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Análise: Final Fantasy Type-0 HD (PS4/XBO) traz o portátil para a TV

Diferentemente dos outros jogos da franquia, Type-0 carrega muita violência e guerras sanguinárias, divertindo e mostrando que ainda há muita história na terra dos Chocobos.


O lançamento de um jogo da franquia Final Fantasy move o mundo. São milhares de jogadores em diversos países que deixam até mesmo de trabalhar para chegar cedo na loja e adquirir o produto o mais rápido possível — o que provavelmente trará dezenas de horas de diversão pelos próximos meses. Final Fantasy Type-0, entretanto, desapontou muitos fãs ocidentais, já que chegou somente ao Japão em 2011, para o PSP.


Após uma longa espera de 4 anos, o jogo foi remasterizado e lançado para o PlayStation 4 e Xbox One, e inclui a demonstração de Final Fantasy XV para quem o comprou na pré-venda. Apesar de este fato ser o suficiente para incentivar a sua compra, muitos ainda se empolgaram ao finalmente poderem desfrutar de uma história tão violenta e diferente dos tão delicados universos de Final Fantasy. Com pouco mais de 25 horas de jogo, podemos dizer que a espera valeu a pena, mesmo tendo problemas.
Finalmente, kupo!

Game of Thrones ou Final Fantasy?

Além dos 14 personagens jogáveis, há dezenas de outros que fazem parte da história e têm papel fundamental no seu desenrolar. Fica difícil acompanhar tudo o que acontece, quando seus nomes são japoneses ou fazem menção a termos frequentes de Final Fantasy XIII.
Ocorrendo no mesmo universo de Final Fantasy XIII (Multi), conhecemos Orience, o mundo de Final Fantasy Type-0. Ali quatro nações convivem lado a lado, cada uma possuindo um cristal. A paz parece reinar, até que seu tratado é quebrado por um general, que resolve se apoderar de todos os cristais. No reino de Rubrum, entretanto, as coisas se complicam: uma organização chamada Class Zero tem força o suficiente para impedir a invasão das tropas e defender o território.

O jogador é colocado no meio de toda essa confusão logo no início. Controlando os 14 principais membros da Class Zero, já é possível perceber que nada será tão bonito e elegante como os outros jogos da franquia Final Fantasy: um Chocobo morre com o disparo de uma arma, com muito sangue escorrendo pela tela. E a partir de então, o cenário se apresenta como um dos momentos de Call of Duty (Multi), com pessoas mortas ao redor e casas destruídas.
Depois de ver tantos Chocobos felizes nos jogos de Final Fantasy, essa cena é de quebrar o coração.

Durante todo o restante do jogo, uma grande guerra acontece e acompanhamos a aventura da Class Zero em tentar retomar a paz de Orience, vivendo conflitos internos e sofrendo com a injustiça e com as mentiras da política local. Não há romances ou momentos tranquilos, sendo necessário fazer bom uso do tempo livre para aprimorar os personagens e prepará-los para o combate. É na Akademia, uma enorme escola, onde todos têm aulas e desenvolvem suas habilidades com treinamentos e missões, enquanto recebem ordens dos que comandam o país.
É na Akademia que o jogador passa grande parte do jogo, falando com outros personagens e iniciando missões extra.

A nova velha geração

Ao sair do vídeo de abertura e começar a controlar os personagens, percebemos que não estamos vendo um jogo com a qualidade da nova geração. Na versão de PlayStation 4, utilizada para criar esta avaliação, é possível encontrar diversos momentos que ficaram muito bonitos na adaptação, mas também há coisas que nos remetem aos gráficos da era do primeiro PlayStation.
Acredite se quiser: essa imagem é da versão de PlayStation 4.
Aparentemente os personagens principais foram completamente remodelados, para dar maior imersão — o resultado final é satisfatório, aparentando fazer parte da geração anterior. O que incomoda é a falta de texturas nas peles, deixando todos “perfeitos” demais. Tendo em vista que os 14 membros lutam com armas pesadas e lidam com sujeira e sangue, é muito estranho ver que seus cabelos estão impecáveis e seus óculos sempre no lugar.
A personalidade dos personagens não parece fazer parte do universo em que vivem. As mulheres têm vozes sensuais ou infantis, e vivem fazendo piadas, mesmo em momentos críticos. Em alguns momentos, eles chegam a irritar, incentivando o jogador a pular os diálogos que não fazem parte da história central.
Ao contrário dos gráficos, as animações merecem grande destaque: o jogo melhorou completamente em relação à versão de PSP. Tudo roda a 60 fps, com resolução Full HD e movimentos mais leves. Considerando o ritmo frenético das batalhas, o jogador ganha um controle muito maior do que acontece ao redor, já que o seu campo de visão é muito mais extenso do que em um portátil. A câmera, que consegue ser melhor do que a presente na demonstração de Final Fantasy XV, incomoda muito no começo, mas se adapta com o tempo. Isso ocorre por conta de um “embaçamento” muito rápido do cenário, enquanto o personagem se mantém em foco: basta um pequeno toque no analógico para se sentir em uma montanha-russa.
Apesar de parecer uma pintura abstrata, isso é o que o jogador vê ao movimentar a câmera.

O ponto principal, entretanto, é a dublagem americana. Fazendo com que seja possível que entendamos a história, ela tenta trazer todos os sentimentos de estar em uma sanguinária guerra com personagens de Final Fantasy. É uma pena que em diversos momentos tudo pareça muito artificial: não há música em vários diálogos e as vozes parecem ter sido gravadas em um enorme banheiro, por conta de um gigantesco eco. Aos que não gostarem da adaptação, há a opção de manter o áudio original em japonês — que não apresenta esses problemas — com legendas em inglês.

O maravilhoso mundo de Final Fantasy

Todas as músicas do jogo também foram remasterizadas e fazem qualquer batalha parecer épica. É comum que o jogador perceba estar parado ao invés de jogando, apenas apreciando a altíssima qualidade da trilha sonora.
Como grande fã da série Kingdom Hearts, tive a grata surpresa em me sentir confortável com o sistema de batalha de Type-0. É preciso ter agilidade para fugir dos golpes do inimigo e perceber o momento certo para atacar, enquanto temos visão dos outros personagens e criamos estratégias para auxiliá-los. Aparentemente, as batalhas em turno se perdem cada vez mais nos jogos de Final Fantasy.

Tudo parece muito simples, mas se complica conforme a progressão ocorre. Cada personagem tem quatro golpes, utilizáveis com os botões de ação do controle: golpe físico comum, especial e duas magias. Basta pressionar (alguns por um longo tempo) para que eles ocorram, sendo que muitos gastam MP. Um dos botões (círculo, no PS4) faz com que o personagem dê cambalhotas e fuja de ataques.
No jogo, utilizar magias de gelo literalmente congela os inimigos. O fogo, entretanto, continua se espalhando pelo cenário.

Cada personagem tem arma e estilos de luta diferentes, sendo preciso evoluir todos para criar diferentes estratégias em combate. É possível alternar entre eles durante as lutas, mas em certas missões só é possível utilizar um número específico de lutadores. Para treiná-los, o jogador tem acesso ao mapa de toda a região de Orience (no estilo dos antigos jogos da franquia) e batalha com inimigos aleatórios. Nos pontos de salvamento, é possível distribuir os pontos de experiência ganhos em batalha entre as habilidades de cada um, além de ensiná-los novos golpes. É incrível pensar que tudo isso fazia parte de um portátil.
Após trocar os APs ganhos ao subir de nível por novas habilidades, é possível aprimorá-las e melhorar todos os golpes do personagem.

Uma grande diferença deste jogo aos demais da franquia é o fato de que o jogador precisa prestar atenção aos movimentos do inimigo. Além de desviar dos golpes, há momentos em que ele fica vulnerável e a cor da mira muda: se ela ficar amarela, o golpe desferido no oponente tirará dano maior, e se ficar vermelha o matará instantaneamente. Com isso, não é preciso estar em níveis altos para batalhar: basta estar focado em todas as ações e perceber os melhores momentos para atacar.

Outro momento interessante do jogo é quando as guerras acontecem de fato, e o jogador é colocado para comandar os soldados e fazê-los conquistar áreas específicas do mapa. Para isso é preciso ter um pensamento tático, prevendo as ações do inimigo e ajudando as tropas a defender os castelos enquanto atacam. Tudo ocorre em uma visão superior, e as lutas diretas com o inimigo só ocorrem quando um castelo é dominado pela sua equipe.

Além disso tudo, o jogo oferece muito conteúdo extra: é possível cruzar Chocobos para que eles botem ovos, participar de missões que não interferem na trama principal e sair em busca de Moogles, para receber troféus e conquistas. Caso o jogador goste de aproveitar o jogo completamente, há ao menos 50 horas de diversão à sua espera.
Os resultados do cruzamento de Chocobos podem render criaturas mais fortes ou mais rápidas, úteis em viagens pelo mapa.

Menos remasterização, mais adaptação

Com oito capítulos no total, o jogo não consegue prender o jogador inteiramente em sua narrativa, por conta de falhas. Em um jogo para portátil, muitas de suas escolhas fazem sentido, mas em um console de mesa, elas parecem se perder.
No jogo original, para PSP, havia um modo online, no qual outros jogadores podiam ajudar durante a campanha e lutar lado a lado. Por algum motivo, a Square Enix resolveu eliminar essa função, colocando jogadores controlados pelo computador ao seu lado. Isso ficou sem graça, já que as batalhas ficam mais fáceis e tudo parece uma grande enganação: os símbolos indicam que o jogador está online, quando não está.
Apesar de haver um enorme mapa a ser explorado, suas áreas são divididas por pequenos espaços para o carregamento do jogo. Cada uma contém criaturas e lutadores para batalhar, mas todos limitados pelo tamanho do ambiente e pela falta de memória do portátil. A sensação que fica é a de que não houve qualquer incentivo para adaptar o jogo aos grandes consoles.
Os lutadores Tadachika e Yoshinore, da imagem, são gerados pelo computador e fingem ser jogadores online. Há até o símbolo que indique isso, no canto superior direito.

Aos que se aventurarem e resolverem ouvir os diálogos adicionais, oferecidos por missões extras, é preciso paciência e compreensão, já que as músicas são cortadas bruscamente. Há momentos, também, em que as vozes parecem perder qualidade. Tudo nos mostra que temos um jogo de portátil numa tela de televisão, e nada mais do que isso.

É só o começo

O último capítulo do jogo é completamente destoante do resto, trazendo surpresas e deixando muito em aberto. Não é à toa que a Square Enix já anunciou que trabalha em uma continuação feita exclusivamente aos grandes consoles da geração atual. Enquanto ele não é lançado, Final Fantasy Type-0 consegue divertir, mesmo com tantos problemas. Os fãs da franquia se sentirão em casa e encontrarão horas de dedicação com personagens extremamente prazerosos de controlar e inimigos com boa dose de dificuldade.
Mesmo tendo sua versão original em portáteis, o jogo conseguia colocar chefes enormes para lutar contra o jogador.

Dentre os melhores momentos do jogo, em que destacamos o uso de Eidolons (as famosas invocações de monstros para o auxílio) e as batalhas contra os chefes, esperamos que a Square Enix perceba o que é preciso para que a sequência seja ainda melhor e consiga se consagrar nos consoles como mais um dos seus grandes sucessos — desde que isso não atrase ainda mais a produção de Final Fantasy XV.

PRÓS

  • Batalhas frenéticas e inteligentes
  • Variedade de lutadores
  • Muito conteúdo extra de qualidade
  • Trilha sonora fenomenal
  • Controles precisos e confortáveis

CONTRAS

  • Pouco cuidado com os gráficos
  • Personagens vazios e infantis
  • Ainda parece ser de portátil
  • Modo online removido
  • Preço alto por ser uma remasterização
Final Fantasy Type-0 HD — PS4/XBO — Square Enix — Nota: 8.0
Revisão: Alberto Canen
Capa: Diego Migueis

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