Análise: Recupere sua memória e descubra um passado obscuro em Amnesia: The Dark Descent (PC)

em 29/08/2013

No final de 2010, alguns achavam que o survival horror tinha definitivamente morrido. Resident Evil tomava assumidamente um caminho com... (por Gabriel Gonçalves em 29/08/2013, via GameBlast)


No final de 2010, alguns achavam que o survival horror tinha definitivamente morrido. Resident Evil tomava assumidamente um caminho com mais ação. Silent Hill não parecia assustar tanto (ao menos não como antes). Sim, os fãs de jogos de terror pareciam órfãos. Porém, em meio a essa onda de pessimismo, onde alguns inclusive diziam que o terror nos games nunca voltaria, surge uma luz no fim do túnel. E o nome dela era Amnesia: The Dark Descent


O game foi criado pela produtora independente Frictional Games, que já havia experimentado o gênero de survival horror com sua triologia Penumbra, uma série muito boa, mas que não conseguiu atingir a popularidade de Amnesia. O engraçado é que o game teve um lançamento bem tímido e pouco divulgado, mas a pequena Frictional mal sabia como o jogo cairia no gosto dos fãs de survival horror,  porque ele conseguiu fazer justamente o que Resident Evil 5 e Silent Hill: Homecoming não fizeram: assustar o jogador. E muito.

Se arrependimento matasse…

O enredo do jogo não é exatamente um poço de originalidade. A história se passa em 1839, no castelo de Brennenburg, onde o protagonista Daniel acorda sem memória, sabendo pouco mais que seu nome. O interessante, no entanto, é como o enredo se desenvolve. Por meio de notas e flashbacks, vamos reconstruindo a história do jovem rapaz, tentando achar uma resposta do nosso objetivo e o porquê de ele ter perdido a memória. Nada é realmente explicado: nós temos que conseguir as pistas para tentar entender o que aconteceu, o que ajuda o jogador a criar um vínculo com o protagonista.

A  boa e velha história do personagem sem memória...

Logo nos momentos iniciais, lemos uma nota que Daniel deixou para si, dizendo que ele próprio ingeriu um tônico de amnésia para esquecer "coisas horríveis que ele havia feito". E também para que ele pudesse ter coragem para matar Alexander, o dono do castelo, que supostamente enganou e induziu Daniel a fazer as tais "coisas horríveis". A partir daí, exploramos as áreas em busca de respostas. Porém, como é de se  esperar, a missão não será nada fácil: além das várias criaturas bizarras que vagam nos corredores do castelo, parece que tem alguém – ou alguma coisa – seguindo Daniel por onde quer que ele vá.

A qualidade do enredo não chega a ser um ponto positivo, mas também não é negativo. Talvez o único fator no qual ele deixa a desejar seja o desfecho. O game apresenta três finais alternativos, mas nenhum é totalmente satisfatório, sempre deixando a sensação de que faltou alguma coisa para deixá-lo mais consistente. Dá para comparar com um filme que acaba justamente quando parece que está começando a fazer sentido. 

Nada de brincar de herói

Daniel é extremamente frágil aos acontecimentos do jogo, e isso é mostrado de duas formas: sua baixa saúde e seu medidor de sanidade. De fato, ser acertado três vezes por um inimigo é o suficiente para matá-lo. Já o medidor de sanidade é o grande trunfo do game. Presenciar acontecimentos estranhos, ver monstros por muito tempo ou mesmo ficar no escuro diminui a sanidade. Quando estiver baixa, o jogador pode começar a ver ilusões de monstros, os controles podem mudar e é mais difícil virar a câmera para os lados. Por isso, é sempre bom tentar manter a sanidade a um nível razoável, resolvendo puzzles e progredindo na história do jogo.


Os inimigos são ágeis e rápidos, e tem a horrível tendência de aparecer de repente (o que sempre garante alguns sustos). Não é possível lutar: não há qualquer tipo de arma nem meio de se defender dos ataques, o que deixa o jogador com duas opções: fugir como um desesperado ou achar um esconderijo até os monstros irem embora. Esconder-se é o método mais eficiente. Entrar em armários ou agachar-se atrás de caixas é uma boa ideia, mas, na falta desses, um canto mais escuro da sala é o suficiente. Felizmente, as criaturas não parecem ter uma visão muito boa.

O terror do jogo é construído pela atmosfera e sustos, o que é feito com maestria. Aquele que for jogar deve estar preparado para a tortura psicológica que o game faz antes de realmente dar um belo susto. De pequenos barulhos a rugidos que parecem sair das paredes, Amnesia: The Dark Descent faz um ótimo trabalho em deixar o jogador tremendo de medo.

O game progride basicamente por meio de puzzles. A física do jogo é muito mais utilizada do que aquele clássico sistema de "pegue esse item, use nesse lugar". Para abrir uma porta com um cadeado velho, por exemplo, o jogador pode pegar uma pedra no chão e bater no cadeado até ele quebrar. Para abaixar uma plataforma, é possível "criar peso" nela, jogando caixas e pequenos objetos, até ela cair. O conceito da física é bastante utilizado por todo o game, o que ajuda a não deixá-lo repetitivo e cria enigmas bem legais. Algo semelhante já havia sido feito pela Frictional na série Penumbra, embora aqui isso seja bem mais explorado.

No entanto, nota-se alguns problemas nesse sistema. Quando se abre uma porta rapidamente, por exemplo, pode acontecer da porta bater em uma "parede invisível" e fechar de novo na cara do jogador. Ou mesmo quando atiramos algum objeto. Se ele bater em uma borda entre paredes, é possível que ele saia voando para o outro lado da sala ou fique preso. Não são erros que chegam a atrapalhar a experiência, mas é um pouco estranho que um jogo em que os puzzles sejam baseados na física tenha problemas justamente na programação da mesma.

Nenhum lugar é seguro

A arte gráfica do jogo combina bem com ele. Os ambientes são variados e cheios de detalhes, que variam de obras de arte presas nas paredes nos corredores do castelo a manchas de sangue e instrumentos de tortura nas masmorras. Os efeitos de luz e sombra são muito bem utilizados para criar a aura de mistério e incerteza sobre o que vem pela frente. A única ressalva é que algumas texturas parecem mal acabadas (basta olhar o braço de Daniel quando ele pega a lamparina). Apesar disso, o gráfico é mais do que satisfatório e cumpre bem o seu papel.

O áudio é um dos melhores fatores do game. Barulhos intensos como os rugidos dos monstros são o suficiente para fazer qualquer um se sentir desconfortável, mas também há a presença de sons mais sutis, que mesmo assim acrescentam ao sentimento de survival horror. Por exemplo, quando Daniel geme de medo assim que ouve algum barulho, isso mostra plenamente como o personagem se sente frágil diante de toda a situação. Aliás, a dublagem dos personagens é muito boa, com destaque a Sam Mowry, que deu sua voz ao antagonista Alexander. O melhor aspecto, no entanto, é a trilha sonora. A maioria das faixas foram feitas para deixar o jogador tenso, mas há peças que instigam suspense e mistério, enquanto apenas uma faixa (Safe Ambient) foi feita para dar sensação de tranquilidade, e é a mais bela do jogo. 

Muitas histórias para contar

Uma vez terminada a campanha principal, não há motivo para jogá-la de novo. Como dito antes, o game apresenta finais alternativos, mas as decisões para mudá-lo são feitas apenas ao final da história. 

Para aumentar o aproveitamento, a Frictional criou uma expansão gratuita chamada de Amnesia: Justine, que conta com um enredo paralelo aos acontecimentos de The Dark Descent. Porém, o grande responsável por aumentar o replay do jogo são as Custom Stories. Elas são como mods criados pelos jogadores. Algumas são bem interessantes, e inclusive conseguem assustar ainda mais que a história de Daniel. Esses mods são facilmente achados em fóruns dedicados ao jogo. 

Uma obra prima do terror psicológico

Apesar de alguns defeitos, Amnesia: The Dark Descent consegue atender sua proposta com maestria: ele assusta, cria clima de tensão e a construção do enredo instiga a curiosidade do jogador. Fora isso, não podemos esquecer que o jogo é inspiração de muitos games de terror independentes que são feitos por aí, como Eleusis e Anna, ambos para PC.

A popularidade foi tão grande que uma sequência já está prestes a ser lançada – Amnesia: A Machine for Pigs –, que contará uma história não relacionada ao primeiro jogo, mas que promete ser ainda mais aterrorizante. Se isso será verdade ou não ainda não temos como saber, mas a macabra jornada de Daniel em busca de sua memória é uma aventura indispensável aos amantes de survival horror.

Prós:

- Atmosfera tensa e sombria;
- Bons sustos;
- Construção do enredo feita de forma criativa;
- Puzzles interessantes;
- Ambientes e objetos bem detalhados;
- Excelente trilha sonora;
- Boa dublagem e efeitos de som;

Contras:

- Finais confusos e pouco consistentes, que parecem não fechar direito a história do game;
- Bugs eventuais com a física do jogo;
- Algumas texturas gráficas malfeitas


Amnesia: The Dark Descent – PC – Nota: 9.0

Revisão: Bruno Nominato
Capa: Vitor Nascimento 

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original.
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