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Análise: The Caligula Effect: Overdose (Multi): um excelente RPG que merecia mais polimento

Remake de The Caligula Effect é um excelente RPG, mas mantém os defeitos do jogo original.

Desenvolvido originalmente no PlayStation Vita e com roteiro de Tadashi Satomi (Persona, Persona 2: Innocent Sin e Eternal Punishment), The Caligula Effect é um RPG que em muito se assemelha à famosa série da Atlus, abordando aspectos psicológicos e sociais marcantes em um contexto social moderno. Em um paraíso virtual, o protagonista se descobre incapaz de voltar para a realidade e, ao lado do Go-Home Club, precisa encontrar uma forma de escapar.


Apesar de trazer várias boas ideias, o jogo original possuía um forte tom repetitivo, tanto em suas batalhas quanto em seus diálogos. The Caligula Effect: Overdose surge como uma nova versão feita na Unreal Engine 4 e que poderia resolver os problemas principais do jogo original. Infelizmente não é bem assim que a banda toca, mas vamos por partes.

Humanidade, traumas e recomeço


The Caligula Effect se passa no mundo de Mobius, um mundo virtual criado e mantido pela idol virtual µ no intuito de oferecer uma vida melhor a pessoas que sofrem na realidade. Como resultado disso, todos os personagens passaram por algum tipo de trauma que fez com que eles desejassem um lugar para escapar e Mobius abriu suas portas para eles.

Aqui o jogo segue uma tradição japonesa de acreditar que o ensino médio é o período de maior potencial de felicidade de uma pessoa e faz com que todos os seus personagens, independentemente de sua faixa etária original, sejam transformados em jovens de 16 a 18 anos.

Mas, ao perceber a artificialidade daquele lugar, algumas pessoas decidem fugir e assim é fundado o Go-Home Club, ou seja, um clube daqueles que querem voltar para casa ao invés de aproveitar as comodidades daquele mundo. No entanto, a única forma de sair é encontrando µ, pois ela guarda a passagem entre os dois mundos, e o caminho até ela não é fácil. Ela possui vários apoiadores que sofreram lavagem cerebral e estão dispostos a atacar qualquer pessoa que ameace a estabilidade de Mobius.

Liderando esse grupo temos os músicos Ostinato, pessoas que optaram por se aliar a µ de forma consciente e que fortalecem o domínio dela compondo suas músicas. São eles os maiores adversários do Go-Home Club, controlando as várias áreas da cidade (como a escola, ruas de um centro comercial e um aquário) e transformando-as em dungeons. Ao mesmo tempo, cada um deles tem uma forte motivação para se manter em Mobius e é difícil considerá-los puramente “vilões”.


Especialmente graças à rota do traidor que foi adicionada em Overdose. Nela é possível optar por ser um agente duplo e conhecer melhor as motivações dos personagens que são enfrentados durante o jogo. Interagindo com os dois lados é possível ver que não existem heróis e vilões, apenas seres humanos com suas fragilidades, seus defeitos e virtudes. Mobius representa a possibilidade de escapar de um mundo cruel em que essas pessoas tiveram que lidar com situações terríveis. Cabe ao jogador escolher entre ajudá-los a seguir em frente ou mantê-los presos nesse paraíso artificial.

Além da equipe principal e dos Ostinato, o jogo também conta com mais de 500 personagens recrutáveis, alunos da escola cujos traumas o jogador pode ajudar a resolver através de pequenas quests. Infelizmente eles são extremamente genéricos a ponto de suas falas e problemas se repetirem bastante, tornando a experiência de ampliar o grupo em algo bastante enfadonho. Especialmente porque só é possível aceitar uma quest por vez ao invés de poder reunir um grupo de tarefas comuns. É importante ressaltar também que nem todos os personagens estão abertos ao diálogo inicialmente, sendo necessário fazer amizade com outras pessoas para interagir com eles.

Dungeons & Musics


Como já mencionado, as áreas da cidade funcionam como dungeons comandadas cada uma por um Ostinato. Isso significa que as músicas-tema delas, em geral canções de J-Pop, são baseadas nas personalidades desses líderes. Além de se adequarem bem à proposta do roteiro, elas são gostosas de ouvir e é muito interessante a forma como ocorre uma transição totalmente fluida entre a versão instrumental (usada para exploração da dungeon) e cantada (usada para as batalhas).

Todos os inimigos são visíveis e patrulham áreas variadas do mapa. Ao entrar em sua área de visão, é iniciada a batalha com aqueles que estiverem no raio de alcance do adversário mais próximo. É possível também que o jogador tenha que enfrentar mais inimigos caso haja outros personagens próximos do campo de batalha. Com a possibilidade de visualizar o nível dos inimigos e se aproveitar da movimentação deles para isolá-los (ou agrupá-los e eliminar um grande grupo de uma vez), é difícil ser pego desprevenido.


Dentro das batalhas, o jogador tem acesso a até quatro personagens, cujos ataques possuem efeitos diversos, eles podem: atirar os inimigos no ar, causar dano em área, paralisá-los, anular dano e contra-atacar, etc. O mais interessante é combinar esses tipos variados de ataques para manter um combo ou impedir completamente os movimentos adversários. E esse tipo de controle detalhado se torna realidade graças ao sistema de Imaginary Chain que oferece ao jogador a capacidade de prever os ataques adversários e avaliar o timing mais adequado para o uso de suas habilidades.

Essa simulação nem sempre é precisa, já que todos os ataques dependem de uma taxa de acerto e errar um ataque pode desencadear um efeito em cadeia na estratégia como um todo. Ainda assim, é uma poderosa ferramenta fundamental para realizar jogadas inteligentes, algo que pode ser importante especialmente nas dificuldades mais altas.

Curiosamente, toda vez que uma batalha é terminada, o HP e o SP de todos os personagens são restaurados imediatamente. Com isso, é possível usar todos os recursos possíveis durante toda e qualquer batalha, tornando-as em verdadeiros espetáculos onde o jogador pode explorar ao máximo as fraquezas dos inimigos e se preocupar bem menos com os riscos. Outra coisa nada usual é a ausência de dinheiro e itens. O único inventário do jogo contém os equipamentos que aumentam os atributos dos personagens e podem ser utilizados para realizar algumas quests. Apesar da falta de itens e dinheiro causar uma estranheza inicial, não há um impacto negativo no fluxo de jogo.

Um excelente RPG com potencial para ser algo mais

The Caligula Effect: Overdose se apresenta como uma versão mais polida do RPG de PlayStation Vita. Mas é bastante curioso notar que de forma grosseira ele mantém os problemas do original e até deixa alguns outros mais evidentes por estar graficamente mais detalhado. O elemento mais claro disso é a total ausência de movimentação labial dos personagens, o que causa muita estranheza especialmente quando a câmera está próxima deles. Mas isso também está refletido em vários pequenos elementos de má direção das cenas de diálogo, como: reações antecipadas de personagens, representações invisíveis de objetos (em uma cena, por exemplo, o clube está “comendo ar”) e até mesmo contradições entre o que está sendo falado e o que é mostrado (um personagem não deveria estar em cena, mas está).

Felizmente nenhum desses elementos visuais é tão grave que realmente atrapalhe a experiência. O que realmente é problemático é o fato de que a nova versão nada faz para resolver os problemas originais do jogo: a experiência repetitiva (em especial dos diálogos) e o tom genérico de seus personagens não-principais. Mesmo pequenas melhorias de qualidade de vida, como a adição de um menu de quests em que fosse possível aceitar novas missões e explorá-las em paralelo já tornaria a experiência de aumentar a amizade com os personagens muito menos tediosa.


No conjunto da obra, The Caligula Effect: Overdose é um excelente RPG com muitos elementos positivos e é fácil recomendá-lo a fãs do gênero. O jogo conta com dramas sociais interessantes e relevantes, personagens diversificados, um sistema de batalha detalhado e rico em possibilidades estratégicas e uma trilha sonora no estilo J-Pop que gruda na cabeça. É apenas uma pena que não houve o polimento necessário para torná-lo em uma obra-prima do gênero.

Prós

  • Tanto os personagens da equipe principal quanto os líderes dos antagonistas são bem caracterizados com dramas sociais bastante relevantes;
  • Trilha sonora de J-Pop que gruda na cabeça e encaixa perfeitamente com a personalidade do chefe de cada área;
  • Batalhas dinâmicas que permitem ao jogador montar estratégias com base no timing dos ataques;
  • Possibilidade de jogar como agente duplo permite ver um pouco mais das nuances entre os dois lados que claramente não são “heróis” e “vilões”.

Contras

  • Muitos personagens genéricos com diálogos repetitivos;
  • Impossibilidade de realizar mais de uma quest de forma simultânea;
  • Falta de movimentação labial e alguns elementos gráficos causam estranheza em algumas cenas.
The Caligula Effect Overdose - PC/PS4/Switch - Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela NIS America

é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não tenha em mãos um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.

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