Fim do Steam Greenlight: De quem é a culpa?

No meio de uma enxurrada de falhas, é difícil apontar um único responsável sobre o fim de um dos mais promissores serviços do Steam.




O fim do Steam Greenlight, plataforma do Steam em que usuários escolhem parte de novos jogos a serem lançados na loja, é uma notícia não tão nova; mas que vem sendo menos discutida do que eu gostaria em meios que não focam unicamente no desenvolvimento independente. Essa notícia vem recebendo reações mistas, principalmente considerando que a alternativa apresentada, nomeada Steam Direct, propõe-se como mais cara e inacessível aos desenvolvedores. Apesar de parecer uma péssima notícia em primeiro momento, após se tomar conhecimento do que acontece no Steam Greenlight, é difícil não ver seu fim como um mal necessário.


Não só a ideia, mas como o sentimento de necessidade de escrever esse texto veio inicialmente ao ler essa notícia. Resumindo para quem não quiser ler tudo ou sequer clicar no link, um desenvolvedor brasileiro independente de jogos insultou por meio de seu perfil no Steam um jogador que teria feito uma análise negativa de seu jogo. Em posteriores esclarecimentos, o desenvolvedor em questão disse que havia sido vítima de uma invasão de perfil por parte de sua ex-mulher, que seria a responsável pelos insultos. Curioso como sou, decidi dar uma olhada um pouco mais a fundo na página do jogo para entender melhor tudo o que estava acontecendo, e então que entrei um pouco mais fundo no “lado negro” de alguns jogos do Steam Greenlight.
"Que deselegante"
Na própria sessão de reviews do jogo era possível ler comentários positivos de críticos, seguidos por várias notas “10/10” e links para as próprias “análises”. A primeira se referia a uma análise em vídeo do Jim Sterling e a citação atribuída a ele é: “Mario 64 style game with great adventure”; o que ele realmente diz, mas apenas porque está lendo isso do próprio trailer do jogo, enquanto a própria descrição do jogo em seu canal é, traduzida para o português: “Este jogo referencia várias inspirações, mas não parece aprender de nenhuma delas”, passando longe de uma análise positiva. Enquanto na segunda menção todos os contras apresentados sobre o jogo são retirados, o que infelizmente não é uma prática incomum em qualquer mídia; a terceira é ainda mais esdrúxula, tratando-se sequer de uma análise, e sim uma speedrun do jogo. Lembrando que todas as "análises" vinham seguidas de uma nota falsa, atribuída a autores que não mencionam tal nota em nenhum momento. Atualmente as notas falsas foram retiradas da página do jogo, mas as citações como a de Jim Sterling ainda estão na página, e para mim foi assustador saber que, como crítico, eu posso fazer uma análise de um jogo para posteriormente ter minhas palavras, mesmo que vindas apenas de uma leitura, tiradas de contexto junto com uma nota que não atribuí. 
Favor não dizer que eu dei nota 10
Minha intenção com esse texto não é causar uma “caça às bruxas” com este ou aquele desenvolvedor; principalmente pelo fato de que essa é apenas a ponta do iceberg. O Steam Greenlight vem sendo infestado de jogos não apenas com descrições enganosas, como jogos que claramente não são produtos finalizados, ou com claras infrações de direitos autorais, seja com conteúdo que não pertence ao autor do jogo, como até mesmo jogos inteiros submetidos no sistema por alguém que não é o autor original, o que é completamente assustador, pois não estamos falando de coisas como jogos decepcionantes, mas estamos falando inicialmente de produtos não acabados, ou com práticas que são no mínimo questionáveis em termos morais e legais.

O primeiro responsável por tudo isso é óbvio: os desenvolvedores. Eu gosto de acreditar que isso não se aplica a profissionais sérios do ramo; mas claramente as pessoas que fazem essa submissões tem algum tipo de ambição; talvez a de conseguir ter um sucesso inicial para “deslanchar”; mas é difícil acreditar que muitos desses não ajam de má fé, principalmente notando a falta de qualquer apreço envolvido em suas próprias criações. No entanto, minha primeira reação; não só a ler a notícia que me levou a escrever esse texto, como ao ver a página do jogo e ao pesquisar mais a fundo o que acontece no Steam Greenlight foi me perguntar como o próprio Steam pode deixar isso acontecer.

Não há moderação no serviço do Greenlight e isso é terrível. Qualquer pessoa pode submeter qualquer coisa, desde que se inscreva e pague a taxa necessária, que seria a esperança de poder afastar os “trolls” do serviço e que claramente não funcionou. O Steam é facilmente o mais popular dos serviços de compra de jogos para computador e é muito desanimador ver sua falta de preocupação com um serviço que é diretamente responsável pelo que vai estar em sua loja. Como já tinha dito, não é uma questão de ter jogos para todos os gostos, mas de ter em sua própria loja práticas que entram em claros problemas legais e que prejudicam a confiabilidade não só da loja, mas da plataforma e da mídia como um todo.
Padrão de qualidade
Porém, há um responsável a mais, que é próprio consumidor; e é essa parte da culpa que em parte me enfurece e em parte me entristece. A falta de controle por parte do Steam sobre o Greenlight deveria servir como um incentivo para a participação consciente do público, em escolher aquilo que se gostaria de ver na loja, assim como os jogos que despertam seu interesse pessoal. Enquanto vemos muito disso, no entanto, há uma grande parcela do público que parece encarar todo o sistema como uma grande piada, votando em jogos que apresentam os problemas anteriormente citados por nenhuma razão aparente e parece não ver que isso é um tiro no próprio pé.
Lembra quando diziam que Bad Rats era a pior coisa no Steam? Bons tempos...
Essa necessidade de fazer piada já foi um problema no Steam nas análises do jogador, que foi parcialmente resolvido com a adição da categoria de “Análises engraçadas”, mas o problema do Greenlight é uma escala muito maior. A falta de seriedade dos jogadores acabou por causar o fim de um serviço que era a porta de entrada mais fácil para desenvolvedores iniciantes, sem grandes times ou orçamentos. Gosto de imaginar que a maior parte da comunidade se compromete a fazer do Steam Greenlight o serviço que ele pretendia ser, tanto que títulos fantásticos já foram lançados por ele, como Her Story, Hyper Light Drifter, Papers Please ou Chroma Squad, que é de fato um título digno de orgulho nacional; e é por isso que é tão mais triste ver esse serviço indo embora pela necessidade de alguns usuários de fazer uma piada.

Eu sou um grande entusiasta dos jogos independentes. Acredito que jogos de grande orçamento muitas vezes não podem se dar ao luxo de correr os riscos que esses jogos se propõem e que cada vez mais, esses títulos fazem parte daquele pequeno “hall” de jogos que empurram a mídia para um novo nível, e é completamente entristecedor para mim ver a distribuição desses jogos ser dificultada pela falta de seriedade e comprometimento dos seus próprios desenvolvedores, distribuidores e principalmente do próprio jogador. Para um público que insiste tanto que os jogos deveriam ser levados mais a sério, está na hora de perceber que muitas vezes nós que não os tratamos com o respeito merecido.

Revisão: Ana Krishna Peixoto
Juni Chaves é formando em Sistemas e Mídias Digitais e atualmente redator no GameBlast e também no Ivalice. Grande interessado em Game Design e nas áreas artísticas que envolvem os jogos, não é raro encontrá-lo falando disso no Facebook e no Alvanista.

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