Jogamos

Análise: Mortal Kombat X (Multi) traz os "kombates" para a nova geração

Violento e brutal como sempre, a franquia da NetherRealm está de volta com muitos fatalities e personagens novos.

Na corrida pelo lançamento de um grande jogo de luta feito para a nova geração de consoles, e não apenas portado para ela, é a franquia da NetherRealm Studios que sai na frente, com Mortal Kombat X (MKX para os íntimos). Desde antes de chegar para PlayStation 4, Xbox One e PC, diversos fatalities e algumas lutas entre personagens famosos da franquia já haviam sido divulgados pela desenvolvedora, o que deixou os fãs ainda mais ansiosos pelo game, que é uma continuação direta de seu antecessor, Mortal Kombat (Multi, 2011). Quatro anos depois, já estava na hora dos "kombates" continuarem.

Passagem de legado

A narrativa é contada através de cutscenes que são interrompidas apenas durante os momentos de luta, quando o jogador assume o comando, da mesma forma que ocorreu em Injustice: Gods Among Us (Multi, 2013) e Mortal Kombat (MK9). Foram acrescentados momentos de Quick Time Events — quando é necessário apertar o botão certo no momento certo para interagir com o personagem —, mas que não interferem no rumo da história, apenas na sua pontuação final. A duração é boa para um jogo de luta, cerca de 5h, o que varia conforme a sua habilidade de terminar os combates.

QTEs são uma novidade do jogo.
Logo de início, há um breve resumo dos acontecimentos do jogo anterior, que fez um reboot dos três primeiro episódios da saga, baseando-se em um universo paralelo e ajustando a história original, que era falha. Em MKX, ao contrário do que muitos esperavam, o enredo não é inspirado em MK4, trazendo fatos inéditos, com personagens novos. O que vemos agora, na verdade, é uma passagem de legado, mas de uma forma muito humana e familiar, com os herdeiros dos personagens anteriores sendo apresentados e demonstrando muitos problemas normais, dos tipos que qualquer um poderia ter com seus pais — guardadas as devidas proporções, claro.

Essa nova geração de guerreiros da Terra tem Cassandra "Cassie" Cage (filha de Johnny Cage e Sonya Blade) como líder e conta ainda com Takeda Takahashi (filho de Kenshi), Jacqueline Briggs (filha de Jax Briggs) e Kung Jin (descendente de Kung Lao). Há mais lutadores novos: Kotal Kahn, Erron Black, Ferra/Torr (são dois que lutam juntos) e D'Vorah.
Kung Jin, Cassie, Jacqui Briggs e Takeda Takahashi: nova geração.
O enredo não é ruim, mas é cheio de lacunas e até confuso em alguns momentos, e o jogador se sentirá com falta de informações conforme os eventos vão ocorrendo, mas o motivo para isso é simples: assim como Injustice, MKX também conta com uma HQ, lançada em janeiro de 2015, que complementa a história do jogo e possui um conteúdo mais robusto e interessante. Considerando o sucesso da HQ de Injustice, que finalizou há pouco tempo o seu ano três, não podemos considerar que foi uma escolha errada.
Kung Jin é o primeiro personagem homossexual da saga Mortal Kombat, fato que ficou implícito em um dos flashbacks do personagem no modo campanha e foi confirmado pelo diretor da NetherRealm Dominic Cianciolo, através de seu Twitter pessoal.

A karnificina está de volta

O jogo roda a 60 quadros por segundo e o gameplay está mais dinâmico do que seus antecessores e ainda é muito democrático: novatos não se sentirão intimidados pelos controles, que permitem combos e golpes especiais fáceis de aplicar, e veteranos têm muita estratégia para dominar e aplicar com perfeição. Quem jogou MK9 e Injustice se sentirá em casa em MKX, já que o game toma ambos como base.


O jogo conta com três barras: de HP (aconselho a não deixá-la chegar ao fim); de Energia (Stamina), que se autopreenche com o passar do tempo, fica logo abaixo da de HP e serve para correr (de forma parecida com MK3), como Quebra-Kombos e para interagir com o cenário, como em Injustice, mas de uma forma mais tímida, porém, mais estratégica. Há muitos pontos que permitem saltar de um lado para o outro, o que pode ser usado para evitar ataques em sequência e confundir o oponente. Além disso, alguns objetos são usados para atacar, mesmo uma pessoa passando pode ser arremessada contra o outro lutador — esse tipo de situação tragicômica é algo que só MK traz para o público e é um dos motivos pelo qual a franquia é tão adorada; por fim, na parte de baixo, temos a barra de Super, que serve para usar Quebra-Kombos, Quebra-Bloqueios, intensificar um golpe ou, na sua carga máxima, utilizar um especial que mostra os ossos e órgãos do adversário se partindo violentamente, o famoso Raio-X, introduzido no jogo anterior da série.


O título permite aplicar muitos combos longos e poderosos. Você pode muito bem perder sem ter a chance sequer de revidar. Para evitar isso, há várias formas de evitar ataques sequenciais. Além da defesa no momento exato (Quebra-Kombo), é possível fazer algo simples para confundir o adversário, como ficar mais tempo no chão ou rolar para trás após uma queda.

Cada personagem tem três estilos diferentes de lutar e que você escolhe assim que o seleciona. Scorpion, por exemplo, pode usar o "Ninjutsu", que lhe garante ataques rápidos e poderosos usando duas espadas, mas perde os golpes utilizando fogo; ele usa ainda "Infernal" e "Fogo do Inferno", que são estilos sem as espadas e fazem uso distinto do poder de fogo. Essas variações acrescentam ainda mais estratégia ao jogo, já que altera a forma de lutar dos personagens, e aumenta as possibilidades de lutas, pois enfrentar um Scorpion usando Nunjutsu, que aplica golpes de curta distância (apesar das espadas terem um bom alcance), é algo diferente de encarar um que usa Infernal, que pode evocar um "Assecla Demoníaco" mesmo de à distância.
Os três estilos de luta mudam significativamente a estratégia do combate.
Cada personagem tem duas fatalidades, mas apenas uma está disponível de início, as demais precisam ser desbloqueadas na Kripta com o uso de moedas, adquiridas durante as lutas. Como era de se esperar, estão um show de violência: muito sangue jorrando, membros sendo decepados, ossos quebrados, mas de uma forma criativa, grotesca e cômica ao mesmo tempo — fãs de MK entendem bem essa fórmula. Os comandos dos fatalities são simples de aplicar e mesmo assim é possível facilitar ainda mais, seja desbloqueando essa opção na Kripta, ou comprando via DLC.
Os fatalities estão violentos como sempre.
Os lutadores possuem ainda algumas brutalidades, que também precisam ser desbloqueadas na Kripta e são mais complicadas de aplicar, já que os comandos não são feitos como antigamente, com longas sequências de golpes. Agora é necessário preencher certos requisitos, como no caso do Sub-Zero, que em um de seus brutalities precisa estar distante do oponente, que deve estar congelado, restando 40 segundos ou mais de round e o golpe final precisa ser o Ice Blast.

Guerra de facções

Assim que você inicia o jogo pela primeira vez, é necessário aderir a uma das cinco facções apresentadas, o que pode ser alterado a qualquer momento depois. Tudo o que for feito dentro do jogo, mesmo offline, contará pontos para a sua facção. Mas não precisa se preocupar muito com essa escolha inicialmente, já que ela não impede que você jogue com qualquer personagem que bem entender, trata-se mais da personalidade na qual você melhor se encaixa. Não é necessário jogar, por exemplo, com a Sonia Blade para fazer parte da facção Special Forces, nem precisa jogar com o Raiden para ser da White Lotus.

Eu fui de White Lotus, e você?
Como você já deve imaginar, essas guerras de facções não são apenas para juntar pontos e ver qual é a melhor, há incentivos para os jogadores, como as Faction Kills, que são cinco finalizações diferentes por facção e que vão sendo desbloqueadas conforme você aumenta de nível (50 é o limite máximo). Como exemplos, na Facção Dragão Negro, temos uma que queima o oponente por completo, deixando apenas os ossos; na Operações Especiais, diversos tiros destroçam o adversário; e na Lin Kuei, shurikens são acertadas no peito e rosto do inimigo. Elas são mais simples que fatalidades e brutalidades, além de serem genéricas, e não individualizadas para cada personagem. Ainda assim, novas formas de finalizar uma luta de forma grotesca e violenta nunca são demais

Torres e modos de kombate

Mortal Kombat X traz muitos modos para entreter o jogador por um bom tempo. Além do modo História, há o Teste a sua Sorte, no qual você enfrenta a IA com modificadores de jogabilidade aleatórios, como câmera balançando e chão queimando; o modo Treinamento também está presente e vale a pena passar um tempo por lá para dominar todas as técnicas ofertadas pelo jogo.

As torres não poderiam ficar de fora. Temos a tradicional, do tipo enfrentar um certo número de oponentes, com finais específicos para cada personagem, e temos outras com modificadores de jogabilidade, tendo de sobreviver o maior tempo possível com apenas uma barra de HP, ou subindo uma torre sem fim o máximo que puder sem ser derrotado. Há ainda o Teste o seu Poder, no qual devemos quebrar objetos ao esmagar os botões o mais rápido possível.


Como novidade, temos as torres vivas, que mudam os desafios com o tempo: a cada hora, diariamente e uma principal, com objetivos e desafios temáticos, como derrotar Goro, que está disponível por DLC.
Assim como Goro, os demais personagens que serão lançados por DLC terão a sua própria torre Principal por um período de tempo. Dessa forma, os jogadores poderão conferir o personagem antes de comprá-lo.
Os modos online estão bem diversificados, temos as klássicas Salas com diversos jogadores a nos desafiar e a serem desafiados, Versus, Batalha em Equipes, Rei da Colina e Batalha da Torre. Há muitas opções que garantem uma maior longevidade ao game, e, o mais importante, sem atrasos (delays) durante as partidas, o que sabemos ser mortal durante um jogo de luta, se me permitem o trocadilho. Perder por "lagality" certamente é a pior de todas as finalizações. Felizmente, MKX traz uma experiência bem fluida.

Outra novidade interessante e extremamente bem-vinda é o "Quitality". É uma forma bem-humorada e condizente com o jogo que a NetherRealm encontrou para penalizar aqueles jogadores que desconectam, ao perceber que vão perder, para manter o seu ranking intacto. Em MKX, uma desconexão equivale à perda automática de um ponto no ranking, com a vitória sendo creditada àquele que permaneceu online, e a cabeça do personagem derrotado explode — de forma simples mesmo.

Castigo para quem não sabe perder!

Do fundo da Kripta

Ao invés de simplesmente criar uma área para o conteúdo desbloqueável, o pessoal da NetherRealm disponibiliza a Kripta, que é uma dungeon na qual você explora em primeira pessoa e destrava os diversos itens — artes conceituais, músicas, roupas, fatalidades e brutalidades — ao pagar o preço que cada túmulo exige. Os valores variam bastante e são pagos com aquelas moedas que você pena para conseguir durante as lutas, mas o conteúdo só é descoberto após o pagamento, de forma bem aleatória. Então, se você quiser desbloquear o segundo fatality do seu personagem favorito e os seus cinco brutalities, vai ter que explorar bastante a Kripta.


Em termos de dungeon, não há um grande desafio, apenas alguns sustos ocasionais com criaturas saltando em cima de você sem o menor aviso, e pequenos puzzles, do tipo conseguir um item como o bastão do Raiden para poder passar em um certo caminho que o exige para tanto.

Boas-vindas à nova geração

Todos os personagens estão mais detalhados do que nunca, mas tiveram suas aparências modificadas, principalmente a ala feminina do jogo, que agora está com medidas bem menos exageradas e roupas mais comportadas, dando uma maior seriedade a elas como lutadoras. São 24 personagens ao todo, além dos que virão pelos DLCs.

O visual do jogo está belíssimo e dá as boas-vindas à nova geração de consoles. Há muitos detalhes nos cenários e o sangue fica espalhado em tudo, deixando o clima ainda mais MK do que nunca. A arena com água, molhando os personagens, é muito bem feita. O grande problema é que são apenas 13 no total, então acabam sendo muito repetidas durante as partidas.

Equalizando o jogo

Se no título anterior da NetherRealm Studios, Injustice Gods Among Us, a dublagem ficou excelente — umas das melhores para jogos ao lado de The Last of Us (PS3/PS4) —, o mesmo não pode ser dito de Mortal Kombat X, no qual está apenas razoável nesse quesito.

O fato de o jogo estar completamente em português é um ponto muito positivo, sem dúvida, mas a qualidade da dublagem precisa estar no nível que nossos ótimos dubladores são capazes de alcançar. O problema não foi apenas a cantora Pitty, mas muitas vozes não combinam com seus personagens, além de encontrarmos alguns casos de erros de escolha da frase correta no nosso idioma, como o emblemático "I got this", de Cassie Cage, traduzido para "Eu tenho isso" e que seria mais adequado "Eu cuido disso" ou "Deixa comigo".

Há outros erros, como Kotal Kahn errando o gênero de Tanya ao dizer "seu tolo"; a pronúncia de Mileena, que ora é americanizada (Milina), ora é abrasileirada (Milena); e personagens coadjuvantes, como soldados, soltam frases em inglês, sem dublagem alguma.

O melhor jogo de luta

Contando um belo visual, personagens bem detalhados, e jogabilidade dinâmica e precisa, Mortal Kombat X é a verdadeira estreia dos jogos de luta na mais recente geração de consoles e PC. A longevidade do game também está garantida com a enorme quantidade de conteúdo disponibilizado pelo pessoal da NetherRealm. O legado foi passado com sucesso à nova geração de guerreiros, neste que merece o título de melhor jogo de luta da atualidade.

Prós

  • Ótima jogabilidade;
  • Modo online sem atrasos durante as partidas;
  • Muitos modos de jogo;
  • Visual belíssimo de nova geração;
  • Fatalidades e brutalidades violentas e cômicas.

Contras

  • Dublagem brasileira;
  • Poucos cenários.
Mortal Kombat X — Multi — Versão utilizada: PS4 — Nota: 9.5
Revisão: Vitor Tibério
Capa: Daniel Silva

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

Comentários

Google
Disqus
Facebook