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Análise: The Magic Circle (PC) é uma viagem mágica sobre jogos

Colocando o jogador como um jogador, literalmente, The Magic Circle traz trama bem trabalhada com humor e alfinetadas na indústria de jogos.

em 25/07/2015
The Magic Circle é o primeiro projeto da Question Games, empresa criada por Stephen Alexander e Jordan Thomas, profissionais que participaram da criação de todos os jogos da série Bioshock, até o Infinite. Além deles, faz parte do time Kain Shain, responsável pela inteligência artificial de Dishonored.


Ou seja, temos aqui caras experientes na indústria de jogos, que resolveram abandonar o desenvolvimento de jogos AAA e buscam criar outros tipos de conteúdo, no cenário independente. E devo dizer que eles começaram com o pé direito.



Jogando o jogo


A primeira coisa que você faz ao entrar no jogo é entrar no jogo. Com uma bela quebra da quarta parede logo na primeira cena, seu trabalho, como jogador, é testar o título de fantasia medieval em primeira pessoa The Magic Circle, que está há 20 anos em desenvolvimento. O plano é fechar ao menos uma demo jogável para o público, que há tempos clama pela nova obra de Ishamel Gilder, desenvolvedor do projeto, e que se tornou cultuado após o sucesso de sua primeira criação, um adventure.

Não demora para você perceber que falta muito para aquilo se tornar um jogo de fato. Gráficos inacabados, gambiarras de game design e mesmo itens ausentes, não programados, são rapidamente encontrados. Tudo isso enquanto Ish vai discutindo os próximos passos do projeto com Maze Evelyn, desenvolvedora, que já está perdendo as esperanças em tudo isso, e Coda Soliz, assistente novata, que é fanática pelo trabalho de Gilder.

Alguma coisa parece não estar certa
Pouco tempo depois, o jogo acaba. E então, ele começa de novo. Após finalizar seu trabalho, uma espécie de inteligência artificial faz você voltar para o protótipo. Essa entidade é um resquício da primeira versão de The Magic Circle, que originalmente seria um FPS no espaço. Ela clama por sua ajuda para, de dentro do próprio jogo, tentar terminá-lo. Ou então acabar com esse sofrimento de uma vez.

Nessa nova empreitada, você ganha habilidades para hackear e “quebrar” o jogo, de forma a moldá-lo de uma maneira que você consiga resolver os puzzles e concluir sua tarefa. Uma dessas formas de manipulação é a habilidade de editar NPCs. Você pode, literalmente, entrar na programação de um monstro e alterar coisas como forma de movimentação, habilidades especiais (resistência ao fogo, por exemplo), definir NPCs inimigos e aliados. Criar um cogumelo voador com um lança-chamas como aliado é uma das inúmeras possibilidades que você tem.

Nada como fazer amigos editando o comportamento deles

Por trás das cortinas


Durante sua jornada, você irá se deparar com os desenvolvedores (no formato de grandes olhos). Às vezes eles se dirigem a você diretamente, outras, estão falando entre si. Em ambos os casos, o jogador começa a notar como um processo de desenvolvimento tão caótico os afeta.

Lidar com outras pessoas, ideias diferentes e problemas pessoais é constante no mundo de trabalho. Não seria diferente no desenvolvimento de um jogo, algo que algumas pessoas pensam ser mágico e maravilhoso.

Isso deve ser uma cinemática
São nesses diálogos, aliados a outros arquivos de áudio e texto espalhados pelo mapa, que está a força de The Magic Circle. Com um humor muito bem construído, ele pode ser visto como uma crítica à indústria, na sua forma de pensar e lidar com seu público. E mesmo na resposta do público, que pode ser cruel e devastadora.

A história vai progredindo dessa maneira, pouco a pouco, lhe dando peças do que está acontecendo. Tudo isso culmina com um encerramento que não poderia ter sido executado de melhor forma. Talvez você só ache engraçado, talvez você pare para pensar um pouco como enxerga videogames. Mas tenho certeza que indiferente você não vai ficar.

Algo não está certo

Onde está a cor desse mundo?


A parte gráfica de The Magic Circle pode soar estranha para algum desavisado. Digo isso, pois há uma mistura de conceitos e mesmo algumas coisas fora de lugar. Mas tudo isso é proposital. A mistura de elementos e as mudanças repentinas de estilo são executadas com esmero.

Minhas tropas
A trilha sonora também é de extrema qualidade, dando o clima perfeito para todos os momentos do jogo. A dublagem também é destaque, e dá vida a todos os personagens que aparecem na trama.

Por fim, vale citar que é um jogo bem curto — mesmo enrolado em algumas partes, 4 horas foram suficientes para terminá-lo. Mas isso, nem de longe é um problema. Pelo contrário, ele tem a medida certa para contar o que precisa ser contado.

Existem colecionáveis, que são os arquivos de áudio e video que mencionei anteriormente. Explorando bem, dá para pegar a maioria, sem muitas dificuldades, já no primeiro playthrough.

Isso deve ser um item

Fechando o círculo


Quando peguei The Magic Circle para fazer sua análise, apenas havia visto um trailer e pensado comigo mesmo, “deve ser só mais um joguinho meio pirado com algumas piadas nonsense”. Pois bem, fico feliz por ter errado, e descoberto que ele não é só isso.

Como o senhor desejar
The Magic Circle é um belo exercício da metalinguagem, que critica e faz piadas com a indústria de jogos tocando em pontos importantes, às vezes esquecidos: quem são as pessoas por trás dos títulos que tanto amamos? Que histórias pessoais estão por de trás da construção de novos jogos? Quais direitos nós, jogadores, temos em cima de obras de outros, se é que temos algum?

Além de um enredo muito interessante, o título traz mecânicas peculiares, que dão ao jogador uma liberdade diferente do que é comumente encontrado, abrindo possibilidades promissoras.

Talvez seu único problema seja a falta de localização para o português, o que pode afastar da obra quem não domina a língua inglesa — e para The Magic Circle, compreender a história é essencial. O jogo também possui legendas em francês, italiano, alemão e espanhol.

PRÓS


  • Um jogo abordando a criação de um jogo;
  • Personagens e história bem desenvolvidos;
  • Mecânica de “edição” do mundo;
  • Direção de arte condizente com a proposta. 

CONTRAS


  • Não possui localização ou legendas em português.


The Magic Circle — PC — NOTA: 9.5


Revisão: Alberto Canen
Capa: Felipe Araújo

Formado em Game Design, desistente da Matemática Aplicada e atualmente cursando Jornalismo. Ainda aguardo o retorno triufal da Sega, fã de Metal Gear, Dark Souls e várias coisas vindas lá do Japão.
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