Crônica

Passwords e telas de continues: minhas experiências com os "saves" antigos

Antes dos HDs, Memory Cards e até mesmo baterias internas, o único jeito de zerar um jogo era na raça ou gastando muito papel e caneta anotando as famigeradas passwords.



Quando os consoles caseiros foram criados no início da década de 1970, a tecnologia usada era muito rudimentar e o conceito dos jogos eram baseados em simplesmente bater recordes ou vencer o amigo em uma disputa de "um contra um". Este conceito foi muito usado até a 2ª geração dos consoles, com algumas raríssimas exceções de jogos com finais.



Foi neste mundo que eu fui apresentado aos videogames, jogando em um Philips Odyssey (Odyssey²), ou tentando fazer o melhor recorde no Senhor das Trevas, Didi na Mina Encantada ou no Demon Attack; ou nas disputas contra meu irmão e meus amigos num Duelo no Velho Oeste, Bilhar ou em um Golfe. Era uma época simples, com jogos simples, porém, foram anos incríveis na frente do velho Odyssey.


Mas quando o Master System chegou lá em casa, esse conceito mudou. Agora era possível terminar os jogos. Não eram mais recordes em jogo, agora era toda a humanidade — ou a namorada do protagonista — a serem salvos. E para chegar até o fim destas jornadas era bem complicado, não existia saves, por isso a grande maioria era mesmo na raça.

No entanto, para aliviar mais a barra dos jogadores e tornar nossa vida menos difícil no mundo dos jogos vieram algumas artimanhas e benesses oferecidas pelos produtores dos jogos. Alguns tínhamos que descobrir na sorte ou nas revistas, eram os cheats para aumentar as vidas e continues; outros como recompensas, eram as passwords que nos eram premiadas a cada passar de fase.

Continues contados

Os jogos da terceira geração de consoles ainda eram feitos na pegada dos arcades, ou seja, eram feitos para nos massacrar, e como não tínhamos direito às fichas dos fliperamas, todos os continues eram contados. Se gastássemos o último, a tela de Game Over aparecia e tínhamos que começar tudo de novo.

A tela de continue era o que tínhamos de mais próximo dos saves. A maioria dos jogos tinham os continues limitados, somente alguns nos davam o prêmio de aumentar os continues na medida que o Score era aumentado. Mesmo assim, para zerar um jogo nessa época eram preciso muitas horas gastas, muitos Game Overs, uma memória excelente (para decorar os inimigos) e muita paciência.


Foi assim com os primeiros jogos que zerei. No Master System foi o Black Belt. Ele não tinha os continues, porém, à medida em que aumentava a pontuação, eu ia ganhando vidas extras. Este jogo só se zerava na raça mesmo, sem cheats, Passwords ou continues. Já com Altered Beast, ainda no Master System, foi diferente. No próprio manual do jogo havia a sessão "Dicas Úteis" e uma delas era como conseguir um continue no jogo. Foi difícil zerar, somente depois de aprender a usar os continues que logrei êxito em salvar Athena do nefasto Neff.




Já o primeiro Super Mario Bros (NES) que zerei, precisei coletar muitas moedas e fazer muitos pontos para, literalmente, estocar vidas e continues. O jogo não tinha sequer passwords, muito menos um save game. Este foi preciso de muito tempo — para decorar todas as fases, inimigos e bosses, e, principalmente, a ajuda das revistas que apontavam onde encontrar todas as flautas mágicas, encurtando, assim, o caminho para chegar no Rei Koopa, como era chamado o Bowser neste jogo.

Anotando passwords

Quando o jogo era mais longo, zerar na raça era praticamente impossível — vide Kid Chameleon do Mega Drive, sem saves ou passwords e com mais de 1.000 fases — ou a pessoa devia ficar dias acordado tentando finalizar o jogo, ou dava uma pausa ia dormir e enlouquecia seus pais no final do mês quando chegava a conta da luz.

As passwords foram criados para resolver esses problemas, a cada passar de fase você recebia uma, como um tipo de premiação por ter avançado no jogo. Daí, era só pegar papel e caneta, anotar a senha e continuar o jogo, sem medo de Game Over, pois se morresse, bastava usar os códigos anotados que você continuaria de onde parou.

Algumas passwords pareciam infinitas, e anotar era um verdadeiro exercício de perseverança e paciência. As do primeiro Super Mônaco GP (Mega Drive) eram absurdas, com 64 caracteres a serem anotados. No final do jogo, não sobrava espaço no caderno para anotar todas. Outras era preciso ter memória fotográfica ou ser um excelente desenhista, como em World of Illusion (Mega Drive) que era necessário decorar a cara dos personagens para anotar as passwords.

Porém, houve passwords que se tornaram icônicas. Em Rolling Thunder do Mega Drive era preciso anotar as frases como senhas, algumas ficaram gravadas comigo até hoje como “A Rolling Program Smashed the Genius”. Mas as mais icônicas são as do Top Gear (Super Nintendo). Até hoje nos lembramos das palavras “Moonbath” e Gearbox”. Inclusive, um jogo de grande sucesso que foi feito em homenagem a franquia levou o nome de uma de suas mais famosas passwords, o Horizon Chase Turbo (PS4), em analogia à última senha do nível fácil de Top Gear, “Horizons”.

Cheats que salvaram vidas (ou não)

E quando os jogos não tinham passwords o que fazíamos? Existem duas respostas; ou tentávamos zerar na raça ou descobríamos os cheats do jogo. Sim, literalmente trapaceávamos, e isso era considerado uma vitória. Nos anos 1990, qualquer um que descobrisse um cheat novo era ovacionado como um rei.


Kid Chameleon, até os dias atuais, é considerado como um dos jogos mais difíceis que existiram, era praticamente impossível zerá-lo, o mais distante que eu chegava era na fase da mosca. Mas, fuçando em minhas revistas, havia uma dica maravilhosa: na fase 1-2, chegando no último bloco em cima da bandeira, se subindo neste bloco e apertando diagonal inferior direita, mais especial e pulo (tudo ao mesmo tempo), você será levado direto ao último chefe, que não é nada fácil derrotá-lo, mas pelo menos pegava um atalho, escapando das mais de 1000 fases do jogo.

Dentre os cheats, o mais famoso é o Konami Code. Muitos jogos o premiavam quando descobria o código. Eu mesmo o usei muito no primeiro Contra (NES), ganhando 30 vidas extras. Sem ele nunca teria chegado ao final deste jogo tão hardcore. Mas alguns jogos te puniam por tentar usar o código. Lembro quando fui tentar fazer isso em Tomb Raider 2. Uma das revistas que tinha ensinava um truque explosivo, quando fui tentar fazer eis que a pobre Lara explode, em mil pedacinhos, na frente dos meus olhos. Perdi uma vida e tive que continuar do meu último save.

Ventos da mudança

Os anos 1990 passaram, logo tudo isso entrou em desuso. Com os cartões de memória e memória interna nos próprios consoles, tudo isso passou a ser desnecessário. Não precisamos mais anotar as passwords, bastava iniciar o jogo do seu último save, facilitando muito as nossas vidas.


Hoje, os cheaters são tratados como verdadeiros trapaceiros e são punidos por isso, o que é justo! Afinal, muitos jogos de hoje são mais competitivos, não é simplesmente você contra a máquina tentando salvar o mundo, é você contra milhares de pessoas ao redor do mundo disputando entre si, e tem que haver igualdade nessas disputas. Neste mundo, cheaters são merecidamente punidos por tentar tirar vantagens indevidas nas disputas.

Porém, no século passado, tudo era levado mais na brincadeira. Zerar um jogo usando Konami Code e esfregar na cara do colega, zoando com o amigo, tudo era diversão e levávamos isso numa boa, pois cada segredo descoberto, cada password conquistado, era dividido entre os amigos, para que eles pudessem também usufruir destas descobertas.


Esta foi uma época boa, mais ingênua, mais infantilizada. Quando jogávamos videogames dividindo o controle com os amigos e depois saíamos para jogar bola ou futebol de botão. Época em que éramos simplesmente crianças tentando salvar o mundo em frente à televisão com um joystick na mão.

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Lúcio Amaral é jornalista e advogado, músico por paixão e gamer desde que se conhece por gente. Sua paixão pelos videogames começou na segunda metade dos anos 1980 quando teve seu primeiro videogame, um Philips Odyssey - ou Odyssey² - quando tinha 7 anos. Acompanhou, com muito entusiasmo, todo caminhar tecnológico e assumiu uma paixão pela Sega, sem deixar de flertar sempre com a Nintendo. Hoje é colecionador com um acervo que vem desde a segunda geração de consoles aos mais atuais e encontrou no Blast uma maneira de compartilhar toda sua paixão e convívio com esse fantástico mundo dos videogames.

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