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Análise: A Hat in Time (Multi) é um exemplo de como os jogos de plataforma 3D devem ser

Aproveitando conceitos dos principais clássicos do gênero, game sabe explorar bem a necessidade de revisitar o mesmo mundo por várias vezes.



Um protagonista fofinho, vários mundos com temáticas diferentes e gigantesca quantidade de colecionáveis para ser encontrada. Essa é a fórmula básica para que games de plataforma 3D façam sucesso, receita que surgiu durante a quinta geração dos consoles. Mesmo com o gênero perdendo forças com o passar do tempo, a cartilha continua sendo válida e aproveitada até os dias de hoje. Uma das grandes provas de que resultados positivos ainda podem ser retirados desse modelo é A Hat in Time.


Disponível para PC e com lançamento previsto, ainda em 2017, para PlayStation 4 e Xbox One, o jogo foi desenvolvido pelo estúdio Gears for Breakfast. A aventura consegue aproveitar as melhores lições deixadas por Super Mario 64 e Banjo-Kazooie, além de atualizar alguns conceitos criados pelos clássicos. Por exemplo, alterando as características de cada mapa em função da missão principal, evitando assim que as repetitivas visitas ao mesmo mundo não se tornem cansativas e monótonas.

Odisseia espacial

A Hat in Time conta com enredo bastante simples, apresentando algumas poucas surpresas somente em sua parte final. A história começa quando uma garotinha, a bordo de sua espaçonave, vê o caminho ser interrompido por alguém querendo cobrar impostos. Na discussão com o visitante indesejado, o combustível do veículo — pequenas ampulhetas — acaba se espalhando pelos planetas nas redondezas. Para continuar a viagem, a menina precisará seguir para esses diferentes mundos e coletar as peças perdidas.
Objetivo principal é recuperar as ampulhetas


A espaçonave acaba funcionando como hub que interliga todas as fases. Conforme as ampulhetas forem sendo resgatadas, novas áreas no interior do veículo são liberadas e a protagonista tem acesso a planetas diferentes. No total, são quatro mundos únicos e mais a fase final. Inicialmente, até pode parecer pouco, mas, cada região apresenta ainda variações em função da ampulheta alvo da missão. Por exemplo, a primeira fase acontece em uma cidade litorânea, que se transforma em uma ilha cercada por lava em uma das visitas seguintes.

Essa é a maior qualidade de A Hat in Time. Os mundos não são apenas gigantescas áreas que precisam ser massivamente exploradas em busca de colecionáveis. O level design foi caprichosamente pensado para que cada visita às regiões do game proporcione experiências únicas. Desta maneira, o título consegue driblar um dos grandes problemas dos plataformas 3D: passar pelos mesmos locais repetitivas vezes, quebrando um pouco o ritmo da aventura. O sistema encontrado pelo jogo é capaz de resolver inteligentemente esse obstáculo.

Outra solução utilizada pelo game para evitar a monotonia é explorar diferentes mecânicas em cada um dos mundos. Enquanto o primeiro é uma cidade que aproveita os conceitos mais simples do gênero plataforma, o segundo ocorre em um estúdio de cinema em que as habilidades de stealth do jogador são colocadas à prova. Já o terceiro é baseado no terror — inclusive com uma das fases me fazendo tirar o fone — e o quarto obriga a protagonista balançar entre cordas que ligam os topos de diferentes montanhas. Por fim, no último, todos os aprendizados acumulados na aventura são testados antes do confronto decisivo.
Esse lugar já foi uma cidade praiana...

Chapelaria

Além das ampulhetas, cada fase apresenta outros tipos de colecionáveis, como diamantes usados para adquirir novas habilidades e novelos de lã que servem para criar chapéus diferentes. As vestimentas não servem somente para alterar o visual da garota, mas também para lhe oferecer poderes exclusivos. O gorro de neve, por exemplo, possibilita que ela se transforme em cubo de gelo para executar o movimento de ground pound. Já a viseira faz com que a menina consiga melhorar substancialmente sua velocidade de corrida.

Ao ir liberando os itens, é preciso revisitar os mundos anteriores para que novas missões sejam liberadas. Saber qual chapéu usar em cada situação é fundamental para prosseguir na jornada, pois são diversos os puzzles que só podem ser resolvidos com determinado modelo de acessório. Em relação aos quebra-cabeças, A Hat in Time oferece bom nível de desafio, mas nada que exija do jogador gastar muitos minutos pensando no que precisa ser feito. No geral, é até simples superar os obstáculos que necessitam do uso do cérebro.
Alguns chapéus são, na verdade, máscaras

Pulando por aí

Todo jogo de plataforma em 3D que deseja fazer sucesso, precisa contar com controles extremamente precisos. Afinal, errar um salto devido à mecânicas que não funcionam direito acaba sendo bastante decepcionante e retira a vontade do jogador em prosseguir na jornada. A Hat in Time consegue oferecer bons controles, que atendem exatamente aos comandos que pretendemos realizar.

Usei o DualShock 4 no PC para explorar todo o game e, inicialmente, alguns dos botões não estavam configurados e o movimento da câmera apresentava sensibilidade bastante alta. Porém, consegui ajustar tudo através dos menus e deixar a jogabilidade da maneira que mais me agradava. Depois de deixar as mecânicas arrumadas, não tive mais nenhum tipo de problema para controlar a protagonista.

A física do game também ajuda no momento de executar aqueles saltos que devem ser bastante precisos. A caixa de colisão da personagem parece ter sido programada com formato retangular, com isso, basta que a pontinha do pé dela esteja sobre a plataforma para que não escorregue para baixo. Outra mecânica que ajuda bastante é no momento que a garota cai no chão, nesse movimento não há nenhum tipo de escorregão para frente, o que auxilia no cálculo da velocidade dos saltos.
Seja pulando ou andando sobre cordas, os controles são precisos

Apesar dos controles precisos, em alguns momentos aconteceram alguns bugs que atrapalharam um pouco. Como foi no caso do terceiro mundo, em que eu estava escalando uma árvore, escorreguei e fiquei “preso” entre a parede e as vinhas, tendo que me movimentar para os lados e cair propositalmente para que a personagem voltasse a se mexer normalmente. Esses problemas aconteceram poucas vezes durante a experiência, mas estavam presentes.

O jogo é bastante justo nas fases que exigem grandes sequências de saltos. Um exemplo acontece no mundo em que é preciso escalar enorme moinho de vento. Conforme o jogador vai progredindo, existem vários checkpoints. Assim, ao errar aquele último salto e cair para o inicio da fase, ao invés de começar tudo de novo, a jogatina volta ao último ponto de salvamento, evitando assim que a garota tenha reiniciar a missão do zero.

Mundo colorido

Graficamente, todos os mundos são bastante detalhados e coloridos. O estilo cartunesco da protagonista conversa bem com as texturas empregadas no cenário, porém, visualmente dá para perceber que os mapas são mais bonitos do que os modelos dos personagens. Além disso, a movimentação de alguns deles é meio travada e pouco natural. Percebi esse tipo de problema acontecendo, principalmente, no primeiro dos mundos. Ocorreram também alguns bugs visuais, com inimigos caminhando sobre plataformas invisíveis.
Tudo muito bonito

Se há alguns problemas de design, o oposto acontece com a parte sonora do game. As trilhas são todas muito bem arranjadas e conversam harmonicamente com tudo o que acontece no game. No primeiro mundo, o tema é tranquilo e relaxante, porém, durante a missão que transforma a cidade em um vulcão, a mesma música é executada com arranjo mais pesado, transmitindo a sensação de clima quente.

Assim como a trilha sonora, as vozes de todos os personagens encaixam muito bem. Ponto para os artistas que emprestaram suas falas para as criaturas que aparecem durante a aventura. A interpretação é irretocável e garante momentos bastante divertidos, com destaque para o sotaque dos mafiosos do primeiro mundo, ao modo cheio de estilo de falar do pinguim cineasta do segundo e o tom horripilante da “morte” no terceiro.

Viajando sem problemas

A Hat in Time não apresenta grande nível de dificuldade, podendo ter sua campanha principal finalizada em cerca de nove horas. No total, são 40 ampulhetas espalhadas pelo mundo, mas é possível entrar na última fase tendo coletado somente 25 delas. Os itens não estão completamente escondidos e podem ser localizados até com certa tranquilidade, ainda mais ao usar a cartola — chapéu principal que mostra aonde ir na sequência.
Amigo ou inimigo?

O que me incomodou um pouco foi a baixa variedade de inimigos nos mapas. No geral, as criaturas que querem acabar com a personagem são um tanto quanto repetitivas e com movimentos iguais. Conhecer como todos se comportam acaba tirando um pouco do desafio do game.

Por outro lado, cada mundo tem seu boss próprio que acaba sendo bem mais interessante do que os inimigos comuns. Todas as batalhas exigem bastante atenção e são complicadas, principalmente, a do primeiro mundo que foi a que me consumiu a maior quantidade de vidas.

De tirar o chapéu

Sem reinventar a roda, mas sabendo utilizá-la da melhor maneira, o game oferece bons momentos de diversão. O jogo não traz nenhuma grande novidade ou diferencial para o gênero, no entanto, é capaz de reaproveitar da melhor forma aquilo que os grandes clássicos ensinaram. O grande exemplo é a mecânica de revistar os mundos de uma maneira que não torne a jogatina repetitiva. Sabendo como utilizar a “fórmula básica”, A Hat in Time é um dos melhores títulos de plataforma em 3D lançados recentemente.
Que comece a aventura!

Prós

  • Level design proporciona experiências únicas em cada visita aos mesmos mundos;
  • Controles extremamente precisos;
  • Ótima trilha sonora e encaixe perfeito das vozes com os personagens.

Contras

  • Alguns bugs gráficos e de movimentação;
  • Pouca variedade de inimigos;
  • Botões não estavam completamente configurados no DualShock 4.
A Hat in Time — PC /PS4/XBO — Nota: 8.5
Versão utilizada para a análise: PC
Obs.: As versões para PS4 e XBO serão lançadas ainda em 2017
Vinicius Veloso é jornalista e obcecado por games (não necessariamente nessa ordem). Seu vício começou com uma primeira dose de Super Mario World e, desde então, não consegue mais ficar muito tempo sem se aventurar em um bom jogo. Está no Facebook ou Twitter.

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