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Análise: King's Quest — Chapter 1: carisma, adventures e o tempo

O primeiro episódio do reboot da clássica série surpreende com muita simpatia, exploração e inteligência.

King’s Quest é uma antiga e clássica série de jogos que começou lá em 1984. Eu mesmo só fui conhecer e jogar um pouco desses títulos cerca de doze anos depois, quando tive acesso a um PC. Após o lançamento de seu último game, em 1998, existiram algumas tentativas de continuar a série ou mesmo produzir um reboot. Recentemente, até mesmo a Telltale anunciou que iria produzir um jogo episódico de King’s Quest, o que acabou não vingando. Felizmente, a Sierra confiou ao estúdio The Odd Gentlemen a tarefa de criar essa reinvenção da franquia. A Knight to Remember é o primeiro de cinco episódios.

Simpatia em todos os aspectos

É interessante a forma com que os desenvolvedores falam e se referem ao jogo. Parecem pessoas realmente fãs da série que possuem um grande carinho pelo projeto. Isso se reflete quando afirmam que fizeram um jogo para todo tipo de audiência e, sobretudo, um título que pudesse ser jogado pela família em conjunto, assim como eram os antigos jogos da franquia. Essa ideia fica bem clara já no design dos ambientes e personagens, e vai ganhando forma a partir dos diálogos, ações e puzzles que aparecem ao longo do episódio.

O relativamente grande elenco desse primeiro capítulo é composto pelos mais variados tipos, todos com alguma veia cômica, seja no traço, na forma de se mover ou nas falas. O design dos personagens remete aos filmes antigos da Disney. Temos o grande e “malvado” dragão, o cavaleiro narcisista, a vendedora de armas forte e sagaz, e até mesmo um grupo de criaturas bem distintas planejando uma greve, entre muitos outros.
Muitas vezes é bem divertido ficar conversando com um personagem.
A simpatia, tanto dos personagens quanto dos cenários fisga não só os mais novos, mas também aqueles com mais anos pelo mundo. Mas a grande estrela é Graham, o personagem que controlamos, em sua jornada para se tornar um cavaleiro e, depois, um rei. Ele não possui nenhum talento aparente, muitas vezes é perspicaz e rápido nas respostas, mas, em tantas outras, é bobo e desajeitado. Vemos ele tombar, cair, machucar-se inúmeras vezes, mas sempre de uma maneira singela. Até mesmo quando realiza feitos épicos, seu corpo parece não entender. Traz um quê de Chaplin e, sobretudo, Buster Keaton, na maneira como lida com os próprios fracassos e consegue a simpatia do público, qualquer que seja ele, rapidamente.
Cada passo da aventura nos é narrado por um Graham velho e acamado, enquanto este conta para sua pequena neta suas aventuras passadas. É algo que torna tudo ainda mais simpático, já que temos a interlocução entre um vovô fazendo piadas e trocadilhos ruins e uma criança completamente fascinada em histórias envolvendo dragões e cavaleiros, como todos fomos um dia. A narração de Graham também funciona para dar algumas dicas ao longo do game, assim como para nos lembrar que “não foi isso que aconteceu”, quando morremos em algum desafio, mandando-nos de volta para o último checkpoint.

Aventura com um pé no passado e outro no presente

Nesse primeiro episódio, controlamos Graham em dois momentos distintos: primeiro, em uma rápida incursão por uma caverna com um dragão na época em que ele já é um cavaleiro; depois, e na maior parte do episódio, nas aventuras do dia em que ele se tornou cavaleiro. O jogo vai nos levando por momentos diferentes, visto que são histórias que ele está contando. A primeira porção funciona como um tutorial, além de apresentar os personagens centrais, Graham e sua neta, e nos familiarizar com a narração. Já a segunda parte nos traz um mapa muito maior e cheio de coisas para descobrir e lugares para explorar.
A Knight to Remember não é um jogo voltado para escolhas como os jogos da Telltale e Life is Strange, está muito mais próximo dos antigos adventures do que estes títulos. Podemos escolher todas as linhas de diálogo, devemos explorar os cenários e vencer os desafios ganhando itens e resolvendo puzzles. Em alguns momentos temos desafios que se dão de maneira diferente utilizando QTEs e mira em primeira pessoa (um destes, inclusive, não faz muito sentido com o resto do jogo e foi um dos poucos momentos que estranhei).

Ainda que um desses momentos seja um pouco fora do espírito do jogo, todos os outros funcionam bem e mostram os divertidos momentos em que Graham supera as adversidades mesmo não sendo o que se espera de um herói. Existem poucas situações em que podemos fazer uma escolha que talvez afete os próximos episódios, mas as opções que nos são dadas sempre trazem um Graham bondoso e honrado. Como dito, o principal aqui é explorar, resolver quebra-cabeças e interagir com o simpático elenco. O que deixa o jogo realmente mais próximo dos adventures antigos.

Gênero que teve um período de ouro, depois se enfraqueceu até a quase morte, e hoje em dia retorna tanto na forma de jogos episódicos centrados na narrativa e nas escolhas, quanto no ressurgimento de títulos mais à moda antiga. Em sua análise de Broken Age, o youtuber Super Bunnyhop discute muito sobre os motivos que levaram os adventures a perder força. O argumento vai no sentido de mostrar que os próprios adventures se mataram com seus puzzles ilógicos, chatos e sem pistas. Costumo pensar um tanto sobre esse assunto, e não sei se a resposta é realmente essa, mas cabe dizer que os puzzles de King’s Quest - Chapter 1 são um dos pontos altos do episódio.
Cuidado para não acordar o dragão
Até pela intenção de produzir um jogo tanto para crianças quanto para adultos, pistas pipocam pelos ambientes, conversas ou mesmo na narração de Graham. Dessa forma, resolvê-los é muito mais um exercício de exploração e descoberta do que uma série de tentativas e erros sem sentido (algo que passei em um certo puzzle de Broken Age, ainda que ache o argumento do Bunnyhop exagerado, no geral, em relação a esse título).

Mais que isso, esses puzzles confluem as principais características do título: carisma, exploração, enredo e personagens. O jogo acabou se tornando uma grata surpresa, por ser episódico achei que ia pelo caminho de Walking Dead, Game of Thrones, Life is Strange, etc, mas se aproxima mais, e pelos bons motivos, dos velhos adventures.

O retorno do rei

A utlização do recurso do velho Graham contando as histórias para a sua neta cai muito bem. Permite lançar piadas e pistas sobre os acontecimentos em que controlamos o jovem herói, além de construir a relação entre vô e neta, possibilitando que vistemos diferentes momentos da vida do rei. Me fez sentir, também, a passagem do tempo. Um velho que olha para trás em sua vida para que uma jovem possa olhar para frente, desenvolvedores que recriam suas memórias do passado em um novo momento, um jogador que já está há 20 anos vivendo vários games.

Existe um certo tom de melancolia por trás de toda a leveza e ternura do jogo, uma sensação que talvez só alcance quem viu passar mais anos de sua vida. O passado parece muito glorioso conforme vamos envelhecendo, pena que fossemos tão estúpidos nas épocas de ouro de nossas vidas.

Mas King’s Quest também é sobre tempo em um diferente prisma. Enquanto outros jogos episódicos não trazem lá tanto tempo de jogo e conteúdo por capítulo, A Knight to Remember dura cerca de 6 horas, com muito espaço para descoberta de segredos, easter eggs, referências e, porque não, troféus e conquistas.

E posso dizer que as horas que “gastei” com o primeiro episódio foram muito prazerosas. Pude me divertir, rir, sentir vergonha alheia de algumas piadas do velho, explorar belos cenários, conhecer divertidos personagens e resolver puzzles simples, porém bem construídos. Depois desta grata surpresa, fico no aguardo dos próximos episódios com boa expectativa, esperando que cheguem logo, mas que eu, entretanto, demore para chegar em seu lançamento. Engraçado esse negócio de tempo.

Prós

  • Diversão que pode alcançar jogadores de várias idades;
  • Personagens, enredo e cenários carismáticos;
  • Bom ritmo de jogo, variando puzzles, QTEs, diálogos e exploração;
  • Atuação excelente dos dubladores, principalmente Christopher Lloyd (Velho Graham).

Contras

  • Falta polimento em alguns momentos;
  • A ausência de opção para Português pode afastar jogadores.
King’s Quest: A Knight to Remember (Chapter 1) — PS4/XBO/PC — Nota: 8.5
Plataforma utilizada para a análise: PS4
Revisão: Jaime Ninice
Capa: Diego Migueis

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