerdo para selecionar o item que deseja criar. Simples, prático, e direto, mas poderia ser um pouco mais preciso na hora de selecionar as opções na roda.



Todo o arsenal de Deacon é utilizado para sobreviver aos encontros com diversos inimigos, sejam eles humanos, animais ou os frenéticos, que infestam o mundo de Days Gone como uma praga sem fim. Os combates são divertidos e oferecem desafio na medida certa, com uma inteligência artificial agressiva e que irá flanquear o jogador sempre que possível (no caso dos inimigos humanos).

Há diversas atividades secundárias para serem completadas em Days Gone. Por todo o mapa, há acampamentos de bandidos para serem derrotados, bunkers secretos para serem encontrados e estações de controle especiais para serem capturadas. Essas estações, aliás, contam com injetores especiais NERO, que concede um aumento permanente de um dos três atributos principais de Deacon: Vida, Energia e Foco. Energia é utilizada em ações como correr e rolar; Foco é a habilidade de desacelerar o tempo para mirar com maior precisão nos inimigos.



Os acampamentos aliados oferecem trabalhos a serem cumpridos em troca de créditos e reputação. Cada um deles possui seus próprios créditos e reputação, e oferecem benefícios próprios como armas únicas e melhorias para a maior e melhor parceira de Deacon, sua motoca. É possível customizá-la de diferentes formas: aumento de capacidade de gasolina, amortecedores, pneus com melhor tração, aumento de velocidade, nitro; e até mesmo opções cosméticas, como pinturas e adesivos especiais.

 A motoca de Deacon é, por si só, um personagem à parte. Ela exige constante cuidado e manutenção. Caso sofra danos, é preciso utilizar sucata, que é coletada principalmente sob o capô de carros abandonados, para consertá-la. Também é preciso manter o tanque de gasolina sempre cheio, completando-o em pontos específicos do mapa ou com galões de gasolina que podem ser encontrados pelo cenário.



Completar missões e derrotar inimigos concede pontos de experiência para Deacon. O jogador ganha um ponto de habilidade, que pode ser investido em três árvores de habilidade distintas, dedicadas à Corpo a Corpo, Longo Alcance e Sobrevivência. É possível desbloquear opções como maior duração da Visão de Sobrevivência (ativada com R3, indica na tela possíveis itens de interesse), maior duração do Foco, eficiência de armas corpo a corpo e aumento de quantidade de munição que Deacon pode carregar.

Caçando Frenéticos

Os Frenéticos, (ou Freakers, no original), são humanos que morreram em decorrência de um vírus. Com aspecto grotesco e comportamento agressivo e canibal, andam quase sempre em bandos, caçando outros seres vivos para comer e destroçar.

Grupos menores não oferecem tanta dificuldade na hora do combate. Entretanto, as hordas são um charme à parte… até que se descobre a maneira padrão de enfrentá-las. Grupos maiores de frenéticos infestam o mapa, e são chamados de hordas. Derrotá-las torna a região um pouco mais segura.



No começo da jornada, encarar as hordas é algo difícil e complicado, visto que há pouca munição disponível no inventário de Deacon. Mais adiante no game, entretanto, o desafio se torna padrão e repetitivo, exigindo que o jogador alterne entre descarregar pentes de balas nos frenéticos, correr e se afastar, e então atirar novamente. É possível utilizar elementos do cenário para facilitar os embates, como barris explosivos, mas, no geral, é simples e direto.

O maior desafio que essas hordas oferecem é pelo fato de os Frenéticos comuns serem rápidos e atacarem por todos os lados. Desorganizados, mas vorazes, se cercarem o jogador, é morte na certa.

Os Frenéticos possuem diversas variantes entre si. A versão mais comum pode ser encontrada em todas as estradas, perambulando sozinha ou em grupos pequenos e grandes. Parecem com seres humanos comuns, ainda que com a aparência bastante deteriorada. São velozes e desorganizados, e atacam assim que veem o jogador. Outros tipos de Frenéticos são os Quebradores, brutamontes fortes e bastante resistentes; Atalaias, que berram e chamam outros Frenéticos nas redondezas; e Lagartixas,  adolescentes infectados que atacam quando a vida de Deacon está baixa ou quando ele está muito próximo.

Derrotar Frenéticos faz com que Deacon colete suas orelhas, e elas podem ser trocadas por pontos de reputação e créditos no acampamento. Além delas, plantas coletadas pelas regiões e carnes de animais derrotados também podem ser doados em troca de reputação.

Ninhos de Frenéticos podem ser encontrados em diversos locais. Exterminar ninhos e limpar uma área desbloqueia pontos de viagem rápida, o que facilita muito o deslocamento pelo mapa. Aqui entra em jogo um belo aspecto do game: o ciclo de dia e noite. De dia, os frenéticos hibernam em seus ninhos. Ou seja, queimar suas casas fará com que venham em grande quantidade para cima de Deacon. À noite, eles saem para caçar e perambular, deixando seus ninhos desguarnecidos, mas exigindo uma dose a mais de furtividade por parte do protagonista para evitar que as criaturas ao redor venham todas com sede ao pote.

Pagando por sua beleza

Em termos visuais, Days Gone não deixa nada a desejar a nenhum outro título exclusivo do PlayStation 4. Os cenários são repletos de detalhes, compostos por florestas, áreas planas e desertas, cavernas, campos nevados e devastados por queimadas. A complexidade dos ambientes é alta, com elementos diversos compondo as cenas e dando ainda maior densidade e identidade ao mundo desolado do título. Ciclos de dia e noite se misturam com tempestades e nevascas, tornando o clima e o tempo bastante dinâmicos e criando situações únicas.



Os personagens são bastante fidedignos, contando com expressões faciais convincentes e muito bem produzidas, passando seus sentimentos e questionamentos em diversos momentos, especialmente por parte de Deacon e por Boozer.

Entretanto, o alto nível de detalhes e qualidade de texturas têm um alto preço no desempenho técnico do jogo, que sofre para manter os 30 quadros por segundo em momentos de exploração, especialmente nas áreas ao redor dos acampamentos aliados e em situações de combate contra hordas de Frenéticos.

Bugs inconvenientes aparecem aqui e acolá, como cair para debaixo do mapa, ou até mesmo a impossibilidade de selecionar equipamentos como a pedra para distração na Roda de Sobrevivência, algo que tornou seções de furtividade impossíveis para mim em dado momento, me fazendo ter de sair para o menu principal e reiniciar o game totalmente.

Apesar da alta qualidade, há certa demora na renderização de algumas texturas, tendo acontecido de, certa vez, ficarem completamente travadas em baixa resolução, exigindo também um reinício através do menu principal para que voltassem ao normal.



Ainda que as animações sejam fluidas e bem produzidas, algumas situações são esquisitas. O combate corpo a corpo é uma delas, com as armas utilizadas atravessando os modelos dos oponentes sem muito capricho e realismo. A animação de investida de Deacon nos inimigos também não condiz com o tom mais real do jogo, fazendo com que o protagonista praticamente deslize no chão até o alvo quando inicia-se uma segunda sequência de golpes.

Days Gone (PS4) é um ótimo título, e mantém a tradição de exclusivos de qualidade do PlayStation 4. Ainda assim, falta um certo capricho, um certo pedigree, o que o deixa um nível abaixo de títulos como God of War (PS4) e Horizon Zero Dawn (PS4). Ainda assim, oferece ótimos tiroteios, diversas localidades a serem exploradas, bons momentos de exploração a pé e de motoca, jogabilidade precisa e de qualidade e um visual primoroso em praticamente todos os aspectos. Possui defeitos inegáveis, como a narrativa fragmentada e arrastada e a dificuldade em manter 30 quadros por segundo em certos momentos e bugs menores aqui e ali. Ainda assim, é uma jornada gostosa e que possui seu valor.

Prós

  • Desenvolvimento e carisma do protagonista;
  • Diversas opções de armas e habilidades;
  • Combates divertidos e bem feitos;
  • Boa jogabilidade, tanto a pé quanto de moto;
  • Opções de furtividade ou confronto direto;
  • Visualmente variado, charmoso e belo;
  • Jornada pessoal de Deacon St. John é ótima de se desvendar.

Contras

  • História arrastada;
  • Linhas de narrativa excessivamente fragmentadas;
  • Hordas não oferecem tanto desafio após certo progresso no jogo;
  • Problemas de desempenho em diversas áreas;
  • Animações de combate corpo a corpo poderiam ser mais refinadas;
  • Demora no carregamento de texturas em algumas ocasiões.
Days Gone - PS4 - Nota: 8.5


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