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Análise: Yooka-Laylee (Multi) é pura nostalgia dos jogos de plataforma 3D dos anos 1990

O game dos desenvolvedores de Banjo-Kazooie e Donkey Kong Country é repleto de puzzles, desafios e bom-humor.

Quando a Playtonic Games abriu a sua campanha de financiamento coletivo, com a proposta de criar um sucessor espiritual para Banjo-Kazooie, não foi surpresa terem sido tão bem-sucedidos. Afinal, tratava-se do retorno — ainda que “espiritual” — de uma das grandes franquias esquecidas no passado e com os mesmos desenvolvedores por trás do game original, lá no final da década de 1990, quando os títulos de plataforma 3D apareceram em peso no mercado. Yooka-Laylee chega com a tarefa de agradar aos jogadores veteranos e angariar novos fãs para o gênero.

Saem o urso e a pássaro, entram o camaleão e a morcego

No lugar de Banjo e Kazooie, temos os dois novos protagonistas que dão nome ao jogo: o camaleão Yooka e a morcego Laylee. Ela é uma verdadeira troll, adora sarcasmo e não perde a oportunidade de debochar de algum dos NPCs durante os diálogos, além de ser fã de trocadilhos maldosos; já ele, é completamente o oposto, sendo comedido e tranquilo, criando um bom balanceamento entre ambos, evitando que o bom-humor das brincadeiras de Laylee fique exagerado.


A dupla deve acabar com os planos do malvado e excêntrico Capital B que, com uma engenhoca do seu ajudante, o Dr. Quack, pretende absorver todos os livros do mundo e lucrar com o seu monopólio. Dentre os livros sugados pela máquina, estava um que fora descoberto pelos heróis e era mágico. Felizmente, algumas páginas (Pagies) se soltaram do livro e será necessário coletá-las para então enfrentar o vilão capitalista com cara de abelha.
Capital B vem de abelha em inglês (bee), que tem a mesma pronúncia da letra B.
O enredo não é muito elaborado, mas já deixa claro o tipo de humor presente no jogo, que ainda conta com uma infinidade de trocadilhos e brincadeiras com as palavras. Isso pode ser um problema para quem não domina a língua inglesa, já que apenas com o básico pode ser complicado entender as piadas, e não houve qualquer localização do jogo para o nosso idioma.

As falas dos personagens, como antigamente, são balbuciadas, o que também dá um tom cômico às conversas. A proposta, por sinal, de ser nostálgico e bem-humorado é vista por todo o jogo. Desde os pequenos detalhes, como o simpático disquete que aparece quando o progresso do jogo está sendo salvo, até às ótimas músicas criadas por Grant Kirkhope, David Wise e Steve Burke, que remetem ao estilo Banjo-Kazooie e parecem ter saído diretamente do Nintendo 64. Elas ditam o clima da jogatina a cada nova área, direcionando o seu estado de alerta, conforme estão mais alegres, tensas, calmas ou aceleradas.

Uma enorme quantidade de colecionáveis

Yooka-Laylee tem a premissa básica de explorar o cenário e coletar itens. Os principais são as Pagies, necessárias para desbloquear os cinco livros mágicos, que representam os mundos do jogo. Essas páginas não estão por aí dando sopa e precisam ser encontradas e conquistadas, seja através da resolução de algum puzzle, seja vencendo um desafio. Há também as Quills, as penas que são a moeda do game, servindo para adquirir novas habilidades, necessárias tanto para avançar na jogatina, quanto para estar apto a resolver certos desafios. Há ainda cinco ghostwriters por mundo para capturar, cada um através de um método diferente, Play Coins, que servem para jogar nos fliperamas do animado dinossauro Rextro Sixtyfourus, e Mollycools, que o Dr. Puzz utiliza para transformar a dupla em uma forma completamente diferente, como uma planta, por exemplo, que pode pulverizar com um tipo de adubo.
Rextro Sixtyfourus é uma mistura de nomes: "tyrannosaurus rex," "retro" e "sixty-four". Referências ao design 64-bit do personagem e ao fato de ele ser um Tiranossauro Rex, bem como ao primeiro console em que Banjo-Kazooie apareceu, o Nintendo 64.
Os heróis encontram com diversos outros personagens durante o jogo, alguns dão missões, outros, habilidades e power-ups. O mais importante e recorrente deles é o Trowzer, uma cobra de bermuda que ensina habilidades necessárias para a dupla em troca de um certo número de Quills. Como ele é meio trambiqueiro, acaba sendo a vítima preferida das piadas de Laylee. A geladeira Vendi oferece tônicos de upgrades que podem ser usados um por vez, como aumentar o número de vidas ou o tempo de rolamento, desbloqueáveis ao realizar determinados objetivos, como deixar 10 inimigos tontos. Dentre aqueles que oferecem missões, talvez o que mais anime os nostálgicos seja o carrinho de mina Kartos, que oferece desafios nos mesmos moldes que ocorriam em Donkey Kong Country, com visão lateral, vespas, trilhos quebrados e tudo mais.

Kartos, Kratos, God of War, God of Ore... trocadilhos...
Há muito para ser feito e na ordem que o jogador bem entender, pois cada um dos mundos têm suas características próprias e são completamente abertos, ou seja, não há uma rota a ser seguida. A liberdade é tanta que não é necessário terminar um mundo primeiro para depois partir para o próximo, bastando desbloquear o tomo seguinte para poder transitar livremente entre eles. Com isso, também há muito backtracking no título, pois alguns puzzles só são resolvidos com habilidades encontradas mais para frente. O jogador ainda tem a opção de expandir os mundos uma vez, aumentando a quantidade de locais acessíveis, ao custo de um certo número de Pagies para cada livro.


Além de explorar o jogo por horas, ainda há seis jogos de fliperama do Rextro Sextyfourus disponíveis já na tela inicial, sem a necessidade de desbloqueá-los. São minigames para até quatro jogadores, estilo Mario Party, como corridas da kart e de obstáculos. Jogá-los sozinho não agrada tanto, mas com alguns amigos já são um pouco mais divertidos.


Saindo do controle

Controlar a dupla de heróis no que se refere aos seus comandos básicos, como pular, andar e planar, é bastante tranquilo e natural. Mas há alguns movimentos que não trazem a mesma comodidade. O ataque giratório tem um certo atraso, por exemplo, com o qual você acaba se acostumando, mas o problema maior é a imprecisão do Reptile Roll, habilidade que permite a Yooka rolar para atingir maiores velocidades e, principalmente, subir rampas escorregadias, que são muitas no jogo. Uma simples tarefa acaba sendo um grande desafio. Coletar uma Quill na beira de uma rampa, é pedir para cair e percorrer um enorme caminho até o ponto que estava.

Outro ataque muito utilizado e impreciso chama-se Slurp Shot, que permite a Yooka atirar os frutos que ele consome. Acertar um alvo, ainda que próximo, é uma frustrante perda de tempo na base da tentativa e erro, já que o período que os frutos absorvidos duram é muito curto. Há uma opção de ficar em primeira pessoa e ganhar a precisão necessária, mas isso impede Yooka de se mover. Como os alvos nunca estão próximos dos frutos, acabamos entrando em uma verdadeira gincana de absorvê-los, correr ao ponto ideal, entrar em primeira pessoa, atirar dois ou três tiros antes de o poder terminar e repetir o processo.
Reptile Roll: útil, mas de difícil controle.
A câmera do jogo também é um problema em diversos momentos da jogatina. Ela é automática, mas dá uma certa liberdade para o jogador movimentá-la para uma posição que lhe pareça mais favorável. Mas isso vira um verdadeiro cabo de guerra durante a partida inteira, já que em um momento você puxa a câmera para o lado desejado, mas em seguida, a depender da movimentação, ela vai para onde achar conveniente. Além disso, a câmera acaba mal posicionada diversas vezes por si mesma, principalmente quando o personagem está em áreas menos abertas.

Apesar de problemas com a câmera do jogo e alguns comandos imprecisos, o pessoal da Playtonic Studios cumpriu o prometido na sua campanha no Kickstarter e trouxe um verdadeiro sucessor espiritual para Banjo-Kazooie. Yooka-Laylee é repleto de exploração, puzzles e desafios interessantes, sempre moldados com muita nostalgia e bom-humor, e deve agradar tanto aos jogadores veteranos quanto aos novatos.

Prós

  • Enorme quantidade de conteúdo;
  • Personagens carismáticos e bem-humorados;
  • Diversas referências nostálgicas;
  • Puzzles e desafios variados.

Contras

  • Alguns comandos não são precisos;
  • A câmera é problemática em diversos momentos.
Yooka-Laylee — PS4/XBO/PC — Nota: 8.0

Plataforma utilizada para análise: XBO.
Alberto Canen é formado em Direito pela UFRN. Joga videogame desde os tempos do Atari e sempre acompanha as novidades na indústria de jogos. Está no Facebook e no Twitter.

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