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Tropico 5 (PC), ou "Simulador de Cuba" para os mais chegados

Jogar um simulador de ditaduras é uma ótima forma de saber como foram os anos de chumbo nos países latino-americanos.

Como descendente de chileno e brasileira e cercado de relatos dos sobreviventes do regime militar aqui no Brasil, jogar a série Tropico é uma experiência bastante interessante. Minha mãe passou batido pelos "anos de chumbo" na década de 1970, já que suas experiências hippies eram pouco importantes numa cidadezinha no meio do Paraná. Ela mal comenta pelo que passou na época, já que não foram tantas experiências ruins.


Com o velho, a coisa foi diferente. Abandonou o curso de Ciências Sociais na Universidade Católica de Santiago para servir ao exército, um pouco antes de Pinochet dar o fatídico golpe de estado em 1973. Como ele não concordava muito com o regime fascista da época, resolveu fugir do quartel e acabou chegando aqui no Brasil.

Analisar um simulador de cidades ao estilo latino é uma ótima forma de entender um pouco os anos que nossos pais e avós passaram um tempo atrás. A grande diferença é que, em Tropico 5, você pode ser o repressor, e não o reprimido, como geralmente acontece na vida real.

Ditadura com merengue

A história da série Tropico pouco mudou desde o primeiro jogo: você é El Presidente, aquele que chegou ao poder de alguma forma e tem sob seu comando uma paradisíaca ilha caribenha, com sua infeliz população em algum lugar na América Central. Uma vez no poder, você deve manter-se no comando até que uma guerra civil ou invasão estrangeira o retire do gabinete.

As trilhas de rumba, mambo e salsa da série são os fatores mais calientes da franquia, cujo ápice chegou em Tropico 4, com músicas compostas por artistas do gênero como Alex Torres e sua Orquestra Latina. Fiquei um pouco decepcionado com a remoção das faixas cantadas em Tropico 5, o que também tirou a graça de se cantar em alto e bom som enquanto se jogavam guardas armados em cima de manifestantes insatisfeitos. Mas isso não quer dizer que a trilha sonora esteja ruim.


As maneiras de construir e distribuir ruas, fazendas e habitações, por sua vez, mudaram de forma sutil se comparada a sua versão anterior, porém foram melhoradas de modo que é difícil ter que se preocupar com espaços vazios e prédios mal colocados. Aliás, uma das coisas que mais me irritava na abertura de estradas era o medo constante delas não estarem retas.

E no caso dessas pequenas mancadas acontecerem, ir até a opção de demolir finalmente pode ser acessada com uma tecla. Um dos maiores problemas na série Tropico era a falta de teclas de atalhos para as construções mais usadas. Agora, há um menu dedicado só para isso.

Além das revoluções na interface, os gráficos finalmente chegaram ao nível de Primeiro Mundo. Uma pincelada 3D deixa as ilhas tropicanas mais paradisíacas, com uma sensação de imersão digna de se estar explorando uma selva virgem no coração da América. Uma neblina encobre grande parte de seu território no começo, e ela precisa ser desbravada por seus soldados antes de se habitar a região.

Viva La Revolución!

Quem acompanha a série se sentirá em casa já nos primeiros minutos de jogo. Meu maior receio era a ausência do Penultimo, segundo-em-comando e fiel escudeiro, mas ele marca presença nas várias janelas de diálogo durante toda a campanha, sempre com alguma tirada engraçada, como esta com os franceses:
"Presidente, não conseguimos completar nenhuma pesquisa. Então decidimos roubar as maiores conquistas da França. Infelizmente, invadimos o Museu de Conquistas Militares deles e tudo que encontrei foi esta bandeira branca. Parece que temos que melhorar nossas habilidades em diplomacia".
Por um capricho da desenvolvedora Calypso, a dublagem foi renovada. A voz icônica do latino trapalhão do Penultimo deu lugar a um outro tipo de estereótipo latino (e já aviso que são muitos aqui), e quem gostava da dupla Sunny Flowers/Penultimo na rádio em T4 irá se decepcionar com a reaça irritante que agora conta as últimas de sua ilha. A voz do El Presidente mudou igualmente. Antes ela me lembrava o Al Pacino em Scarface, mas agora se parece mais com o Cheech em Cheech and Chong.

A revolução também chegou para algumas mecânicas em T5. Assim como em SimCity 3000, você só terá acesso a algumas construções e políticas depois de alguns anos no poder. O jogo agora é linear cronologicamente, acompanhando os eventos mundiais desde a colonização de sua ilha (fazendo serviços para a coroa inglesa para se manter no mandato), passando pela independência, as guerras mundiais, os embates socialista/capitalista e chegando até os dias atuais.

El Presidente pode se juntar aos Aliados ou com o Eixo durante as épocas das Guerras Mundiais, contribuindo com recursos e recebendo a preciosa ajuda financeira das potências. Manter o favorecimento por um ou outro lado do conflito pode render bons lucros às suas ilhas, bem como invasões e atentados vindos do inimigo.

Um novo sistema de geração de pontos de ciência, combinado a uma árvore de pesquisas ao estilo Civilization, vai abrindo novas tecnologias e inovações políticas, geralmente importadas de fora, no jeito latino de ser. A invasão ao museu francês na fala de Penultimo se refere à pesquisa que desbloqueia as embaixadas, por exemplo. Há aquela sensação de desenvolvimento quando se troca os casarões de campo pelos grandes complexos de edifícios populares, as espaçosas plantações por fábricas mais rentáveis e pequenas clínicas de bairro por grandes hospitais especializados.

Apesar de ainda ser chato clicar em cada estrutura para ligá-la ao sistema elétrico ou desenvolver seu rendimento e produtividade, estas melhorias foram estendidas para quase todas as construções. Um rancho vai produzir muito mais comida se uma plantação estiver por perto; uma igreja dará mais conforto para os prédios residenciais com o upgrade certo. Há uma sensação lógica de posicionamento de prédios, justificando grandes áreas reservadas para o plantio e criação de víveres e enormes centros comerciais ou de habitações, deixando o desenvolvimento e expansão da metrópole mais dinâmico.


Além do maior aproveitamento do espaço, há uma grande mudança na campanha de Tropico 5. Se antes tínhamos que criar do zero as cidades nas missões, elas agora são reutilizadas nas fases seguintes, deixando um sentimento de sustentabilidade e planejamento, já que um dia a ilha ficará totalmente ocupada e será necessário várias reformas para deixar a cidade cada vez mais moderna.

O reaproveitamento das construções já ultrapassadas também foi genial. Um forte colonial, por exemplo, usado antes para deter invasores e piratas, será futuramente um ponto turístico, atraindo mais visitantes ao seu paraíso caribenho e gerando mais rendimentos com os turistas endinheirados.

Muito trabalho e pouca diversão para El Presidente

Senti-me em casa jogando Tropico 5. Apesar de ser da geração que nunca viu nenhum militar na presidência, cresci escutando histórias escabrosas e depoimentos marcantes tanto das vítimas quanto dos próprios militares. Então, quando jogo com El Presidente, tento ser um bom ditador.

Não consigo reprimir meus pobres cidadãos, que querem apenas trabalhar e ter seus filhos na escola. Não sinto o menor remorso em exilar meus criminosos para Miami e faço pouco caso dos ideais comunistas. Durante meu governo, pensava em manter o povo satisfeito enquanto construía cidades cada vez maiores, prontas para qualquer desastre ou ataque externo.

Há a possibilidade do jogador ser um verdadeiro tirano como Salvador Allende ou um "herói" anticapitalista como Fidel Castro, ou ainda um Getúlio Vargas, que embora tivesse o comando das forças armadas ao alcance do braço, descesse o pau nos vermelhos e não desse a mínima para os jornalistas, também desenvolveu grandes projetos sociais e verdadeiras obras faraônicas que existem até hoje. Tudo depende das suas escolhas e dos seus próprios julgamentos.

Como qualquer sistema de poder, sempre existirão pontos altos e baixos em algum momento de sua história. Um regime opressor garante segurança para todos, mas "ai" se falar mal dele. Um regime democrático melhora a liberdade em geral, mas o povo é exigente e a sua manutenção no poder depende das pesquisas de satisfação em suas obras. Como um bom ditador democrata (ou "chavismo", como gostam de dizer por aí), o ano do povo ir às urnas é o momento mais decisivo neste regime.

Para garantir a permanência no poder, corro para finalizar escolas, hospitais e abrir mais vagas de emprego para ninguém ter motivos para não votar em mim, e décadas de convivência com prefeitos e governadores brasileiros me deixou pronto para estes momentos de correria. É incrível como minha ilha melhora em menos de um ano, mesmo tendo vários anos para trabalhar.


Não que jogar um simulador de cidades caribenhas seja uma aula de política, mas recomendo algumas horas de jogo para aqueles que não entendem alguns projetos bizarros dos nossos governantes. Em uma determinada eleição, ganhei os dois por cento que faltavam quando construí um grande hospital em uma área pobre da cidade, em tempo recorde e gastando bem mais do que deveria (afinal, preciso fazer meu pezinho de meia para a aposentadoria). Tive até que importar alguns médicos de fora para que o projeto funcionasse o mais rápido possível.

Mas ninguém se importou. As eleições foram ganhas e pude demolir o hospital logo depois. Aprendi isso com os "melhores" governantes brasileiros.

Prós

  • Grande redesign na interface, deixando-a mais amigável e acessível;
  • Os gráficos agora podem até concorrer a uma cadeira permanente na ONU;
  • As ilhas e as construções são reaproveitadas em todas as missões.

Contras

  • Sinto falta do Alex Torres e das músicas cantadas;
  • Ausência de um sistema de controle das unidades militares quando há uma invasão/ataque rebelde;
  • O sistema de "heróis" foi expandido, mas perdeu-se o controle sobre o que eles fazem.
Tropico 5 — PC — Nota: 8,0
Revisão: Catarine Aurora
Capa: Stefano Genachi


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