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Análise: Unruly Heroes (Multi) é uma bela e divertida aventura oriental em plataforma

O primeiro game da Magic Design Studios surpreende no visual, além de ser um ótimo exemplo do gênero plataforma.

As culturas orientais são muito populares no ocidente, principalmente por sua riqueza mitológica. Entre suas referências, talvez o conto mais reproduzido e adaptado para o ocidente de inúmeras maneiras seja o da “A Jornada ao Oeste”, protagonizado pelo Rei Macaco (conhecido na cultura pop por personagens como Son Goku da franquia Dragon Ball, o campeão Wukong em League of Legends e outros). Em Unruly Heroes (Multi) temos mais uma vez o conto reproduzido, mas de forma um pouco mais fiel no quesito artístico e até na mitologia mesmo.


Desenvolvido por programadores veteranos da Ubisoft responsáveis pelos últimos jogos da franquia Rayman, o título mostra maestria ao construir uma ótima, leve e divertida experiência de plataforma, com desafios no ponto certo, mecânicas criativas e ótimo tom de humor. O jogo atualmente está disponível para PC, XBO e Switch, mas com previsão de chegar em breve para o PS4 também.


A Jornada ao Oeste

O interessante do enredo de Unruly Heroes é que ele, ao contrário da maioria das adaptações do conto do Rei Macaco, utiliza os quatro personagens mais marcantes da novela chinesa. O conto original é datado do ano de 1500, mas conhecido na história da China como pertencente à Dinastia Ming. No romance mitológico, acompanhamos a jornada de Tang Sanzang em busca de escrituras budistas no oeste. O personagem recebe a ajuda de quatro personagens: Sun Wukong, o Rei Macaco, é um deles.

Unruly Heroes, além de Wukong, também apresenta Zhu Bajie, um homem porco; Sha Wujing, o Irmão Areia e, por fim, Yulong, o Filho do Rei Dragão do Mar Ocidental. Os quatro personagens são muito bem trabalhados no game, permitindo que o jogador troque entre eles durante a partida ou então que jogo em multiplayer local com até quatro pessoas simultaneamente. Até aqui, a ideia lembra bastante a franquia Trine, que ficou bem conhecida por lidar com o trabalho em equipe com três personagens distintos nesse mesmo esquema.



Entretanto, Unruly Heroes se diferencia bastante de Trine principalmente em sua jogabilidade, da qual falaremos mais tarde. Aqui, vale dizer que a história combina bem com a ideia do conto original, com exceção do protagonista do conto, que é ausente aqui. Além disso, um ponto muito agradável é o tom de humor que o jogo traz em seus diálogos, que deixa a experiência bastante divertida. É um humor sutil e bem encaixado, mostrando uma complexidade cativante nos poucos diálogos que o jogo possui.

Os quatro guerreiros

Pegando bastante inspiração na franquia Trine (principalmente os dois primeiros jogos), Unruly Heroes faz com que o jogador trabalhe com quatro personagens de modo alternado ou, como já falamos, utilizando multiplayer local/online. Assim como na franquia de games independentes, cada personagem aqui possui habilidades distintas que se complementam durante as fases do jogo.



O interessante de Unruly Heroes, comparado com outros jogos com a mesma temática, é que não são só as habilidades mágicas dos personagens que os distinguem. Na verdade, os tipos de ataque de cada um e, principalmente, sua movimentação são bem distintas entre si. Isso torna o jogo ainda mais diversificado e variado, fazendo com que a experiência de jogo fuja de repetições desnecessárias.

É preciso ressaltar também que o level design de Unruly Heroes é muito bom, fazendo com que o jogador precise combinar habilidades de personagens diferentes desde a primeira fase, permitindo um aprendizado orgânico e sem muito apelo textual. No decorrer das primeiras fases você já se sente dominando cada vez mais os comandos de movimentação e combate do jogo, deixando a experiência leve e divertida.


Combates, puzzles e diversão

Para aqueles que já sabem do passado dos desenvolvedores de Unruly Heroes, ao jogar o game pela primeira vez, é fácil notar algumas semelhanças estéticas e de comandos com Rayman Legends (Multi). Entretanto, o jogo não se ateve somente a repetir o que deu certo no jogo mais atual de Rayman, conseguindo ter uma personalidade própria e elementos que combinam muito mais com o romance chinês do que com o mascote da Ubisoft sem braços.

Os pontos em comum de Unruly Heroes com a mais atual versão da franquia de Rayman são as cores vivas, a fluidez de movimento e os cenários quase que pintados à mão. Mas em contrapartida, a arte é toda em referência à mitologia chinesa, bem como a trilha sonora, que é fantástica e bem envolvente. Já no quesito jogabilidade, temos aqui alguns elementos bem diferenciados se compararmos com Rayman Legends ou outros jogos da série.



Isso porque Unruly Heroes é muito mais focado em combates do que seu primo distante. Com cada personagem tendo uma especialidade de combate diferente, temos habilidades especiais, variações de golpes no ar, socando para baixo com opções de golpes pesados e leves. No quesito combate, o único problema está relacionado à esquiva. O ritmo de jogo pede comandos rápidos e precisos que nem sempre se encaixam bem quando estamos em combate e precisamos desviar de um ataque inimigo. 

Fora esse leve deslize, os combates são muito divertidos seja contra inimigos comuns ao longo das fases ou contra o vilão final de cada mundo. Mas não pense que o jogo se trata somente de avançar nas fases enfrentando inimigos. Na verdade, temos alguns desafios bem colocados que exigem destreza do jogador, deixando o nível de desafio do jogo numa progressão muito cativante.



Honrando o sucesso de público e crítica de Rayman Legends, Unruly Heroes faz excelentes usos de mecânicas para games em plataforma 2D, deixando a experiência variada e instigante. São diversas tarefas como empurrar objetos, saltar entre paredes, correr, dar pulos duplos (e triplos) e até usar habilidades exclusivas de cada personagem em estátuas especiais encontradas no decorrer das fases.

Isso tudo torna a experiência muito mais dinâmica e pouco repetitiva. Mesmo que o jogo mantenha alguns elementos conhecidos de games de plataforma, como a coleta de moedas e itens secretos e a exploração quase que exclusiva para a direita, ele não se mantém somente nisso, trazendo agradáveis novidades para o gênero.


Modo versus dispensável

O ponto mais negativo do jogo talvez seja a inclusão de um modo versus para até quatro jogadores que nada tem a ver com todo o restante da temática do jogo. A ideia aqui seria usar e abusar das mecânicas de combate em partidas que colocam os jogadores contra eles mesmo. Entretanto, a execução dessa ideia é mediana demais, deixando a experiência superficial e totalmente dispensável.

Num jogo onde a temática principal é o trabalho em equipe entre os personagens que passam por uma jornada muito envolvente referenciada em contos chineses de 500 anos atrás, um modo de combate si por si é totalmente desconexo. Principalmente se formos levar em consideração que o modo cooperativo da campanha poderia ser facilmente jogado online. 



Junto com a falta de interesse do modo multiplayer, temos também pouco incentivo para completar os colecionáveis do jogo, deixando a experiência mais contemplativa e com menos fator replay do que parecia ser a intenção dos desenvolvedores. Talvez com a inclusão de elementos como desafios de tempo mais claros e tesouros mais visíveis (mesmo que aparentemente inalcançáveis) sejam boas saídas não tão utilizadas aqui.

Uma aventura de primeira

Unruly Heroes (Multi) pode ter alguns deslizes leves, como o comando de esquiva e o famigerado modo versus, mas nada que atrapalhe drasticamente a diversão. A duração do jogo é muito boa, assim como suas escolhas de level design, visual e efeitos sonoros. Tudo conversa muito bem e o saldo final é bastante positivo.



O game pode não ser tão grandioso e cheio de personalidade como a franquia Rayman, mas honra as origens dos seus criadores, dando uma sólida e agradável diversão que todo game de plataforma deveria ter. Concluir todas as fases do jogo é muito convidativo e, sem dúvidas, pode abrir espaço para possíveis continuações ou novos jogos nesse estilo. 

Prós

  • Arte belíssima e agradável aos olhos;
  • Trilha sonora oriental fantástica;
  • História simples e cativante;
  • Jogabilidade fluida e divertida;
  • Diferença entre personagens é explorada desde a primeira fase;
  • Nível de desafio considerável;
  • Humor bem encaixado na história;
  • Várias mecânicas de plataforma muito divertidas;
  • Ótimo level design.

Contras

  • Coletáveis não são tão convidativos de serem completados;
  • Modo versus sem muita utilidade no jogo;
  • Alguns movimentos de esquiva ficam fora de ritmo às vezes.
Unruly Heroes - PC/XBO/Switch - Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Análise produzida com cópia digital cedida pela Magic Design Studios.

Gilson Peres é Psicólogo e Mestre em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014 e começou sua vida gamer bem cedo no NES. Atualmente divide seu tempo entre games de sobrevivência e a realidade virtual.

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