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Análise: Muv-Luv (PC/PS Vita) é uma visual novel clássica que transcende o tempo e o espaço

Apesar da idade, Muv-Luv continua se mostrando uma visual novel encantadora com personagens bem desenvolvidos.

Lançada originalmente em 2003 no Japão e apenas recentemente no Ocidente (2017 no PC e este ano no PS Vita), Muv-Luv é uma visual novel muito bem conceituada. Apesar de começar como uma comédia romântica simples com estilo similar a animes e mangás como Love Hina, a obra toma um rumo inesperado a partir de sua segunda metade. Estes dois arcos, respectivamente Extra e Unlimited, constroem em conjunto uma obra com muitas nuances e um excelente desenvolvimento narrativo. Apesar de ser possível jogá-las em qualquer ordem na versão ocidental, é recomendado seguir a ordem original (Extra primeiro, Unlimited depois) para aproveitar melhor a obra.

A calmaria antes da tempestade

Muv-Luv Extra conta a história do jovem Takeru Shirogane, um estudante colegial comum que não é muito bom nos estudos e adora jogar um jogo de arcade chamado Valgern-On, no qual é possível controlar robôs gigantes em batalhas de arena 3D. Ele é diariamente acordado por sua amiga de infância, Sumika Kagami, que mora na casa do lado. Um dia uma garota extremamente rica chamada Meiya Mitsurugi aparece e nada mais é o mesmo na vida do jovem estudante e seus colegas de classe.

Apesar de claramente utilizar-se de clichês do gênero, os relacionamentos desenvolvidos em Extra são ricos em nuances. As interações entre Takeru e Sumika, por exemplo, soam bastante genuínas levando em consideração o tempo de convivência e amizade, com os dois brigando constantemente de forma boba e infantil algumas horas e conversando sobre a vida de forma séria em outras. Meiya tem atributos claros de princesinha rica que desconhece o mundo comum, mas o relacionamento com ela mostra bem o conflito interno da personagem, que se preocupa com os efeitos disso sobre as pessoas com as quais convive. Também é possível destacar traços similares para a representante de classe Chizuru Sakaki, a “menina-gato” Miki Tamase e a jovem apática Kei Ayamine.

Ao mesmo tempo, tudo é muito, muito exagerado e esse alívio cômico bem utilizado oferece fluidez para o enredo. Seja com os socos ultrafortes de Sumika, as atitudes completamente fora da realidade de Meiya ou as referências a obras como o mangá de corrida Initial D, a comédia me fez rir bastante e considerar a experiência mais agradável e charmosa do que eu esperava inicialmente.

Enquanto os traços exagerados são fatores fundamentais do carisma dos personagens, as nuances fazem com que os dramas pessoais tenham profundidade e pareçam realistas.

Além disso, o relacionamento entre as próprias personagens ao longo da história chama a atenção. Isso é especialmente destacado enquanto o grupo tenta montar uma equipe para jogar lacrosse no festival escolar e é necessário melhorar o trabalho em equipe. Mas também é possível notar as mudanças de postura ao longo da história pelos diálogos.

Com as diversas escolhas oferecidas durante o jogo, é possível conhecer melhor as personagens e também alcançar um dos finais específicos em que o relacionamento com uma delas se consolida em romance. Também há dois finais não-românticos.

Um mundo alternativo

Já em Unlimited, o mundo de Takeru vira de cabeça para baixo. O cotidiano bobo que ele tinha como certo tem fim e, em seu lugar, o que o jovem vê é uma guerra incessante que tornou as pessoas mais frias e desesperadas para sobreviver; um lugar em que todos precisam agir coletivamente de forma organizada para proteger o que tem de mais precioso.

Nesse universo alternativo, o jovem é reapresentado para velhos conhecidos que agora nada sabem sobre ele. Nem Meiya, nem Chizuru, nem Kei, nem Miki e nem mesmo seu amigo (e companheiro das jogatinas de Valgern-On) Yoroi conhecem Takeru. Além disso, o grupo é agora parte de uma tropa das Nações Unidas na luta contra as criaturas que ameaçam a paz.

Com uma atmosfera marcada pela tensão extrema, Unlimited apresenta muito bem o drama dessa disputa. Ao mesmo tempo em que há uma união para lutar e uma mentalidade de grupo forte, é nítido o quanto a ausência das liberdades individuais aprisionou a psiquê dos personagens, retirando-lhes boa parte do ânimo e humor que era tão marcante em Extra.


É justamente o protagonista que mexe o grupo, trazendo seu conhecimento de que há outras possibilidades. Graças à consistência dele como personagem entre as duas histórias, a mudança de tom não se tornou tão incômoda quanto poderia ter sido. O resultado é que a interação entre pessoas de mundos diferentes é bastante interessante, fazendo uma reflexão sobre a perspectiva de realidades paralelas e as várias versões de si. A Meiya de Extra e a Meiya de Unlimited possuem certos traços comuns, mas também certas descontinuidades, por exemplo, e isso torna a experiência de “re”conhecer os personagens bastante única.

Infelizmente há dois aspectos negativos que são importantes de ressaltar em relação à Unlimited. O primeiro deles é que não há muita diferença entre as rotas. Há escolhas mais pontuais, que pouco afetam a história e o final de cada personagem é praticamente o mesmo. Inclusive, o outro aspecto negativo é justamente o término do jogo. Com insinuações claras de que há mais por vir na sequência Muv-Luv Alternative, Unlimited me deixou com um gosto amargo com seu final aberto. Havia espaço para um fim mais satisfatório, como os que são apresentados em Extra.

Uma obra que transcende tempo e espaço

Muv-Luv como um pacote completo é bastante recomendado para fãs de visual novels. Apesar da obra já ter mais de uma década de idade, a sua narrativa é muito bem estruturada e seus personagens desenvolvidos de forma fantástica. Vale destacar novamente que, apesar do menu ter a opção de jogar Unlimited desde o início, boa parte do peso emocional dessa parte da obra depende da experiência simples oferecida por Extra, sendo aconselhável jogá-las na ordem.

Prós

  • Personagens muito bem desenvolvidos, cheios de nuance;
  • Humor e drama bem utilizados para que o jogador se familiarize e empatize com os personagens;
  • Trilha sonora marcante eleva os momentos chave ao mesmo tempo em que oferece certa nostalgia na transição entre Extra e Unlimited;
  • Surpreendentemente, a mudança de tom entre as duas partes consegue ser bem conduzida devido à personalidade descontraída do protagonista.

Contras

  • Algumas cenas do jogo não podem ser puladas, o que é bastante incômodo ao rejogar para fazer outra rota;
  • Borrões nas imagens dos personagens incomoda em alguns momentos;
  • Praticamente não há diferença entre as rotas de Unlimited;
  • Final aberto deixa um gosto amargo de que é necessário jogar a sequência Muv-Luv Alternative (PC/PS Vita) para completar a história.
Muv-Luv – PC/PS Vita – Nota: 9
Versão utilizada para análise: PS Vita
Revisão: Francisco Camilo
Análise produzida com cópia adquirida pelo próprio redator
Ivanir Ignacchitti é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não esteja com um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.

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