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Análise: Pixel Ripped 1989 (PC/PSVR) é uma incrível e criativa viagem entre os anos 80 e 90

Criado pela desenvolvedora brasileira ARVORE, o jogo é um show de nostalgia, mesclando games 8-bits com a realidade virtual.

Idealizado pela desenvolvedora independente brasileira Ana Ribeiro, Pixel Ripped 1989 (PC/PSVR) foi lançado no primeiro semestre para os óculos de realidade virtual mais populares do PC: Oculus Rift e HTC Vive. Mais recentemente, no dia 31 de julho, o título recebeu também uma versão para PlayStation VR, a qual ajudou deixá-lo ainda mais na boca do povo. Isso porque, além de ser feito por uma brasileira, o título homenageia a geração 16-bits, período no qual a desenvolvedora da ARVORE cresceu. Por isso, preparem-se para um túnel do tempo bem diferenciado, em que futuro e passado se tornam um só.


Isso porque Pixel Ripped 1989 te coloca na pele de uma garotinha que precisa salvar o mundo de uma invasão partida de um videogame portátil. Entretanto, ao mesmo tempo que precisa vencer os desafios do jogo, também precisa sobreviver à pressão de ser uma garotinha na escola, fugindo dos olhares atentos dos professores enquanto joga. O título focado na realidade virtual esbanja criatividade e mostra como podemos ter excelentes ideias aplicadas à esta tecnologia.

História simples e genial

O enredo de Pixel Ripped 1989 é bem simples e linear, o que em si já é uma referência aos games da década de 80, em que não era possível elaborar histórias tão complexas assim por conta da limitação de hardware dos consoles. Porém, aqui recebemos um choque entre dois tempos sem igual. Isso porque entramos no corpo de uma garotinha que, no meio de seus anos primários da escola, está jogando um console portátil que lembra bastante o Game Boy, da Nintendo.

Tudo começa quando um terrível feiticeiro que dominava o mundo do jogo portátil resolve expandir seus horizontes e fugir dali, tentando dominar o mundo real. Assim, incorporada em seu avatar dentro do jogo, a garotinha precisa salvar o mundo de uma invasão pixelada que pode destruir ambas as realidades.



O mais interessante desse choque é a forma como elementos de 16-bits foram introduzidos na visão em primeira pessoa da realidade virtual com maestria. Logo no início do jogo nos encontramos imersos no mundo do jogo, jogando outro jogo dentro deste, em nosso quarto totalmente em 16-bits. A imersão combinada com o choque de realidade ao ver um mundo 2D em três dimensões é sensacional e, por si só, já faz Pixel Ripped se diferenciar da maioria dos games em VR.

Jogando o jogo dentro do jogo

O conceito pode parecer confuso à primeira vista, mas na prática, é divertidíssimo. Na maior parte do tempo de jogo, estamos na visão em primeira pessoa da garotinha durante sua vida rotineira, enquanto jogamos nosso console portátil favorito. Assim, a ideia é realmente de estarmos em outro mundo (e outro tempo) jogando um jogo dentro de um jogo. Com o console portátil em mãos de forma bastante realista, fica fácil se imergir nesse mundo e se perder no joguinho simples, porém desafiador que está na nossa frente.



Esse conceito de jogo dentro do jogo é explorado de diversas formas ao longo da jogatina, sendo um dos pontos de maior criatividade do título. Porém, levar o jogador a outra realidade para inserir uma terceira dentro desta não é simplesmente estético, isso porque existem elementos necessários na realidade da jovem estudante que atrapalham e aumentam o senso de desafio do joguinho em 8 ou 16-bits do console portátil.

Durante a aula, por exemplo, é preciso atrapalhar a professora de diversas formas para ter mais tempo para jogar as fases sem ser interrompido. Ao mesmo tempo, precisamos explorar visualmente uma sala de aula cheia de referências aos anos 1980 e 1990 para descobrir formas de ganhar vantagem em cima da severa e caricata professora.



Fora isso, em outras fases do jogo, as barreiras entre as duas realidades estabelecidas pelo título começam a se diluir, transformando pombos em dragões mortais que querem levar as criancinhas para o mundo pixelado ou então criando toda uma fase de jogo nas paredes da sala do diretor, onde este é o vilão a ser enfrentado.

A questão é que todos os conceitos criados no jogo esbanjam criatividade e maestria de mecânicas, dando um mescla surreal e divertidíssima à jogabilidade. Somente o jogo portátil por si só já seria um título interessante, mas toda a ambientação oitentista/noventista observada pela garota melhora ainda mais a experiência.


8, 16, 32, 64…

O jogo portátil é o foco de todo o enredo e de boa parte das mecânicas do título. Tanto que Pixel Ripped é o título do game que jogamos no console portátil. Porém, o jogo passa longe do marasmo, juntando elementos clássicos das décadas passadas com algumas genialidades que misturam todas as gerações.

Ao começarmos a aventura (a qual é dividida em vários mundos), somos apenas um pixel em tela, remetendo aos clássicos jogos de Atari, no qual um pontinho branco protagonizava toda a diversão. Porém, ao coletar outros pixels (que lembram bastante as moedas de Mario ou os anéis de Sonic), nossa protagonista começa a se transformar, melhorando em resolução e se tornando mais forte com isso.



Assim, de 8 pulamos para 16-bits e, em seguida, para 32. Porém, caso tomemos dano dos inimigos, perdemos grandes quantidades de pixels (assim como Sonic), voltando ao nosso tamanho reduzido de outrora (assim como Mario). Essa mescla de mecânicas de jogo clássicas combinadas com a “viagem no tempo” das diversas resoluções é algo fantástico que dá ainda mais graça ao título.

Os cuidados com as homenagens

Pixel Ripped 1989 homenageia claramente os videogames da transição entre os anos 1980 e 1990. O game não se preocupa nem um pouco em esconder isso, principalmente por utilizar essa característica em seu enredo principal. Entretanto, sua história, bem como sua jogabilidade não se apoia nessas referências como se fossem muletas, o que é um aspecto excelente no quesito originalidade.



Existem referências à grandes franquias, consoles e momentos do passado, como os já citados Mario, Sonic e Game Boy, bem como outros clássicos como Castlevania, The Legend of Zelda, Mega Man, Final Fantasy e até outros mais antigos como Wonder Boy (ou Turma da Mônica na Terra dos Dragões). Porém, todas essas referências são vírgulas na história e na jogabilidade, deixando tudo como pano de fundo para algo totalmente original.

Assim, a maior riqueza de Pixel Ripped está em seus detalhes. Coisas como a homenagem a Metroid no final do jogo, quando uma revelação é feita sobre a protagonista, ou então as bordas das plataformas arredondadas, tal como ocorre no mortífero Crash Bandicoot (PS1). Tudo aqui foi feito e pensado como uma homenagem, mas não como uma muleta. Tornando a experiência original e incrível, além de nostálgica e emocionante.


Viagem curta com gostinho de “quero mais”

Se podemos dizer que Pixel Ripped 1989 peca em alguma coisa, é na duração de seu gameplay. Isso porque com um pouco mais de 3 horas é possível completar a história do game. Entretanto, mesmo que a experiência seja bem curtinha, não deixa de ser incrível e, na verdade, ainda deixa bastante uma vontade de jogar mais e mais daquele universo nessa cápsula do tempo quase que literal.

Porém, outro ponto precisa ser citado aqui como problemático, mesmo que não corriqueiro. Isso porque, em alguns momentos durante os testes no PS4, foi um tanto problemático alinhar o controle Dualshock 4 com a PS Camera para as mãos da garotinha ficarem na posição correta durante o jogo, atrapalhando um pouco a imersão. Felizmente, esse bug ocorreu raras vezes durante a jogatina.


Uma viagem no tempo criativa e divertida

Com um nível de desafio digno das décadas passadas, trilha sonora sensacional que mescla as gerações de videogames, uma história simples e cativante e uma ambientação que ao mesmo tempo que remete ao passado, não tem precedentes, Pixel Ripped 1989 (PC/PSVR) é, sem dúvidas, um daqueles jogos que nos dá orgulho de sermos brasileiros. Isso porque, mesmo que com um curto tempo de jogatina, a experiência é sensacional o suficiente para pedir replays várias e várias vezes.

Alguns elementos próprio da mecânica do jogo o deixam ser acessível para todas as idades e, o melhor, para a maior parte do público, mesmo aqueles com os comuns enjoos por imersão em realidade virtual. Assim, Pixel Ripped é uma soma de tantas características boas que só nos percebemos frustrados simplesmente pela experiência acabar. Que uma continuação venha o quanto antes!


Prós

  • Visual fantástico mesclando diversas gerações dos videogames; 
  • Detalhes nostálgicos nos cenários muito agradáveis;
  • Ótimas referência aos anos 1980 e 1990;
  • Trilha sonora anima a jogatina;
  • Jogabilidade afiada, mas respeitando o estilo retrô;
  • Nível de desafio muito bom e criativo;
  • Mecânicas criativas com a realidade virtual;
  • Sensação de jogar um game portátil na RV é incrível;
  • Artifícios válidos para diminuir a possibilidade de enjoos;
  • História simples e divertida.

Contras

  • Curta duração pode desagradar alguns;
  • Alguns problemas na localização das mãos no PS4.
Pixel Ripped 1989 — PC/PSVR — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS4/PSVR
Revisão: Ana Krishna Peixoto
Análise produzida com cópia digital cedida pela ARVORE
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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