Discussão

Quest for the Rings (Odyssey²) foi o primeiro RPG dos consoles caseiros?

Os RPGs nasceram nos anos 1970 como jogo de tabuleiro e logo ganharam vida no mundo virtual, primeiro nos computadores e depois nos consoles, então qual seria o primeiro jogo a ganhar vida nos consoles caseiros?





Oriundos dos tabuleiros, os Role Playing Games ou RPGs, como são mais conhecidos, foi oficialmente concebido em 1974 por Gary Gygax e Dave Arneson quando criaram o clássico Dungeons and Dragons. Já no ano seguinte o primeiro jogo com características RPG foi concebido para os computadores, este foi o Pedit5 – The dungeon – desenvolvido para os computadores Plato.


Mas até que este novo modelo de jogo chegasse aos consoles caseiros demorou um pouco. Os primeiros consoles caseiros tinham uma interface muito simples e estavam longe da capacidade dos computadores da época. O Magnavox Odyssey, por exemplo, lançado em 1972, tinha uma interface muito rudimentar, era impossível trazer um jogo mais complexo ao console como um RPG.

Com a chegada da segunda geração, sua interface foi melhorada e pôde nos trazer jogos mais complexos e com temáticas mais diferenciadas. Desta geração o Atari 2600 foi o maior destaque, sucesso mundial em vendas, foi o console que trouxe mais jogos para esta geração, mas teria vindo nele o primeiro RPG dos consoles caseiros?

Adventure (Atari 2600): um jogo de aventura com elementos de RPG

O Adventure foi lançado em 1979 para o Atari 2600 e foi um divisor de águas para os jogos eletrônicos. Com muita sabedoria e criatividade, Warren Robinett criou um novo estilo de jogo de ação/aventura com várias puzzles e alguns elementos de RPG, além de trazer o primeiro easter egg da história.



Warren conseguiu fazer um verdadeiro milagre com a pouca capacidade que o Atari 2600 tinha. Inspirado nas histórias medievais e nos jogos de RPG, Robinett conseguiu nos colocar dentro de um mundo de fantasia onde deveríamos explorar vários ambientes, habitados por dragões perigosos, em busca de itens que nos permitisse encontrar os vários tesouros espalhados pelo reino.

Mesmo assim o Adventure não chega a ser um RPG. Apesar de ter alguns elementos como as quests e uma ambientação inspirada nos primeiros RPGs, este jogo se volta mais para o gênero de ação/aventura do que para um verdadeiro RPG.

O Magnavox Odyssey² teria trazido o primeiro RPG para os consoles caseiros

O Odyssey², sucessor direto do primeiro console caseiro do mundo, foi lançado em 1978 e concorreu diretamente com o console da Atari, porém sempre atrás dele nas vendas. O videogame da Magnavox (ou Philips aqui no Brasil) era um pouco inferior ao da Atari, mas seus desenvolvedores tiveram muita criatividade na criação dos seus jogos, conseguindo desenvolver games muito divertidos e bem lembrados para aqueles que tiveram um Odyssey² na época.


Destes jogos podemos destacar os da série estratégia que vinham em uma caixa maior, de luxo. Nela podíamos encontrar, além do cartucho, várias peças de plástico ou de metal, um livreto de luxo com a história e as regras do jogo, além de um tabuleiro, mesclando, assim, a jogatina no console com o tabuleiro. Desta série veio o Quest for the Rings.

Quest for the Rings: o primeiro RPG dos consoles caseiros?

Criado em 1981 para o Odyssey², Quest for the Rings — ou Em Busca dos Anéis Perdidos aqui no Brasil — teve fortes inspirações na mecânica do Dungeons & Dragons e uma história baseada em Tolkien e seu clássico Senhor dos Anéis, a Magnavox trouxe pela primeira vez aos consoles caseiros um jogo com fortes traços de RPG.


A tecnologia rudimentar do Odyssey² não permitia a inserção direta na história pelo seu jogo. Para compensar isso ele incluía um manual de luxo contando toda a história do jogo, como os 10 anéis se espalharam pelo mundo antigo e o porquê dos heróis terem que juntar todos eles.


Um forte aspecto dos RPGs que está sim dentro do jogo é a possibilidade de escolhermos as classes dos campeões, podendo-se optar por dois dentre as quatro classes disponíveis. São elas: o Warrior, um guerreiro com uma espada mágica; o Wizard, um mago capaz de paralisar qualquer tipo de monstro (menos os dragões); o Phantom, capaz de atravessar as paredes; e o Changeling, talvez a classe mais inspirada em Tolkien, pois este tinha o poder de ficar invisível, mas ao invés de ser um anel que lhe dava tal poder, este era concebido por uma manta mágica, tal qual a Sheila, personagem da animação Caverna do Dragão.

Outro aspecto de RPG dentro do jogo é a ambientação, dividida em quatro tipos de dungeons. São elas: As Masmorras, o ambiente mais simples do mapa que não oferece um obstáculo a mais; As Paredes Moventes, onde as paredes se movem ao passar do tempo podendo, inclusive prender algum dos heróis, dificultando a busca pelos anéis; Os Infernos, com paredes de lava cujo um simples toque leva à morte instantânea; e As Cavernas de Cristais que eram invisíveis, fazendo com que os heróis, muitas vezes, dessem de cara numa parede.

Um jogo de tabuleiro?

Porém os aspectos mais fortes de Role Playing Game não estão dentro dos chips do cartucho. O Quest for the Rings veio de uma série especial da Magnavox, a série estratégia. Além dele foram lançados Conquest the World, lembrando o jogo WAR, e o Wall Street, simulando o mercado da bolsa de valores. Esta série unificava o jogo eletrônico com o de tabuleiro e foi uma maneira muito inteligente e divertida de buscar maior interatividade e diversão com os jogos do Odyssey².


Em Quest for the Rings os maiores aspectos RPGs estão na parte “jogo de tabuleiro”, já que é nela que existe o mapa para exploração (seria o tabuleiro do jogo), com o posicionamento de cada dungeon, inclusive se elas teriam anel ou não. Tudo isso era determinado pelo Ring Master (uma espécie de Dungeon Master do jogo) que era interpretado por um terceiro jogador.

Por conta disso, Quest for the Rings era para ser jogado por três pessoas, duas eram os campeões e o terceiro era o Ring Master que, diferentemente dos RPGs tradicionais, tinha um papel mais ativo no jogo. Ele não só simplesmente conduzia a aventura (montando as dungeons no mapa) como atuava diretamente no jogo atrapalhando os heróis na busca pelos anéis, inclusive com o poder de possuir um deles no jogo e atacar o outro player para não pegar o anel.

Isso significa que, se existe um vilão no Quest for the Rings, este vilão é o Ring Master. Logo o jogo não era uma disputa entre homem e máquina, mas sim uma disputa entre amigos onde dois eram os mocinhos tentando salvar a Terra e o outro era o vilão tentando dominá-la.


Por todos esses elementos, Quest for the Rings deveria ser considerado o primeiro RPG dos consoles caseiros? Afinal muitos elementos de RPG estão no tabuleiro, não nos chips do cartucho. Porém, deve-se considerar que os consoles da segunda geração não tinham a capacidade de processar muitas informações e muitos desses elementos, como a história, o mapa, a condução do jogo e interpretação dos personagens eram impossíveis para essas máquinas.Logo, de forma bastante criativa, a Magnavox trouxe esses elementos para o jogo no formato de board game, deixando-o bastante divertido e forçando os seus jogadores a usar muito a imaginação ao enfrentar cada monstro, fantasma e dragões nele existentes

Uma coisa não há que discutir, jogos como Quest for the Rings (Odyssey²) e Adventure (Atari 2600) abriram as portas para um novo mundo nos consoles caseiros. Graças a eles tivemos a oportunidade de desfrutar jogos maravilhosos como os da série Final Fantasy, Dragon Quest e Legend of Zelda, este último seguindo muito a linha do Adventure. Jogos como esses nos proporcionaram horas de alegria em frente à TV e nos deixaram uma bela herança que são os atuais cinematográficos RPGs da nova geração.

Revisão: Júlio César
Lúcio Amaral é jornalista e advogado, músico por paixão e gamer desde que se conhece por gente. Sua paixão pelos videogames começou na segunda metade dos anos 1980 quando teve seu primeiro videogame, um Philips Odyssey - ou Odyssey² - quando tinha 7 anos. Acompanhou, com muito entusiasmo, todo caminhar tecnológico e assumiu uma paixão pela Sega, sem deixar de flertar sempre com a Nintendo. Hoje é colecionador com um acervo que vem desde a segunda geração de consoles aos mais atuais e encontrou no Blast uma maneira de compartilhar toda sua paixão e convívio com esse fantástico mundo dos videogames.

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