Jogamos

Análise: Monster Hunter World (Multi) é a clássica caçada de monstros em sua versão mais robusta

Um dos jogos mais esperados de 2018, Monster Hunter World (Multi) surpreende com mecânicas aperfeiçoadas e qualidade estupenda.

Monster Hunter é uma franquia que já há 14 anos trata, como o próprio nome diz, de caçar criaturas monstruosas, se fortalecer e, assim, encarar outros monstros ainda maiores e mais poderosos. Depois de muito tempo fora dos consoles de mesa, Monster Hunter World (Multi) chega com mecânicas renovadas, visuais de última geração e quase tudo de bom que a franquia já apresentou anteriormente seja no PC, em portáteis ou nos consoles mesmo. Com uma complexidade que une praticamente todos os jogos anteriores da franquia com uma ambientação completamente nova e criaturas ainda mais criativas, o novo capítulo da saga dos caçadores de monstros é a garantia máxima de que a franquia da Capcom finalmente alcançou novos patamares de qualidade e público.

Mesmo que tenha alguns problemas que impedem o título de alcançar a perfeição, o jogo garante diversão, qualidade e imersão de um modo tão encantador e desafiador como sempre tivemos na franquia. Entretanto, aqui vemos uma versão aprimorada, aperfeiçoada e muito mais robusta do que tudo que havia sido apresentado até então. Monster Hunter World é, sem dúvidas, uma expansão de tudo que Monster Hunter já foi, resolvendo quase todos os clássicos problemas da série. Pena que não todos.


Nova história, novo mundo, nova geração!

Monster Hunter World já possui um elemento altamente diferenciado dos seus antecessores: uma história mais complexa. O enredo do jogo gira em torno de um grupo de pesquisadores e caçadores que estão há algumas décadas desbravando o chamado Novo Mundo. Dando adeus ao velho continente, temos um vislumbre muito mais robusto de alguns detalhes e contextos da série. Elementos como a estrutura de organização da guilda dos caçadores, a personalidade da maioria dos líderes, a nossa relação com alguns personagens como os simpáticos gatinhos Palico e até a personagem com a qual pegamos e entregamos todas as missões.

Tudo aqui tem um contexto, um enredo próprio, mesmo que não seja tão profundo como os RPG da nova geração. Para uma franquia que nunca teve como foco sua história ou pano de fundo, World traz uma contextualização estupenda para que nossas missões e buscas tenham significado para além do “fazer uma armadura mais forte”. No enredo do jogo, somos parte da Quinta Frota de pesquisadores que chegou ao Novo Mundo. Aqui, precisamos ajudar os remanescentes das frotas anteriores a resolver o mistério por trás da migração dos Dragões Anciões (Elder Dragons).



Só por aí já temos uma introdução estupenda e muito imersiva, onde somos colocados rapidamente na ação ao nos depararmos com um dos motivos pelos quais vamos passar as próximas 20h colados na tela da TV, o dragão montanha Zorah Magdaros. Entretanto, se o jogo fosse só cinemáticas interessantes, não prenderia por tanto tempo os jogadores. Continuamente à contextualização, temos mecânicas afiadíssimas de combate, movimentação e administração de menus. Tudo com um visual muito bem polido, o mais bonito que a franquia já viu.

Biomas de pôr inveja em muito “Mundo Aberto”

Uma das inovações que World trouxe para a franquia foi a reestruturação dos mapas do jogo. Quem já é familiarizado com os jogos lembra muito bem que cada bioma para o qual nosso caçador viajava era composto por diversos “minimapas” interligados com telas de carregamento rápidas. Alguns biomas chegavam a ter 14 a 18  áreas interligadas, pelas quais precisávamos passar para perseguir os monstros que nem sempre respeitavam essas áreas para se locomover.



Agora temos outra realidade: os biomas são todos formados por um único mapa. Os setores numerados ainda estão ali, mas sem tela de carregamento nenhuma entre eles. Na verdade, o que temos são redes complexas de túneis, pontes, passagens submersas e cipós que ligam as áreas, fazendo com que a fuga e perseguição se tornem muito mais imersivas e instigantes. Elementos que só existiam nos vídeos de apresentação dos jogos, como correr desenfreadamente enquanto um monstro quebra paredes, rochas e árvores para te perseguir agora são realidades da jogatina, fruto de uma movimentação excelente combinada a movimentos de combate imersivos e instintivos, mesmo que ainda com as limitações clássicas de cada arma e equipamento do jogo.

Combinado com essa variação de biomas temos também uma excelente variedade de monstros. Para os nostálgicos, temos ótimas figuras dos jogos anteriores como Rathian, Rathalos, Diablos, Deviljho, Barroth e outros. Entretanto, esses não roubam nem um pouco o espaço dos excelentes estreantes. Impossível não citar monstros criativos, aterrorizantes e belíssimos como Legiana, Nergigante, Anjanath e Radobaan. Infelizmente, outros monstros da franquia muito queridos pelos fãs não estão presentes no jogo ainda, mas é possível que sejam disponibilizados em conteúdos adicionais futuramente.



A questão é que a combinação entre diversas criaturas de pequeno, médio e grande porte com o ambiente ao seu redor é sem igual. A AI dos monstros nunca esteve tão desenvolvida, criando de fato uma ambientação extremamente orgânica onde tudo se mexe e age independente da sua presença ali. Monstros caçam, dormem e se comportam de maneira singular enquanto você explora um mapa incrivelmente complexo e detalhado. São tantos detalhes que, mesmo que você passe boas horas jogando e acabe decorando os principais locais, vai demorar algumas dezenas de horas para você lembrar de todas as passagens secretas, clivagens e pontos de impulso que o mapa proporciona. 

Os combates mais impressionantes

Outro dos sistemas do jogo que sofreu diversas modificações foi o de combates. Um dos pontos cruciais para um jogo focado em combates contra monstros é justamente o combate. Em Monster Hunter World todas as mecânicas passaram por melhorias mais que consideráveis, tornando tudo que fazemos muito mais fluido e instigante durante os combates, tornando a experiência muito mais épica do que era em jogos anteriores.



Novos recursos como se esconder em vegetações altas, trocar de lugar em cima do monstro para evitar que seja derrubado e deslizar por declives podendo infligir ataques totalmente novos são alguns dos acréscimos muito bem-vindos ao sistema de combate. Além disso, é notada uma melhoria considerável na inteligência artificial dos monstros, bem como no impacto das armas em seus corpos, sendo assim mais fácil de administrar as lutas quebrando carapaças e cortando caudas.

Mas de todos os novos recursos de combate, o que mais surpreende é a interação entre os monstros. Como sempre aconteceu na série, existem monstros que são mais territorialistas, outros que são mais predadores do que os demais e aqueles que ficam mais na defensiva. Tudo isso foi potencializado em Monster Hunter World, fazendo com que as criaturas interajam entre si de modo tão realista que chega ao ponto delas esquecerem a luta com você para disputar o território com uma ameaça muito maior. 



Tudo isso faz com que as lutas sejam muito mais diversificadas e com mil possibilidades, mesmo lutando contra o mesmo monstro repetidas vezes. Usar recursos como o stealth ou então ataques aéreos, armadilhas ou até atrair um monstro para “te ajudar” contra o seu alvo são estratégias válidas para o combate e que funcionam na melhor forma possível. Se caçar e explorar já era divertido, enfrentar essas feras ficou ainda melhor.

O melhor Monster Hunter para novos jogadores

Outro ponto que faz de Monster Hunter World uma evolução lógica de tudo que a série já fez até então é a forma como ele trata os novos jogadores. Consciente de que o público alvo do jogo não é mais somente os fãs que jogam desde o PSP ou o Wii, a Capcom preparou um Monster Hunter não exatamente mais fácil, mas muito melhor explicado em seu início. Agora é possível experimentar sem pressão todas as armas em sua própria casa, para saber as diferenças de cada uma, combos e como jogar. Além disso, sempre que uma mecânica nova surge, um texto bem explicado e simplificado surge na tela, esclarecendo de forma didática todos os recursos, mas sem necessariamente pegar o jogador pela mão.


Esse equilíbrio nos tutoriais é potencializado com textos em português brasileiro muito bem traduzidos. Mesmo que com algumas adaptações que podem não agradar os jogadores mais antigos, como os Palico que viraram os Amigatos e a Great Sword que virou o Espadão. Como o jogo possui muitos menus complexos e informações importantes através de texto, a tradução é muito bem-vinda principalmente para os caçadores de primeira viagem. 

Além disso, a curva de dificuldade do jogo como um todo está muito melhor distribuída. Em jogos anteriores da série era possível perceber picos de dificuldade que quebravam o ritmo do jogo e até desanimavam a jogatina em alguns momentos. Agora essa curva está muito mais uniforme e gradativa, fazendo com que a jogatina seja sempre instigante e o senso de evolução seja percebido da forma que deveria ser: com orgulho. Seja matando um Pukei-Pukei ou uma Black Diablos, a ação e interação que a aventura proporciona sempre será gratificante, deixando mesmices de lado e trazendo combates excelentes, seja você jogador desde Freedom Unite ou então nascido no Novo Mundo.


Excelentes mecânicas de evolução

A curva de dificuldade adequada é complementada por diversos recursos que antes não existiam na série, mas que acrescentam muita coisa tanto na imersão quanto na administração do seu personagem. Agora, além dos tradicionais mercador e ferreiro, temos os pesquisadores que trazem recursos diferenciados e missões próprias que podem ser combinadas com as missões tradicionais para aumentar os recursos que você recebe no final. Além disso, esses pesquisadores ainda possuem opções de missões de investigação que, mesmo sendo exaustivamente repetitivas em alguns momentos, cumprem a função de ser um acréscimo para as justificativas de explorar o mapa.

Além disso, o botânico permite que cultivemos determinados itens como ervas e até mel, enquanto que o biógrafo trata de recolher as pistas que nós coletamos dos rastros dos monstros para liberar gradativamente mais informações sobre cada um deles. Este último recurso, até existia através de vídeos em jogos anteriores, entretanto, informações mais úteis foram acrescentadas de modo mais didático, como pontos fracos e/ou quebráveis de cada criatura, os elementos fortes ou fracos contra elas e os tipos de item que cada parte dela proporciona.



Com isso, informações que antes eram acessíveis somente em fóruns internet afora, agora estão inseridos de forma imersiva e muito interessante dentro do próprio jogo, justificando tanto a exploração quanto a coleta de rastros para além do que muitos pensavam como apenas uma “seta para ser mais fácil achar o monstro”. Inclusive, os “guialumes” são outro excelente acréscimo à jogatina, melhorando o senso de exploração e perseguição, fazendo com que a experiência de jogo se assemelhe muito mais a uma caçada de verdade.

Ótimos recursos online, mas um pouco perversos

Monster Hunter sempre foi uma franquia para se jogar em grupo. Grupos de até quatro caçadores saindo juntos para enfrentar monstruosidades que seriam quase impossíveis de se enfrentar sozinhas é uma das atrações principais da franquia. World respeita isso até certo ponto e traz um robusto sistema online facílimo de se mexer e muito bem otimizado, ao menos no PS4, pois tais recursos enfrentaram alguns problemas para funcionar da maneira adequada no XBO.



O chat de voz é facílimo de ser utilizado, a cidade agora aguenta até 16 jogadores simultâneos em uma mesma “sala”, mesmo que o número de quatro jogadores por caçada ainda permaneça. O sistema online é sensacional e funciona já desde o início do jogo, possibilitando que os jogadores cacem juntos desde os primeiros ranques. Entretanto, alguns problemas precisam ser considerados na exploração do multiplayer.

O primeiro deles foi observado principalmente na sua versão de PS4. Os problemas giram em torno dos jogadores que não são assinantes do serviço PlayStation Plus. Ao entrar no jogo, já é pedido uma conexão na internet e uma propaganda do serviço premium da Sony já aparece de modo desnecessariamente grande na tela, avisando que “alguns recursos online não estão disponíveis, caso você não seja assinante”. Entretanto, eles não deixam claro que esses recursos são justamente jogar online com os amigos.



O problema referente a isso em World não é exatamente o recurso online ser somente para assinantes do pacote premium da Sony, mas sim a forma como isso foi colocado no jogo. O jogador “não-premium” pode conectar-se e até conversar por chat com todos os amigos em salas compartilhadas, assim como também trocar cartões de visita com cada um deles. Entretanto, quando ele for pedir ajuda para algum deles com o excelente novo recurso de SOS ou então quando ele quiser criar ou entrar em missões compartilhadas, será impedido por não ser um assinante do serviço; e é aí que se encontra o principal e talvez único grande problema de Monster Hunter World.

O serviço online pago existe em diversos jogos e isso não é um problema para a maioria. Entretanto, induzir o jogador a querer o serviço online de forma quase abusiva de tão incisiva beira a canalhice, pois permitir que o jogador não assinante tenha acesso ao lobby e ao chat de voz não tem função nenhuma dentro do game, há não ser induzi-lo a assinar o serviço premium. Para uma série que desde 2011 tinha um serviço online sólido e gratuito lá no Wii U ou no 3DS, possuir uma das suas principais funções limitada e, ainda por cima, induzindo jogadores de forma grotesca é uma característica que não pode ser deixada de lado.



Combinado a essa indução de assinar pacotes premium existe também a dificuldade em se jogar offline. O jogo automaticamente já se trata como online, mesmo sendo possível jogá-lo sem internet. Jogar offline fica algo semelhante a um “gato”, pois essa opção não está devidamente clara nos menus ou opções de jogo. Basicamente você só joga offline se seu console não se conectar à internet. Não existe uma opção dentro do jogo para você de fato escolher jogar offline, o que também é um problema. Mas claro, quando a conta principal do console é assinante do serviço premium da Sony, qualquer outra conta logada no console consegue jogar online sem problemas, o que é um tanto quanto problemático ainda assim.

A melhor caçada de 2018

Apesar dos pesares, Monster Hunter World (Multi) é uma clara evolução de vários aspectos que a franquia da Capcom vem melhorando ao longo dos anos. Com novos recursos, mecânicas de jogo otimizadas e maior variedade de ação e conteúdo, o Novo Mundo de fato é uma exploração única que dá ao ocidente um vislumbre mais que ideal de tudo que Monster Hunter pode oferecer. O primeiro capítulo da série na nova geração é robusto e bem otimizado, com respeito pelos fãs mais velhos, mas com um convite muito agradável para os jogadores iniciantes na série.



Mesmo que com problemas específico em seus recursos online para o PS4 ou o XBO, isso não atrapalha demasiadamente a experiência do jogo. Na verdade, por dezenas de horas isso praticamente não é sentido, pois o jogo permite que, com treinamento, persistência e paciência, um jogador solo consiga enfrentar a grande maioria dos desafios. Infelizmente, para os ávidos pelo multiplayer online, é bom desembolsar bons trocados para as assinaturas premium ou então esperar para ver como isso tudo funcionará na versão para PC que sairá no final do ano. No mais, a caçada está muito bem estabelecida para a nova geração, com um novo mundo e novos recursos, mas com o bom e velho ar de desafio e imponência que a série construiu desde o PS2.

Prós

  • Os melhores gráficos da franquia até então;
  • Novos recursos de batalha são excelentes acréscimos;
  • Modo história bem desenvolvido anima a jogatina;
  • Boa variedade de monstros e biomas;
  • Mapa extenso e com poucas telas de carregamento;
  • Novos sistemas de evolução são excelentes;
  • Novo sistema de biografias muito mais didático e interativo;
  • Tutoriais bem resumidos e explicativos;
  • Texto inteiramente em português facilita o aprendizado;
  • Curva de dificuldade melhor estabelecida;
  • Recursos online mais robustos e fáceis de usar;
  • Extensa variedade de missões.

Contras

  • Dificuldade desnecessária para se jogar offline;
  • Alguns nomes traduzidos podem desagradar veteranos da franquia;
  • Recursos induzem desnecessariamente a assinatura de pacotes premium; 
  • Propagandas exaustivas do PlayStation Plus no PS4;
  • Alguns problemas de conexão no XBO.
Monster Hunter World — PS4/XBO — Nota: 9
Versão utilizada para análise: PS4
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

Comentários

Google+
Disqus
Facebook