30 anos de Famitsu: Uma visualização estatística dos jogos 40/40

Quantos jogos receberam nota máxima? Quais foram os consoles mais premiados com tal honraria? Talvez um levantamento dos dados seja capaz de responder algumas perguntas sobre o que torna tal publicação tão especial.

em 04/08/2017

Em trinta anos de existência completados em 2016, a Famitsu conseguiu se consagrar como uma das mais importantes publicações a respeito de videogame no mundo. Originalmente conhecida como Famicon Tsūshin (“Notícias do Famicon”, como o NES era originalmente chamado), a revista japonesa se destaca por seu método de análise singular que consiste em quatro notas parciais de zero a dez, dadas por quatro analistas diferentes. Ao fim, somam-se todas e é obtido uma nota final cujo valor máximo é quarenta.


O primeiro jogo a conseguir uma pontuação perfeita foi The Legend of Zelda: Ocarina of Time, em 1998. Desde então, nosso corpus, ou seja, nosso conteúdo a ser identificado, conta com outros vinte e três títulos:



Analisando os dados superficialmente , uma das primeiras percepções é a distribuição das notas 40/40 através dos anos. Em 30 anos de revista, foram dadas mais notas máximas nos últimos dez anos (2006-2017) do que em seus vinte primeiros (1986-2005), num percentual comparativo de 20% contra 80%, respectivamente:




Observa-se também a quantidade de jogos quando analisados separadamente. Houve um crescimento súbito na atribuição de notas máximas a partir de 2008, com três jogos (Super Smash Bros. Brawl, Metal Gear Solid IV e 428: Fusa Sareta Shibuya de)  e 13% do total, dando sequência a seu pico em 2009, com quatro jogos (Dragon Quest IX, Monster Hunter Tri, Bayonetta e New Super Mario Bros. Wii), o equivalente a 17%.

Em 2010, apenas dois jogos receberam nota máxima (Metal Gear Solid: Peace Walker e Pokémon Black and White), o equivalente a 8% do total. No ano seguinte, houve crescimento, com três títulos (The Legend of Zelda: Skyward Sword, The Elder Scrolls V: Skyrim, e Final Fantasy XIII-2), repetindo os 13% de 2008. Nos dois anos seguintes, quatro jogos receberam nota máxima, sendo dois por ano. Por fim, observa-se que os dois últimos jogos 40/40 vieram alternadamente, em 2015 e 2017, com 2014 e 2016 passando em branco entre eles.

Um dado que chamou atenção é em relação aos consoles dos jogos em questão. Observa-se uma preferência aos jogos exclusivos, representando 75% do montante, sendo 25%, apenas, multiplataformas. Sob tal ótica, o Nintendo Wii é líder, com cinco jogos nota máxima (o equivalente a 21%), seguido pelo PlayStation 3 e pelo Nintendo DS, ambos com três jogos cada. Dos multiplataformas, observa-se que quatro jogos da dobradinha PS3/X360 integram o gráfico.


Outra possibilidade é analisar os dados de forma unificada, isto é, se considerarmos os jogos multiplataforma individualmente. Por exemplo, The Legend of Zelda: Breath of the Wild é o multiplataforma referente ao Nintendo Wii U e ao Switch. Nessa nova abordagem, ele será contabilizado duas vezes, cada uma referente a um novo console. Dessa maneira, o console que mais se beneficiou com a inclusão é o PlayStation 3, que salta de três jogos para oito e passa a corresponder a 25% do total. O Xbox 360, bem como o PlayStation 4 e o Xbox One, agora aparecem individualmente. 


É possível delimitar também uma espécie de índice de aproveitamento de tais jogos levando em conta as empresas que produzem os próprios aparelhos. Considerando os multiplataformas mais de uma vez, para cada console em que aparecem (Zelda BotW conta duas vezes para a Nintendo), a relação fica a seguinte:


Outra análise possível diz respeito às empresas responsáveis pelos jogos em questão. A Nintendo é a principal publisher em relação aos títulos que receberam nota máxima, seguida pela Square Enix – considerando o Vagrant Story como uma IP da própria, mesmo que seja da Squaresoft antes da fusão com a Enix. O mesmo vale para Soulcalibur e para o JoJo's Bizarre Adventure: All-Star Battle, considerada parte da contabilizados ambos como títulos da Bandai Namco. 


A mesma análise é possível ser feita  com as desenvolvedoras. Dessa maneira, os estúdios de desenvolvimento próprios da Nintendo lideram, seguida pela Square Enix (unificada) e pela Kojima Productions, com os seus três Metal Gear


Uma terceira visualização é possível se cruzarmos os dados entre as desenvolvedoras  e as publicadoras . Disso, é possível compreender com mais clareza quais empresas se baseiam em produções first parties e quais se sustentam das seconds e thirds


É possível interpretar os dados com relação à região dos jogos em questão e nota-se que a preferência da Famitsu é, necessariamente, jogos produzidos no Japão, considerando que apenas dois títulos (Skyrim e GTA) foram produzidos fora do país. 


O score quase perfeito

Brincando um pouco mais com os números, é possível também extrair dados referentes aos jogos 39/40, ou seja, que receberam notas máximas de três analistas e uma nota 9 de um quarto. O primeiro título a chegar próximo da nota perfeita foi The Legend of Zelda: A Link to the Past, em 1991. Ao todo, quarenta e cinco títulos se aproximaram do score perfeito:


Num comparativo ano a ano, é possível observar que, apesar de ser um placar distribuído com maior frequência, resultando em um número maior de jogos que tenham tal pontuação, nota-se que o equilíbrio se mantém por mais tempo do que o dos jogos 40/40. Aqui, o crescimento brusco se dá somente em 2010, enquanto, no gráfico anterior, a mesma oscilação acontecia já em 2008. Ano que, vale ressaltar, houve um número maior de jogos com notas máximas do que com notas 39/40.


Em relação aos consoles, há uma alteração considerável na disposição do gráfico. Além de novos aparelhos serem contabilizados (como o SNES e o Saturn), há uma presença muito maior dos jogos multiplataforma, que ocupam 29% do total (com 24% do todo sendo referente  apenas à dobradinha X360/PS3). Em seguida, há o PlayStation 2, com sete jogos e 16% do montante.


Se repetirmos o procedimento anterior e contabilizarmos os multiplataformas separadamente, o aparelho que mais se beneficia é o Xbox 360, que salta de apenas dois jogos exclusivos para treze, ficando em segundo na contagem geral, atrás somente do  PlayStation 3. A família PlayStation, aliás, aparece em peso no gráfico, representando 69% do total. 


A hegemonia da Sony em relação a jogos 39/40 pode ser comprovada se analisarmos o mesmo gráfico de exclusividade que foi feito anteriormente, mas com os novos números. Nota-se que mesmo no gráfico que exclui os multiplataformas, a Sony ainda lidera, apesar de a Nintendo abocanhar um espaço maior na relação.


Por haver um número maior de jogos com a pontuação 39/40, é normal também que haja maior variedade em relação às publishers. Nessa visualização, é possível notar que a Nintendo perde a liderança para a Square Enix, com oito títulos. A Bandai Namco, por sua vez, é considerada como o aglomerado dos jogos da Bandai, Namco e Namco Bandai. 


Por fim, nota-se também que apesar de jogos orientais ainda serem uma esmagadora maioria, os ocidentais aparecem de maneira mais significativa,  numa relação de nove ocidentais para trinta e seis orientais:


Unificação dos Scores

Aproveitando os dados já  levantados, pode-se fazer um  terceiro levantamento onde seriam comparados os jogos 39/40 e 40/40. O primeiro levantamento colocava lado a lado a quantidade individual de jogos que receberam cada score, bem como a soma referente ao ano em questão de títulos com tais notas. A linha amarela mostra o crescimento referente ao número total de jogos 39/40 e 40/40.


Por plataforma é possível observar:
  1. A somatória estatística geral envolvendo os consoles referentes aos 39/40 e 40/40
  2. Um comparativo por console entre o número de jogos que receberam 39/40 e os que receberam 40/40.

No primeiro gráfico, os multiplataformas representam 28% do todo, 22% de todos os jogos analisados estão presentes tanto no PS3 quanto no X360. Os exclusivos de PS3 e os de PS2 ocupam 12% cada e, em quinto colocado, o Wii aparece com cinco jogos.

No segundo, por sua vez, observa-se com mais clareza que a maioria dos jogos PS3/X360 são, na verdade, 39/40, o mesmo vale para o PS2. O PS3, por sua vez, aparece numa posição mais equilibrada. O Wii é o único aparelho cujo aproveitamento é de 100% em relação aos seus exclusivos.

Por fim, um comparativo similar é possível de ser estabelecido entre os jogos por publisher:   


E no ocidente?


É interessante pensar que nem todos esses jogos 40/40 tiveram a mesma repercussão no ocidente. Portanto, para finalizar nossa exposição, seria  interessante estabelecer um comparativo entre as notas da Famitsu e os indicadores do Metacritic, que estabelece uma média geral entre as análises publicadas espalhadas pelos mais diversos veículos. Ressalto que para os multiplataformas que o Metacritic avalia separado, foi considerada uma média aritmética.


Observação: 428: Fūsa Sareta Shibuya de foi removido da estatística por não ter sido lançado no ocidente.
A pergunta que ainda pode ficar no ar é: certo, o que vamos tirar disso tudo? Pois bem, é possível extrair uma infinidade de assimilações lógicas que podem concluir mais a respeito do perfil da publicação. No entanto, esse levantamento  não se propõe a analisar com profundidade acadêmica os dados levantados, apenas considerá-los de forma superficial para que, eventualmente, novas interpretações possam ser feitas a respeito.

Há uma razão para a Famitsu estar cercada de toda a mística a respeito de suas peculiares notas que vão até quarenta. Espera-se, então, que esse levantamento seja apenas o pontapé inicial de uma compreensão mais aprofundada do assunto.

Revisão: João Paulo Benevides

É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
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