Crônica

Crescendo com os videogames: dos pixels para os polígonos

Na segunda metade dos anos 90 um adolescente apaixonado por games vive uma verdadeira revolução gráfica nos videogames.

Nos anos 90 eu costumava frequentar muito as locadoras, tinha uma amizade com os donos delas. Quando chegava o final de semana sempre ia para a Star Games, de Fernanda, escolher o melhor título do Mega Drive para jogar com meu irmão e meus amigos. E na semana sempre dava uma fugida depois da aula para a Shop Game, de Aroldo, para jogar uma hora nos lançamentos.

Lembro que a Shop Game era uma das poucas locadoras que tinha PCs com vários jogos, isso era raro no início dos anos 90, pude conhecer jogos incríveis de computador, como o Prince of Persia e Out of this World antes dos ports para o Mega Drive e Super Nintendo. Aroldo também sempre trazia as novidades logo no lançamento, então foi lá que conheci uma máquina que me deixou com um brilho nos olhos, essa máquina era o 3DO.

Amor à primeira vista

Em 1994 o 3DO havia sido lançado, inaugurando a 5ª geração de consoles caseiros, nesse mesmo ano, sempre atento às novidades, Aroldo já havia providenciado um aparelho para a sua locadora (afinal era um videogame caríssimo, então um foi o suficiente), o salto tecnológico que vi nele me deixou boquiaberto. Como o aparelho havia sido projetado pela equipe da Eletronic Arts, o primeiro jogo que vi rodando nele foi o The Need for the Speed, ainda lançado como uma experiência da Eletronic Arts. O  jogo me pegou pelo realismo e, principalmente as cut scenes entre uma partida e outra. Ver aqueles filmes rodando em um videogame me surpreendeu, fiquei extasiado com aquilo, logo me apaixonei pelo console e fixei que aquele seria meu próximo videogame.


O ano seguinte tinha sido um pouco complicado para mim. Eu nasci com uma leve paralisia cerebral o que causou duas sequelas em mim, uma delas foi o déficit de força, que foi minimizado com muita fisioterapia nos meus primeiros anos de vida. Meu irmão sempre me deu força, e mesmo quando não estava na clínica, ele me puxava – já havia aprendido todos os exercícios – e me colocava pra exercitar sempre. Então de um prognóstico de que poderia viver numa cadeira de rodas, graças à ajuda do meu irmão, hoje ando normalmente. Só tenho um pouco de ódio com escadas e ladeiras, o resto consigo ir de boa.

A segunda sequela foi o encurtamento dos meus tendões calcâneos – ou tendões de Aquiles – ao entrar na adolescência, e isso só seria resolvido com cirurgia. Ficou decido pelos médicos que faria a cirurgia somente quando tivesse 16 anos, isso foi em 1995. Como iria ficar de molho por um bom tempo – perdi um ano da escola – meu irmão resolveu sair comigo para comprar um videogame novo. Fomos à Gamemania, eu estava de olho no 3DO, quando chegamos lá o vendedor me colocou em sinuca.

Desde o Master System eu era seguista, mas estava determinado em mudar de plataforma por ter me apaixonado pelo 3DO, porém eis que chego à loja e o vendedor me mostra uma joia. Era o Sega Saturn, isso para um seguista foi um tiro no peito. Ele era mais barato que o 3DO, fiquei numa baita dúvida, mas a paixão falou mais alto e levamos o 3DO, mesmo pagando um pouco a mais, ficamos com ele.

O desfrute de vivenciar uma revolução

O 3DO foi realmente revolucionário para mim. Quando meu irmão comprou, ficamos com o modelo da Panasonic FZ-10, era o mais barato que tinha. Vinha com o jogo Gex, personagem criado para ser o mascote do console, e também levamos o FIFA Soccer, como dois fifeiros que éramos, tinha que ter esse jogo. Aliás, o FIFA foi uma das coisas que pesou na escolha pelo 3DO, pois o jogo ainda não havia sido lançado para o Saturn (o primeiro FIFA lançado pro Saturn foi o 96), então, para nós, era primordial o videogame vir com um FIFA.


O primeiro jogo que colocamos foi logicamente o FIFA, aquela apresentação com filmagens da copa de 70 me deixou boquiaberto, e os gráficos mais detalhados, a câmera girando 360 graus, o som, tudo foi revolucionário para mim. Ali eu vi o salto tecnológico que foi da geração 16 bits para a 32 bits, ficamos extasiados com o poder daquela máquina. O Gex foi o segundo jogo a rodar no meu novo videogame, e aquela introdução em GCI... Não imaginava que um dia os videogames poderiam chegar àquele nível, pois era tudo muito bem detalhado, era algo extraordinário para um moleque que estava acostumado às imagens pixeladas da geração anterior.

Tardes de FIFA e o garoto que remexia o controle

Com o novo videogame em casa as disputas de FIFA ficaram mais realistas, não fazíamos mais os campeonatos, mas sempre juntávamos uns amigos para umas partidas amistosas. Um deles em especial era João Hélio, amigo do meu irmão, mesmo levando uma surra de nós dois (lembro de ter ganho dele de 11 à 01 em uma dessas partidas) ele sempre estava lá marcando presença, e se divertia muito, mesmo sendo derrotado todas as vezes.


Uma das características de Hélio era sua movimentação com o joystick, sempre que movimentava o jogador para um lado ele acompanhava sua movimentação com o controle. Será que a ideia da Nintendo para o Wii Remote veio de jogadores assim? Mas isso não atrapalhava o objetivo principal daquelas tardes, a diversão.

Veraneio em Pirangi: primos, violão e Crime Patrol

Eu tive a sorte de ter um Tio (Marcelo) dono de locadora, então dá para imaginar a farra que fazia quando ia ao seu estabelecimento. Por coincidência esse meu tio era apaixonado pelo 3DO também, e em um dos veraneios no apartamento dele em Pirangi ele levou um para fazer a diversão da primaiada. Nesse veraneio meus primos de Brasília apareceram, e com o 3DO ligado na sala a diversão era 24h. Ficávamos dividindo entre a praia, roda de violão à beira da piscina (me pediam para tocar Pais e Filhos todos os dias, acho que hoje não consigo ouvir essa música por causa disso), filmes e jogatina no 3DO.


Eram três os jogos preferidos no console da Eletronic Arts (o modelo que estava lá era o Panasonic FZ 10, igual ao meu), Road Rash, The Need For Speed e Crime Patrol. Não tínhamos a pistola, então jogávamos o Crime Patrol no controle mesmo. Para quem não se lembra, o Crime Patrol foi um dos famosos jogos de pistola produzidos pela American Laser, famosa principalmente pelo Mad Dog McGree. Esses jogos eram todos em FMV (Full Motion Movie), ou seja, eram filmes interativos.

Então nesses jogos atirávamos em atores mesmo, interpretando personagens, o que trazia um realismo muito maior para a gente. Ficávamos muito irados quando aparecia um inocente no meio da tela gritando: “Don’t shot!” e acabávamos atirando nele sem querer, perdendo uma vida. Numa dessas resolvi atrapalhar: passei pela frente da TV e gritei “Don’t shot!”. Meus primos começaram a rir imediatamente, levaram um tiro dos bandidos e perderam o jogo. Pelo visto a manobra funcionou.

Foram horas inesquecíveis ao lado do 3DO, ficava extasiado com o seu poder, porém ele tinha uma deficiência que foi fatal, não processava gráficos poligonais. O Saturn já tinha esse poder, mais foi algo que não me atentei na época e quando surgiu jogos como Tomb Raider, Resident Evil e Tekken, me veio a necessidade de ter outro console, mesmo com pouco tempo de uso do 3DO (um pouco mais de um ano), jogar aqueles jogos, com aquela tecnologia, virou uma necessidade para mim. Mas desta vez não precisei me desfazer do meu videogame, afinal ele era o meu xodó, nunca iria me desfazer dele. Então, muitos anos antes de pensar em ser colecionador eu o mantive com todos os jogos (cerca de 40) e hoje é uma das principais peças de minha coleção e ainda é meu xodó, funcionando como sempre, me trazendo todas as boas lembranças que tive em seu tempo áureo.

Entrando no mundo dos polígonos

O ano de 1996 foi ótimo para compras, mais precisamente de produtos importados. Era o auge do plano real, o qual igualava a moeda brasileira ao dólar americano, então foi um ano de oportunidades. Neste ano consegui realizar o sonho de possuir uma Gibson, e o modelo escolhido foi uma Nighthawk Especial a qual uso ainda hoje, e também de viagens ao exterior. Foi a chance de finalmente comprar o cultuado Playstation.


A necessidade de ter jogos como Tekken e Resident Evil falou mais alto, ainda mais sabendo da descontinuação do 3DO, o que não traria  mais novidades para o aparelho. Então, uma  viagem para Miami  foi a oportunidade perfeita de adquirir o console mais popular da época com um preço melhor ainda. Claro que me aproveitei para fazer uma feirinha pro 3DO, foi quando adquiri os clássicos The Need for the Speed, Flashback e um que particularmente curti muito, Hell: a Cyberpunk Thriller. Em suma, neste ano entrei finalmente para a era dos polígonos.

A volta dos torneios de FIFA

Junto com o Playstation compramos o FIFA 96 e foi um avanço grande em relação ao seu antecessor, tinha gráficos e jogabilidade bem superiores ao FIFA do 3DO, podemos perceber realmente a diferença em qualidade gráfica. Com o FIFA 96 em casa voltaram também os torneios, só que desta vez era somente eu e meu irmão, tínhamos um objetivo: vencer todos os torneios que o FIFA oferecia ou, pelo menos, os mais importantes. Sempre acabávamos nos primeiros lugares, geralmente com meu irmão como vencedor.


Com a chegada do FIFA 98: Road to the World Cup os torneios ficaram mais viciantes, com a opção de comprar jogadores, e mais tarde, descobrimos como ganhar dinheiro para os clubes, criamos regras nos torneios, tanto de contratação como de premiação em grana. Criamos nossos clubes, geríamos, trazíamos títulos para eles, e com o passar dos torneios, tínhamos a opção de mudar de clube. Isso nos fez vivenciar o mundo do futebol virtual de um modo diferente, mais amplo. Foi, sem sombra de dúvida, o FIFA que mais jogamos na vida, até o lançamento do Playstation 2, o FIFA 98 foi o futebol que imperou na minha casa.

Um vício chamado Final Fantasy Tactics

Sempre gostei de RPGs, principalmente os de mesa e os card games (mais especificamente o Spellfire). Curti muito o gênero nos videogames, principalmente a série Phantasy Star, e o belíssimo Final Fantasy VII no Playstation, porém nenhum me prendeu tanto quanto o Final Fantasy Tactics.


Era um RPG tático e foi o primeiro, nesse estilo, da série Final Fantasy. Ele foi viciante desde o começo, eram horas jogando, varei madrugadas me ligando a cada personagem. As batalhas eram sensacionais, tudo influenciava, desde a seleção dos guerreiros até o posicionamento deles no campo de batalho, era crucial para alcançar a vitória, porém o tempo passou e eu nunca consegui zerar o jogo. Compromissos com faculdade de jornalismo e a falta de paciência que chega com a idade, me fizeram desistir dele. Essa é uma das frustrações que tenho como gamer, mas ainda não é tarde para tentar de novo.

Adeus a um amigo para realizar um sonho

Anos 90 e, consequentemente, o século XX chegou ao fim. A  sexta geração já havia chegado com força e meu irmão já era um feliz proprietário de um Playstation 2. Eu acumulava um sonho de consumo, desde os dois últimos anos do século XX, o Sega Dreamcast.

Nessa época o console já estava perto de ser descontinuado, mas eu queria voltar às minhas origens de seguista, e ainda por cima, havia me apaixonado por aquele console desde a primeira vez que o vi. Então, em vias de sua descontinuação e já sabendo que a Sega iria sair do mercado de consoles, foi até fácil conseguir um, mas teve um preço. Eu tive que vender meu Playstation Fat, estava completo na caixa, tinha a pistola Justifier na caixa, hoje seria um item de destaque na estante de qualquer colecionador, mas  eu ainda não era um. Consegui vender meu Playstation e com o mesmo valor comprei um Dreamcast recheado de jogos. Consegui realizar meu sonho, porém ainda sinto saudades do console gorduchinho da Sony que me trouxe tantas alegrias e frustrações.


A quinta geração foi marcada por uma mudança extrema na confecção dos jogos. Com a inovação dos gráficos poligonais e jogos em 3D, os jogos em 2D ficaram cada vez mais em desuso. Era praticamente o fim dos jogos em plataforma 2D, o público procurava mais realismo e jogos como Tomb Raider, Tekken, Resident Evil, Crash Bandicoot ditavam a tendência. Até mesmo a Nintendo aderiu, trazendo o Mario para o mundo 3D no Super Mario 64. Essa foi a geração que ditou o futuro dos jogos, mudou completamente o modo como eles são feitos, e hoje vemos o resultado de toda essa revolução.

Revisão: João Paulo Benevides
Lúcio Amaral é jornalista e advogado, músico por paixão e gamer desde que se conhece por gente. Sua paixão pelos videogames começou na segunda metade dos anos 1980 quando teve seu primeiro videogame, um Philips Odyssey - ou Odyssey² - quando tinha 7 anos. Acompanhou, com muito entusiasmo, todo caminhar tecnológico e assumiu uma paixão pela Sega, sem deixar de flertar sempre com a Nintendo. Hoje é colecionador com um acervo que vem desde a segunda geração de consoles aos mais atuais e encontrou no Blast uma maneira de compartilhar toda sua paixão e convívio com esse fantástico mundo dos videogames.

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