Jogamos

Análise: The Longest Five Minutes (Multi) é um curioso RPG sobre memórias

O pequeno RPG desenvolvido pela SYUPRO-DX em parceria com a NIS é uma jornada simples, mas charmosa pelas memórias de um herói.

Após uma longa jornada, um grupo de heróis finalmente chega ao castelo do líder dos demônios. Esse é o momento final da jornada, a última batalha que definirá o destino de todo o planeta. No entanto, o grande líder do grupo perde suas memórias e, com isso, a sua capacidade de lutar. Essa é a premissa de The Longest Five Minutes.
Desenvolvido pela SYUPRO-DX e pela Nippon Ichi Software, o jogo é um RPG curioso em que o jogador vivencia flashbacks recuperando aos poucos pedaços da memória do protagonista ao mesmo tempo em que precisa fazer escolhas para enfrentar o chefão com os recursos que tem à disposição.

Moldados pelas memórias

Com base no conceito de perda de memória, o jogo procura discutir o quanto nós, seres humanos, somos criaturas construídas pelo nosso passado, por aquilo que fizemos e experimentamos. No início, o protagonista Flash Back se vê totalmente incapaz de enfrentar o chefão e, conforme vai se lembrando dos outros personagens e do caminho que passaram para chegar até ali, recupera suas habilidades, reaprende como lutar e agir.

O jogo alterna entre a batalha contra o grande líder dos demônios e os flashbacks da jornada. Como o jogador está diante de um poderoso inimigo no tempo presente, ele não pode se concentrar apenas no passado. É necessário tomar decisões para enfrentá-lo. As escolhas do jogador afetam o desenvolvimento da batalha, podendo inclusive levar a alguns eventos diferentes. No entanto, a progressão é praticamente a mesma, sendo apenas as últimas decisões importantes para determinar o final do jogo.

Junto com Flash nessa jornada estão Clover, Regent e Yuzu, que seguram as pontas enquanto seu líder se encontra inapto a enfrentar o boss final. Atendendo a uma convocação do rei de Stockwood, os quatro heróis saem de seu pequeno vilarejo. Com o número de monstros crescendo alarmantemente, Sua Majestade ordena aos jovens que investiguem a situação de Gastonbury, uma nação ao oeste que costumava ser uma enorme potência militar, mas há relatos de que uma névoa misteriosa chamada simplesmente de “Fog” cobriu a área, fazendo demônios aparecerem e matando grande parte da população. 

Obviamente, no caminho eles precisam enfrentar vários monstros, que vão desde ratos e pinguins até criaturas com aparência de garrafas de vinho e trens. Apesar do estilo bastante simples, as artes em pixel desses inimigos são muito bonitas. Infelizmente, as batalhas são simples também no aspecto estratégico. É possível derrotar a maioria apenas com ataques básicos e eventual cura, eliminando a necessidade de planejamento. Em minha experiência com o jogo também nunca utilizei as hospedarias e lojas das cidades visitadas exceto para a realização de quests.

Dessa forma, jogadores que querem apenas avançar na história podem aproveitar o jogo com facilidade, mas a falta de desafio é bem nítida. A proposta do jogo é outra, a exploração dos episódios da jornada rememorados pelo protagonista, uma experiência minimalista que fica clara pelas falas dos NPCs e pelas missões oferecidas.

Uma experiência minimalista

Apesar de ser um RPG, The Longest Five Minutes não apresenta uma grande aventura épica dos heróis. A jornada deles, mesmo pontuada por algumas situações heróicas, é muito mais cotidiana e simples. Boa parte do jogo são quests opcionais com pequenos atos de ajuda aos cidadãos comuns, como ajudar uma senhora a encontrar seu filho pequeno que se perdeu enquanto faziam compras. Curiosamente esses pequenos personagens com suas vidas pacatas são um grande charme do jogo, sendo interessante conversar com eles, conhecê-los um pouco, rir e refletir sobre algumas situações e diálogos.

Cada memória tem suas próprias missões que são descritas em frases curtas no menu. Elas também são bem fáceis de achar, já que cada memória funciona como um capítulo fechado em que o jogador tem uma área restrita do mundo para interagir. Também é utilizada uma exclamação para demarcar as personagens importantes para a interação, reduzindo a necessidade de vasculhar as áreas em busca delas.

Quando o jogador completa uma dessas missões, recebe um achievement e isso também é contabilizado durante a tela de encerramento do capítulo. Cada quest realizada vale uma quantidade adicional de pontos de “Reexperiência”, que também são obtidos nas batalhas. Como o nome indica, eles são os tradicionais pontos de experiência obtidos em um RPG, necessários para ganhar níveis e tornar a equipe mais forte. Um diferencial aqui é que não há níveis separados por personagem, sendo o nível referente à força da equipe inteira.


Além das quests, há dois minigames, que também oferecem reexperiência. No primeiro deles, o jogador controla uma personagem que atira flechas para atingir Prinnies (uma espécie de pinguim recorrente das obras da Nippon Ichi) que pulam de um lado para o outro na tela. Cada tipo de Prinny explode de uma forma diferente e é importante avaliar bem o timing para conseguir uma boa pontuação.

O outro é um infinite runner. Nele, o jogador apenas controla o pulo do personagem e precisa usar esse timing para evitar os fantasmas, se manter acima das plataformas e obter moedas para melhorar sua pontuação (que também aumenta de acordo com o quão longe o personagem vai). Existem duas dificuldades, normal e fácil, sendo a diferença entre elas o controle e a velocidade. Enquanto a dificuldade fácil permite o uso de botões convencionais para pular, a normal oferece apenas controles de toque e tem uma velocidade mais acentuada.

Um curioso RPG em miniatura

The Longest Five Minutes é uma aventura curiosa. Utiliza o visual retrô e certos clichês do gênero RPG (em especial daqueles advindos do Japão) para evocar experiências passadas do jogador, ao mesmo tempo em que propõe uma experiência mais contida. A sensação é de jogar um fragmento, um RPG em miniatura.

Infelizmente o jogo fica devendo na exploração da sua própria temática de jornada pelas memórias do herói. A proposta evoca uma noção de não-linearidade que inclusive é mencionada no jogo, mas simplesmente não corresponde ao que somos apresentados. A história é direta e organizada de uma forma linear e coesa para que o jogador não fique perdido pelos eventos. Se por um lado isso é algo bom por facilitar uma jogada casual, por outro é um grande exemplo de desperdício de uma premissa tão interessante.

O jogo também não apresenta grandes desafios, se tornando desestimulante para fãs dos aspectos mais estratégicos do gênero RPG. Apesar dessas falhas, o jogo possui bastante charme e é recomendado especialmente para quem tem interesse em ver como a premissa de jornada pelas memórias é desenvolvida.

Prós

  • Arte em pixel muito bonita, em especial o design dos inimigos e algumas animações dos protagonistas;
  • Personagens e diálogos interessantes;
  • Quests opcionais desenvolvem bem a sensação de um mundo corriqueiro;
  • Interessantes reviravoltas nos momentos finais do jogo.

Contras

  • Batalhas bastante simples (pouca ou nenhuma estratégia envolvida);
  • A jornada é curta, especialmente sem as quests opcionais;
  • Poucas decisões são verdadeiramente significativas;
  • O jogo não explora a não-linearidade de uma jornada pelas memórias.
The Longest Five Minutes – Multi – Nota: 6.5
Versão utilizada para análise: PS Vita
Revisão: Marília Carvalho
Ivanir Ignacchitti é formado em Comunicação Social pela UFMG e costumava trabalhar numa equipe de desenvolvimento de jogos. Obcecado por jogos japoneses, é raro que ele não esteja com um videogame portátil, sua principal paixão desde a infância.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook