Chronicle

O sucesso da fantasia e a popularização dos JRPGs: a história da Square (1997-2002)

Na semana passada, publicamos aqui no GameBlast a primeira parte da história da gigante empresa japonesa Square, desde seu início e passa... (por Pedro Vicente em 12/05/2013, via GameBlast)

Na semana passada, publicamos aqui no GameBlast a primeira parte da história da gigante empresa japonesa Square, desde seu início e passando pela sua frutífera parceria com a Big N. Dizem que para esquecer um antigo amor nada melhor do que um novo amor (quem disse isso ou não conhecia videogame ou já estava considerando-o como o "novo amor"). Sendo assim, a Square deixou de fazer seus consagrados jogos para um console Nintendo e firmou sua nova parceria, desta vez com a Sony.

O fim de um amor e o início de outro

A partir do ano de 1997 (e até 2002) a Square não publicou nenhum jogo em consoles da Nintendo. Sua grande parceira dessa época foi a Sony. Inclusive o sétimo título da principal franquia da companhia, Final Fantasy, estava sendo desenvolvido para o Nintendo 64, mas o projeto foi descartado e o titulo migrou para o PlayStation (lançado no fim de 1994), assim como toda a produção da Square naquela geração.

O título de estréia da empresa japonesa no console da Sony foi Tobal No. 1, um game de luta desenvolvido pela Dream Factory e publicado pela Square tanto no Japão quanto no Ocidente. Ainda em 1997 aproximava-se um momento divisor de águas na história da empresa, do gênero e até dos próprios videogames.

A sétima fantasia e o primeiro ano de parceria com a Sony

Em janeiro de 1997 foi publicado Final Fantasy VII, um jogo que surpreendeu o mundo todo. Vendendo milhões de cópias, chamando a atenção de todos os amantes de game, colocando novas potencialidades gráficas e de ambientação dentro do gênero, trazendo as famosas CGs, e também gráficos e ambientes pré-renderizados. Possuindo uma das tramas mais relembradas e um dos vilões mais celebrados, o sétimo jogo da franquia foi um fenômeno. Não é exagero dizer que ele abriu as portas para uma série de RPGs serem publicados nos Estados Unidos e Europa, como também pela iniciação de uma nova era de ouro dos JRPGs.

Em 1997, isso aqui era uma das coisas mais lindas de todos os tempos
Mas nem só de RPG vivia a Square, e em março de 1997 a empresa publicou o jogo Bushido Blade, um game de luta em arena 3D. Inspirado nas batalhas entre samurais, o jogo conquistou fãs e chegou aos portos ocidentais. Contando com uma belíssima continuação em 1998, Bushido Blade 2, a série conseguiu trazer um contraponto à grande quantidade de RPGs publicados pela empresa. Outro game lançado em 1997 foi Einhander, um shooter de naves muito bem executado.

Em Bushido Blade, um único golpe certeiro acaba com a raça do adversário
O ano ainda trouxe uma nova incursão da série SaGa, SaGa Frontier. Outra franquia que deu as caras no console da Sony foi  Front Mission, com as incursões Front Mission 2 e Front Mission: Alternative. Ainda em 1997 um dos mascotes da série Final Fantasy começou a alçar voo próprio, a série de jogos sobre os Chocobos foi iniciada, apenas no Japão, com Chocobo no Fushigi na Dungeon.

Por fim mas não menos importante, a Square surpreendeu com um grandioso spin-off da série Final Fantasy. Constituído a partir da premissa tática, Final Fantasy Tactics convidou os jogadores ao mundo de Ivalice para acompanhar a exuberante e maravilhosa estória de Ramza. Com um trama magnífica, um sistema de jogo sólido e muito bem executado, o game ganhou o coração de muitos jogadores.

O jogo é tão bom que muita gente considera melhor que seus irmãos de console (FFVII, FFVIII e FFIX)

Avalanche de bons jogos

Em fevereiro de 1998 no Japão, e em outubro do mesmo ano nos Estados Unidos, a Square lançou o jogo Xenogears. Fruto do trabalho de Tetsuya Takahashi e de sua equipe, a então Square Product Development Devision 3 (terceira divisão de desenvolvimento de produtos da Square), o RPG foi um soco no estômago, no melhor sentido possível da palavra. Contando com uma história magnífica, personagens ímpares e muito bem construídos, ambientação sensacional, além de um sistema de batalha instigante e de uma trilha sonora magistral (composta por Yasunori Mitsuda) o jogo conseguiu agregar uma base sólida de fãs. É, para mim, o melhor JRPG que já existiu, e talvez existirá. Entretanto, Tetsuya Takahashi e grande parte da equipe não viam possibilidades de continuar seu trabalho dentro da Square, e já em 1999 deixaram a empresa. Tetsuya fundou a Monolith Soft. Cabe ressaltar que o futuro desenvolvimento da série Xenosaga foi, de certa forma, muito atrapalhada pela postura da Square, que detinha os direitos sobre Xenogears.

O jogo põe o jogador nessa mesma cadeira, refletindo e sentindo cada momento desta obra
O ano ainda contou com o lançamento da segunda incursão dos jogos de chocobo, Chocobo´s Dungeon 2, desta vez publicado também no Ocidente. Ehrgeiz, um jogo de luta desenvolvido pela Dream Factory que contava com a participação especial de Cloud Strife do Final Fantasy VII, também marcou presença em 1998. O próprio FFVII fora lançado para os PCs naquele ano.

Para além da série Final Fantasy, a Square conseguia emplacar cada vez mais jogos. Um grande exemplo é o maravilhoso Parasite Eve ( lançado em março de 98 no Japão, e em setembro do mesmo ano nos EUA), dirigido e escrito por um dos diretores de Chrono Trigger, Takashi Tokita. Um jogo diferenciado do que estavam acostumados os jogadores do gênero. Ambientando em Nova Iorque, e em meio a uma série de acontecimentos grandiosos, macabros e sensacionais iniciados no dia 24 de dezembro, o game apresenta a saga de Aya Brea. O jogo trouxe uma série de possibilidades no que diz respeito à jogabilidade e narrativa, além de trazer um estilo de batalha em tempo real, pausado no momento da escolha das ações de Aya. Outro exemplo de game foi Brave Fencer Musashi, um encantador jogo de ação, ao estilo Zelda, inspirado na figura do lendário samurai Myiamoto Musashi.

Se você nunca jogou Parasite Eve, e possui acesso à PSN, faça o favor de desligar seu computador, comprar o jogo e jogá-lo
O ano de 1999 chegou e, já que havíamos salvado o mundo em 1995 com Chrono Trigger, Lavos não acordou para trazer destruição ao mundo. No entanto, um embrolho envolvendo feiticeiras, compressão do tempo, uso desenfreado de GFs e problemas de memória, arrebatou os jogadores. Final Fantasy VIII representou um avanço técnico muito interessante se comparado ao sétimo jogo da série. Além disso, o jogo contou com um vasto mundo, uma série de coisas para se fazer, um sistema muito bom de fortalecimento dos personagens (o Junction), um jogo de cartas extremamente viciante e, claro, uma bela estória de amor vista pelos olhos do parvo Squall Leonhart e do engraçado Laguna Loire. Foi, novamente, um sucesso de vendas.

No mesmo ano a empresa ainda apostou em vários relançamentos da série Final Fantasy para o PlayStation (Final Fantasy VI e Final Fantasy Anthology). SaGa Frontier 2 e Front Mission 3 trouxeram o retorno dessas duas séries da companhia. Outro jogo publicado no ano foi Threads of Fate, um RPG de ação bom e muito simpático que não ganhou muita notoriedade. Além dessas publicações, a Square ainda apostou em alguns games para o estranho periférico PocketStation, como alguns relançamentos das séries Final Fantasy e Front Mission.

Como se tanto jogo assim fosse bobagem, a grande Square ainda reservou 1999 para o lançamento de 3 jogaços. O primeiro, Legend of Mana, é, com facilidade, um dos melhores JRPGs de ação já apresentados ao mundo. Um jogo colorido, tanto no sentido estético quanto na sensação simplesmente alegre e feliz de se inserir aquele jogo no PlayStation, ouvir a sensacional musica de abertura e partir para aquela aventura envolvente e viciante. Com uma grande variedade de possibilidades de customização (armas, mapa, etc.) o game vendeu uma quantidade próxima a 700 mil unidades.

Em Legend of Mana as lutas contra os chefes são muito divertidas
O segundo jogo foi nada menos que a continuação do estrondoso Chrono Trigger, Chrono Cross. Sim, era muito difícil superar aquele jogo e não, Chrono Cross não superou seu antecessor, o que não o impede de ser um ótimo jogo, recompensador e cheio de surpresas. Além de contar com gráficos polidíssimos e uma quantidade bem grande de personagens, Cross trouxe mais um sistema de batalha bem interessante e bem construído. A despeito de qualquer nostalgia com Trigger, a sequência para PlayStation é um jogo fenomenal que atingiu a marca de 850 mil cópias vendidas.

O terceiro grande lançamento foi Parasite Eve II. O game trouxe algumas mudanças ao original, mas conseguiu manter a atmosfera de seu precursor. O retorno de Aya Brea significou alguns avanços, principalmente técnicos, para a série, ainda que não tenha conseguido cativar como o fantástico pioneiro. O jogo superou a marca de 1 milhão de unidades vendidas.

Os anos 2000, a chegada do PlayStation 2 e o fiasco cinematográfico

O ano 2000 começou com a publicação de Final Fantasy VIII para PC. Outro game, porém, foi aclamado no inicio do ano, Vagrant Story. Com um sistema de batalha parecido com o do primeiro Parasite Eve, mas que contava com uma série de elementos e possibilidades distintas, o jogo convidou os fãs a explorar ambientações inspiradas no sul francês. Vagrant Story é um jogo maravilhoso, desses que fazem o jogador ficar indeciso sobre qual aspecto é o melhor do game. Cabe ressaltar a tradução de Alexander Smith para o inglês, o tradutor já havia trabalhado em várias localizações da Square, mas em Vagrant Story ficou a cargo de toda a tradução do jogo e optou pela utilização do inglês arcaico, fazendo um maravilhoso casamento da linguagem com a atmosfera do jogo.

Se você não jogou Vagrant Story, e possui acesso à PSN, faça o favor de desligar seu computador, comprar o jogo e jogá-lo (você já leu isso em algum lugar)
Muita treta em The Bouncer
Ainda em 2000, a Square publicou alguns jogos já para o PlayStation 2 (Driving Emotion Type-S, All Star Pro-Wrestling), dos quais destaco o game The Bouncer (desenvolvido pela Dream Factory), um game de pancadaria ao melhor estilo Streets of Rage que conseguiu realizar um trabalho gráfico primoroso, ainda mais quando pensamos que era o início do PS2. Além do segundo console da Sony, a Square também voltou suas atenções para o WonderSwan Color, um portátil que tentava competir com o Game Boy Advance, publicando uma série de seus jogos como Final Fantasy IV, Final Fantasy II e Front MIssion.

Em julho do mesmo ano a empresa lançou o nono título da franquia Final Fantasy. Final Fantasy IX representou um retorno as origens da série após várias incursões por mundos tecnológicos e sistemas de profissão (job) híbridos. FF9 espremeu até a última gota a potencialidade do PlayStation e trouxe uma apresentação gráfica impressionante para o idoso PSOne. Além de ter sido um enorme sucesso de vendas, os personagens do jogo fizeram uma participação em um comercial da Coca-Cola.


No mês de julho de 2001, apenas um ano após o lançamento de FF9, a empresa publicou o primeiro jogo da série no PlayStation 2. Final Fantasy X representava um óbvio salto técnico em relação aos 3 games de PSOne. Foi, também, o último jogo da série principal com a participação direta e desde o início do pai da série, Hironobu Sakaguchi. Quanto ao jogo, FF10 trouxe mudanças no sistema de batalha e evolução, bem como no processo de evocação das summons. A estória e ambientação do jogo foram muito bem construídas. O mini-game do título, o tal do Blitzball, foi uma ótima ideia e conseguiu viciar muita gente.

Ainda em 2001 a Square estreou nos cinemas com Final Fantasy: The Spirits Within. O filme, mesmo contando com uma qualidade de animação absurda, não caiu no gosto nem de fãs e nem de não conhecedores da franquia e com um orçamento duas vezes maior do que a arrecadação foi um dos grandes responsáveis pela crise que a Square adentraria. Hironobu Sakaguchi escreveu e dirigiu o filme, e não é difícil imaginar a quantidade de pressão que sofreu da empresa após o fracasso comercial do longa metragem. Talvez, nesse momento, começava a se delinear o rompimento do pai da fantástica série com a Square.

A incursão no mundo online, a parceria com a Disney e a volta do flerte com a Nintendo

Já em 2002, com Final Fantasy XI a empresa adentrou o mundo dos MMORPGs nos PCs e no PS2 (em 2006 o jogo foi lançado para Xbox 360 também). Diferente de tudo que a empresa trabalhara até então, o jogo online da famosa franquia conseguiu sucesso, sendo um dos MMOs mais jogados do Japão. No mesmo ano a empresa publicou um jogo da série SaGa para o PlayStation 2, Unlimited SaGa, jogo que não conquistou muitos fãs e que recebeu desde críticas severas até aclamações em veículos especializados.

O grande lançamento do ano foi o game que uniria duas gigantes, Square e Disney. Kingdom Hearts é um jogão. Um ótimo RPG de ação, com gráficos e jogabilidade primorosos, além de utilizar vários personagens carismáticos das duas empresas. O jogo, que contou com a dublagem do astro mirim Haley Joel Osment, conquistou uma série de fãs e vendeu mais de 5,5 milhões de cópias ao redor do globo.

Ainda no ano do corte de cabelo "cascão" de nosso então magro e goleador Ronaldo, a Square, inspirada pela capacidade de conquista dos boleiros, reatou seu romance com a Nintendo. Chocobo Land: A Game of Dice foi publicado para Game Boy Advance, mas apenas no Japão. No entanto, outro game chegou também ao Ocidente, Final Fantasy Tactics Advance. O jogo de retorno da série Tactics divergiu bastante de seu irmão do PlayStation, com um atmosfera bem diferente, mas com um sistema de batalha e de missões sólido e recompensador, o jogo firmou as pazes entre as companhias.

Para o PlayStation 2, a empresa desenvolveu pela primeira vez uma sequência direta para um game da série Final Fantasy. Final Fantasy X-2 contava a história de Yuna após os acontecimentos relatados ao final de FFX. Com um sistema de job e batalha diferentes do décimo título da franquia, o game não foi tão bem recebido pelos fãs da série, ainda que tenha vendido mais de 2 milhões de unidades. FFX-2 foi o último trabalho de Hironobu Sakaguchi dentro da Square.

Suteki Da Ne, Não é maravilhoso?
Mesmo com anos de muito sucesso, com um número absurdo de bons e ótimos jogos, a Square chega em 2003 tendo perdido grandes nomes de suas equipes criativas (como o time desenvolvedor de Xenogears e, principalmente, Hironobu Sakaguchi) além de um rombo em seu orçamento deixado, primordialmente, pelo filme Final Fantasy. Além de problemas internos, a gigante japonesa dos RPGs começa a enfrentar o crescimento e popularização de outros gêneros nos consoles. Não deixe de conferir o fim da história desses trinta anos de Square aqui no GameBlast: de sua fusão com a Enix, passando pelos dias atuais até os prognósticos para o futuro.

Revisão: Ramon Oliveira de Souza
Capa: Diego Migueis

Escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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