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Análise: Call of Duty: Black Ops 4 (Multi) mostra que a franquia pode inovar com pequenas novidades

Campanha singleplayer não chega a fazer falta graças ao modo Blackout.


Call of Duty: Black Ops 4 (Multi) chegou com o estigma de estar sem uma campanha para um jogador. Indo contra a tradição da série, o foco está em um ambiente completamente online, mesclando modos de jogo competitivos e cooperativos em uma experiência que, mesmo trazendo sentimentos oscilantes por alguns aspectos, é sólida e bem divertida.


O tradicional multiplayer com uma dose tática

Possivelmente a porção mais jogada e amada pelos fãs de Call of Duty, o modo multiplayer não chega totalmente repaginado, mas conta com algumas atualizações muito bem-vindas e que tornam Black Ops 4 único.

Uma das adições que mais chamam a atenção é a modalidade de jogo Controle, que consiste em partidas entre equipes de ataque e defesa. Para vencer, os atacantes devem capturar dois pontos no mapa ou eliminar todas as vidas dos defensores. O mesmo vale para o time da defesa, cuja vitória virá se conseguirem proteger por tempo suficiente suas áreas ou exterminar os inimigos por completo. O trabalho em equipe é essencial para vencer e isso talvez nunca tenha sido tão explícito na série.



Modalidades tradicionais como Mata-Mata em Equipe, Dominação e Zona de Controle seguem presentes. Há uma seleção vasta de listas de jogos para saciar a vontade e a necessidade de todos os jogadores, apesar de alguns modos ficarem nitidamente mais cheios do que outros.

Introduzidos previamente em Call of Duty: Black Ops 3 (Multi), os Especialistas funcionam como classes especiais de soldados, contando com uma habilidade suprema única e um equipamento especial específico. São dez disponíveis, abrangendo capacidades ofensivas e defensivas de maneira balanceada.

A grande verdade é que o real potencial de Black Ops 4 e seus Especialistas só é atingido em modalidades voltadas para objetivos de grupo, e não para o confronto direto. Partidas de Controle, Dominação e Zona de Conflito possuem um brilho muito maior ao exigir não somente o trabalho em equipe, mas o uso correto das habilidades e equipamentos de cada personagem. Soldados como Battery e seu lança-granadas ou Torque e seu arame farpado têm muito mais utilidade ao serem usados em objetivos específicos de captura e proteção.

As armas como personagens à parte

Não se engane: a sensação de que se está jogando um Call of Duty é muito presente em Black Ops 4. Com uma jogabilidade pé no chão, o jogo segue os moldes de títulos como WWII e Modern Warfare. Tudo o que os fãs amam e conhecem sobre a série está aqui, desde os ataques em série (killstreaks), até as habilidades passivas que conferem bônus específicos (perks), como capacidade de coletar munição de inimigos mortos ou passos mais leves e silenciosos.

O sistema de personalização de classes permite que o jogador monte um conjunto de equipamento de dez espaços. Cada item escolhido consome um espaço, exigindo que o jogador planeje bem a montagem do conjunto, pensando não apenas no seu estilo de jogo, mas também na possibilidade de variar os armamentos. Montar múltiplos conjuntos voltados para situações diversas é ideal para tirar proveito de certos modos e mapas.

Com uma ampla variedade de armamentos, indo de fuzis de assalto e submetralhadoras a escopetas, pistolas e rifles de precisão, Black Ops 4 deixa que as armas se tornem personagens próprios ao colocar anexos únicos para cada uma delas. Antes, todas possuíam anexos e ordem de desbloqueio idênticos. Agora, contam com progresso único, ampliando as opções de customização e oferecendo um sistema implícito de potencialidades e deficiências graças às suas particularidades.

Para desbloquear novas armas e equipamentos, basta subir de nível. São 55 níveis, cada um deles liberando um novo item. Ao atingir a experiência máxima do último nível, o jogador pode ativar o modo Prestígio, resetando seu nível e trancando tudo novamente, mas oferecendo em troca um emblema especial de Prestígio e uma ficha de desbloqueio permanente de qualquer item. Veteranos de Call of Duty sabem bem o que é “prestigiar”.

Um passo para trás

Um dos maiores problemas para o multiplayer tradicional de Black Ops 4 fica por conta da personalização cosmética de seus Especialistas. Em títulos passados, como Black Ops 3 e WWII, era possível customizar os soldados com inúmeras opções de roupas e cores. Em ambos os jogos era possível desbloquear novas variedade através de caixas de suprimentos (as famosas lootboxes). Essa opção não existia em Black Ops 4 até a última sexta-feira, quando o jogo fora atualizado e os jogadores introduzidos ao Black Market.

O Black Market consiste em um sistema de progressão e desbloqueio de itens por temporada. A primeira temporada é chamada de First Strike. Oferece um conjunto extenso de itens, como gestos especiais, grafites, cores de Especialistas e até mesmo variantes de armas únicas e especiais. Basta jogar o game para que a barra de escalão se encha. Ao completá-la, o item do nível de escalão atingido é liberado. Há pouquíssimas variações de cores e outras opções cosméticas no game. Isso mostra qual será a abordagem da produtora com relação às microtransações, fora a existência do famoso Season Pass, chamado aqui de Black Ops Pass.

A chegada de Call of Duty ao battle-royale

Com a popularização do gênero battle-royale, era de se esperar que grandes títulos da indústria de jogos adotariam tal gênero para si. Black Ops 4 introduz seu modo BR sob o título de Blackout, que pode ser jogado solo, em duplas ou esquadrões de quatro pessoas. O número de jogadores varia, sendo 88 para partidas solo e esquadrões, e 100 para partidas em duplas. Os participantes são alocados em um imenso mapa contendo localidades baseadas em mapas icônicos da franquia Call of Duty, como Nuketown, Firing Range e Estate.

O objetivo em Blackout é ser o único ou a única equipe sobrevivente da partida. Para tal, é preciso buscar armas, itens de cura e proteção espalhados pelo cenário. Um círculo se abre e vai se fechando conforme o cronômetro avança, exigindo que os jogadores se movam para seu centro e não sejam pegos fora dele, o que causa dano constante, caso aconteça. É possível se locomover a pé ou com veículos terrestres, aquáticos e aéreos.



O maior charme de Blackout, e talvez do gênero em si, está na tensão dentro das partidas. A ansiedade causada pela procura de uma arma enquanto se ouve passos próximos é absurda, e cria um nervosismo imersivo nos jogadores. A expectativa de não saber o que irá encontrar na próxima esquina, ou se há algum adversário distante pronto para matar é angustiante, e reforça ainda mais a necessidade de cuidado, atenção e calma na hora de se locomover pelo mapa. São sensações e estilo de jogo bem diferentes da jogabilidade tradicional de Call of Duty.

Ainda que não traga nenhum tipo de inovação para o gênero, Black Ops 4 realiza o básico do battle royale com muita competência, oferecendo uma bela qualidade gráfica (apesar de visivelmente inferior em qualidade de texturas se comparada ao multiplayer tradicional) e uma performance técnica bastante satisfatória. Em minhas jogatinas, não encontrei nenhum tipo de bug que prejudicou minha experiência, apesar de acreditar que o início das partidas, às vezes, tende a demorar mais do que o ideal.

Ter boa colocação nas partidas, eliminar inimigos e completar outras tarefas menores e diferentes concede méritos para o jogador. Acumular méritos permite que se suba de nível desbloqueando novas opções de customização de personagem para o Blackout. Aliás, desbloquear personagens como os Especialistas do multiplayer ou de jogos anteriores para uso no battle royale exige uma dose altíssima de sorte e habilidade, a ponto de ser algo que jogadores casuais, possivelmente, não irão conseguir ter disponível para uso. Exigências como encontrar um item específico e finalizar entre os 15 primeiros na partida são comuns e absurdas, pois tais itens não possuem local fixo de aparecimento. Ou seja, é contar com a sorte mesmo.

Zumbis para todos os gostos

Quem acompanha Call of Duty sabe como o modo Zumbis faz sucesso. Nascido como easter egg em Call of Duty: World at War (Multi), Zumbis ganhou força dentro da comunidade de fãs e hoje funciona como uma experiência praticamente à parte dentro da franquia. É como um jogo bônus incluso no pacote.

Black Ops 4 traz não somente um, mas três mapas completos e distintos para o Zumbis. IX, que coloca os jogadores em uma arena de gladiadores; Viagem do Desespero, com hordas de zumbis infestando o Titanic; e Sangue dos Mortos, com uma infestação de mortos-vivos na prisão de Alcatraz.

Cada mapa possui uma história própria, colocando os jogadores na pele de um dos protagonistas. Nenhuma delas é levada a sério de fato, e muitos dos jogadores, especialmente os casuais, não irão conferir o desfecho das pequenas narrativas dos cenários. Isso porque, para avançar dentro das partidas, é preciso cumprir uma série de objetivos extremamente escondidos e que não são, em momento algum, explicitados para os jogadores. O que temos são pistas que devem ser seguidas e, ainda assim, bastante subjetivas.

Jogadores casuais, como eu, terão a necessidade inerente de seguir um guia escrito ou por vídeo para chegar até o fim. Este é meu maior problema com o modo Zumbis. Para os aficionados, é uma modalidade repleta de segredos e easter-eggs. Mas para quem busca uma diversão casual, não oferece mais do que uma experiência de “sobreviver o máximo que puder”.

Há a introdução de novas modalidades no Zumbis. O modo Clássico oferece a experiência original, em que os jogadores devem buscar sobreviver, explorar o mapa e cumprir os objetivos secretos para avançar na história. São quatro níveis de dificuldade, indo do Casual ao Realista, e que são um cartão de boas-vindas a novatos e veteranos.



O modo Corrida Zumbi também é introduzido, e oferece uma experiência de jogo mais direta e voltada para o acúmulo de pontuação. O objetivo aqui é derrotar as hordas de zumbis dentro de uma área específica. Ao término da onda, as portas se abrem para a próxima localidade, e o jogador deve correr para alcançá-la dentro do tempo estabelecido enquanto desvia de inimigos comedores de carne humana. É um dos modos mais divertidos por ser algo simples e direto, podendo ser desfrutado por um a quatro jogadores, que irão cooperar para progredir e competir para ver quem faz mais pontos.

A criação de classes está presente, oferecendo a chance do jogador personalizar a sua com elixires que podem ser ativados a qualquer momento durante a jogatina; tônicos que conferem vantagens passivas dentro das partidas (velocidade de movimento ou recarga mais veloz de granadas) e podem ser adquiridos com dinheiro ganho durante as rodadas; além de armas especiais que podem ser ativadas quando seu medidor se completa, como um cetro que dispara um feixe de energia do deus Rá ou uma katana japonesa que derrota os inimigos com um só golpe.

Um outro adicional muito bem-vindo é a possibilidade de se adicionar bots de inteligência artificial em partidas de um jogador. Isso facilita a vida de quem não quer deixar de experimentar o Zumbis mas não quer contar com a presença de outros jogadores. Além disso, é possível criar partidas totalmente personalizadas, ajustando opções diversas como comportamento dos inimigos, frequência de inimigos mais fortes, velocidade dos zumbis, dentre outros.

Um grande tutorial

Substituindo o modo campanha tradicional, temos o QG de Especialistas, que conta com vídeos introdutórios e fichas com informações de todos os personagens do modo multiplayer. As missões funcionam como pequenos tutoriais para as habilidades e equipamentos únicos de cada um deles, e contam pequenas partidas de modalidades do multijogador em uma espécie de simulação virtual de combate.

O QG de Especialistas é bem-vindo, especialmente por dar a chance de se aproximar mais ao conhecer sobre aqueles que mais gostamos de utilizar nas partidas. Possui uma pequena história própria, ligando com o que já foi visto nos títulos anteriores de Black Ops mas, no fundo, não é nada mais do que um treinamento para as partidas online. Apesar de bem-vindo, não faria falta se não estivesse presente.

Visualmente falando, Call of Duty parece ter parado no tempo. A qualidade das texturas é inegável, com cenários variados e repletos de detalhes, além de uma qualidade de iluminação boa e eficiente, mas inferior até mesmo a Black Ops 3. É possível ver, especialmente em imagens comparativas, que a qualidade gráfica geral é a mesma do capítulo de 2015, mas BO4 não possui detalhes como feixes de raio de sol ou movimentação da água quando o personagem sai dela. São detalhes mínimos e que possivelmente quase ninguém irá perceber, mas é válido notá-los para reconhecer que Call of Duty estagnou e não oferece nenhum tipo de melhoria gráfica que mereça destaque. É feio? Não e jamais será, mas poderia ser muito mais bonito do que é.



Call of Duty: Black Ops 4 (Multi) oferece uma experiência muito competente e positiva em todas as suas três frentes principais. Atingem públicos diversos, mas qualquer jogador tem a oportunidade de migrar entre as diferentes opções oferecidas e encontrar uma diversão muito própria. O multiplayer tradicional brilha em partidas de objetivos de grupo, enquanto Blackout realiza muito bem os fundamentos de um battle royale mesmo sem oferecer nenhuma característica inovadora. Zumbis é a experiência completa e definitiva para um jogo base de Call of Duty, com opções de customização de partidas amplas e convidativas. Em momento algum “reinventa a roda”, mas com toda certeza oferece uma pequena revitalização dentro da série.

Prós

  • Partidas de objetivos de grupo e utilização de Especialistas;
  • Blackout é um battle royale muito bem executado e divertido, especialmente se jogado com amigos;
  • Três experiências completas e distintas para o Zumbis;
  • Ampla customização de partidas no Zumbis.

Contras

  • Potencial dos Especialistas é minado em partidas cujo objetivo seja o confronto direto;
  • Desbloquear personagens icônicos no Blackout exige quantia surreal de sorte e habilidade;
  • Narrativa do modo Zumbis e seus easter-eggs não são receptivos a jogadores casuais;
  • Qualidade visual estagnada.
Call of Duty: Black Ops 4 — PS4/XBO/PC — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS4
Revisão: Link Beoulve
Análise produzida com cópia digital cedida pela Activision 
Francisco Camilo é ex-viciado em platinas na família PlayStation e sonha em ser escritor no futuro. Divide suas jogatinas entre jogos de todos os tipos e partidas de Battlefield e Call of Duty.

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