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Análise: Owlboy (PC) é uma aventura 2D clássica para tempos modernos

Esse título indie se destaca com seus ótimos gráficos, universo bem construído e mecânicas interessantes.

Em uma primeira olhada, Owlboy parece um jogo vindo direto da década de 90 por conta de seu visual pixel art que remete aos grandes clássicos de SNES. Contudo, bastam alguns minutos para perceber que há muito mais do que nostalgia nesse título, principalmente no que diz respeito a suas mecânicas. O jogo chega ao PC após passar nove anos em desenvolvimento e oferece uma aventura cativante e divertida.

Aventura em um mundo inusitado

A primeira característica que me encantou em Owlboy foi sua ambientação. A aventura se passa em um continente com ilhas flutuantes com localidades bem curiosas e belas. Este mundo apresenta contraste de eras: ruínas antigas estão espalhadas pela jornada, mas há também a presença de tecnologia na forma de máquinas, veículos e outros dispositivos modernos. Corujas, aranhas e outras criaturas antropomórficas adicionam um toque de fantasia. A combinação de tudo isso é bem harmoniosa, resultando em um mundo convidativo e interessante.


Nesse universo, corujas são considerados seres sábios e importantes que ajudam a cuidar das vilas e cidades com seus valiosos conselhos. Acompanhamos Otus, um garoto-coruja mudo que vive na vila de Vellie como aprendiz. Sua vida pacata muda depois que o local é atacado por Piratas, o que o força a partir em uma aventura pelo mundo. A trama é simples, porém carrega uma forte mensagem sobre amizade, confiança e responsabilidade.

Particularmente gostei muito do andamento da história, principalmente por conta das reviravoltas e dos ótimos personagens. Otus, em especial, é um personagem muito interessante pelo fato de ser mudo e, mesmo assim, consegue ser carismático e comunicativo (principalmente por meio da linguagem corporal). É curioso (e também algo bem único) o fato de que Otus não ganha novos poderes no decorrer da aventura, como em outros jogos. No lugar disso, ele faz novos amigos que o ajudam como podem — seja atirando em inimigos, seja sendo a sua voz quando necessário. É uma abordagem incomum e ao mesmo tempo agradável, gostei demais dessa quebra de paradigmas.

Pixel art impressionante

Os gráficos complementam a ambientação de Owlboy. O jogo utiliza visual pixel art que a desenvolvedora chama de “hi-bit”: um estilo que remete aos títulos das eras 16 e 32 bits, mas que apresenta refinamentos que só podem ser alcançados com as tecnologias modernas. Por conta desses avanços tecnológicos, os cenários são imensos e os sprites são bem detalhados, contando com animações fluidas e elaboradas. A sensação que eu tive é de estar jogando algo vindo direto do SNES, só que bem mais refinado.


A todo momento fiquei deslumbrado com as várias localidades do jogo, principalmente por conta do esmero na construção visual desses locais. Há também grande variedade temática, como cavernas com lava, vilas na neve e imensas cachoeiras, cada um mais belo que o outro. Fiquei especialmente impressionado com o trabalho feito em cima dos personagens e NPCs: todos eles são bem carismáticos e conseguem transmitir várias emoções mesmo com a resolução relativamente baixa de seus sprites.

A sensação de aventura é reforçada pela excelente trilha sonora. As composições utilizam instrumentos reais e são animadas e memoráveis. Todas elas combinam perfeitamente com as localidades e situações que se passam no jogo.

Plataforma 2D não tradicional

Não é só na parte técnica que Owlboy é excepcional: suas mecânicas de jogo também são ótimas e trazem ainda mais identidade ao título.

É bem familiar jogar Owlboy. Em sua essência, ele é uma aventura de plataforma 2D como várias outras. O principal diferencial está nas mecânicas de jogo: Otus pode voar livremente pelos cenários. A agilidade de seus movimentos, combinada com a liberdade de voar para praticamente qualquer lugar, deixa tudo bem divertido. Por conta disso, sempre quis explorar todos os cantos dos cenários em busca de segredos.


O garoto-coruja pode carregar objetos e pessoas, o que disponibiliza ainda mais opções de ações. Na maior parte do tempo, você conta com a ajuda de algum dos parceiros fixos, como o soldado Geddy (que tem a disposição uma pistola para atacar inimigos e ativar certos dispositivos) ou o misterioso Alphonse (que conta com uma escopeta de fogo capaz de destruir plantas e outros obstáculos). É possível alternar livremente entre eles a qualquer momento.

Já os objetos costumam ser utilizados na resolução de puzzles. Há coisas básicas como bombas e pedras pesadas (para ativar botões), com uso bem óbvio. Particularmente gostei mais das situações e puzzles inusitados, como um ponto em que é necessário arrastar uma nuvem, evitando correntes de ar que a dissolvem, e fazendo chover em lugares específicos.

Gostei também do combate. A essência dele é simples e na maior parte das vezes basta simplesmente atirar, contudo há várias situações que forçam outras estratégias. Um dos inimigos mais básicos, por exemplo, tem uma variação que possui uma máscara que reflete projéteis. Para derrotá-lo nessas situações, primeiro é necessário remover a proteção com um ataque giratório de Otus. Quando estão sozinhos não é grande problema, mas acontece que na maioria das vezes há vários inimigos diferentes atacando, em combinação com armadilhas do cenário, o que exige destreza e atenção.

A liberdade que vem do voo

Voar é principal meio de locomoção em Owlboy, logo eu pensei que a estrutura de jogo seguisse o estilo metroidvania ou até mesmo uma espécie de mundo aberto. Mas, curiosamente, o jogo é bem linear: para avançar na história, é necessário cumprir objetivos específicos.

Acredito que foi uma escolha acertada optar por essa estrutura. Por não precisar se preocupar com a coesão exigida em um grande mapa interligado, a desenvolvedora se esforçou em trabalhar cuidadosamente cada área do jogo. Os calabouços e alguns outros lugares funcionam como pequenas fases autocontidas, cada qual com temáticas e mecânicas diferentes. A experiência pode ser resumida em uma mistura constante de ação, exploração, plataforma e puzzles.


O resultado é uma aventura repleta de situações variadas e bem pensadas. Em um momento, por exemplo, Otus e seus amigos têm que se infiltrar em um grande barco voador sem serem vistos, abusando da furtividade para prosseguir. Já em outra situação, o grupo explora uma caverna escura e labiríntica que exige navegação cuidadosa. Em uma terceira ocasião, Otus não consegue voar direito, o que resulta em sessões de plataforma bem clássicas. As lutas contra os chefes seguem a mesma regra e cada uma é bem criativa, exigindo estratégias distintas para vencer.

Owlboy não é um jogo particularmente difícil, mas tem seus picos de dificuldade. Otus não é muito resistente, logo bastam alguns poucos golpes para morrer — e ainda por cima, o personagem é lançado facilmente pelos cenários. Há alguns poucos momentos que a dificuldade é justamente descobrir como resolver alguns puzzles, pois a solução é um pouco obtusa. Por sorte, basta insistir um pouco para prosseguir.

A estrutura básica é linear, contudo é possível revisitar as áreas em busca de segredos. Particularmente gostei muito de vasculhar todos os cantos em busca de objetos especiais e precisei me esforçar, pois muitos deles estão bem escondidos e indicados por dicas sutis nos cenários. A principal ressalva é que fora da trama principal não há muito o que ver: o conteúdo opcional é bem reduzido e as recompensas pela exploração podem decepcionar um pouco por conta de sua simplicidade.

Uma aventura estonteante

Owlboy é uma incrível combinação de conceitos clássicos e modernos. O belíssimo gráfico em pixel art e as características básicas de plataforma 2D remetem aos títulos da era 16 bits. Contudo o andamento da aventura e as mecânicas únicas fazem com que a experiência seja bem contemporânea. Além disso, o título tem ótima ambientação, bela direção de arte, uma boa variedade de situações e um mundo bem construído que dá vontade de explorar. Sendo assim, Owlboy é imperdível para aqueles que apreciam boas aventuras 2D.

Prós

  • Mecânicas de jogo únicas e divertidas;
  • Ótimo visual e ambientação;
  • Bela trilha sonora;
  • Mundo interessante e convidativo;
  • Trama e personagens cativantes.

Contras

  • Conteúdo opcional pode não ser muito significativo.
Owlboy — PC — Nota: 9.0
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura e Motoi Sakuraba, é apreciador de boardgames, game music, fotografia, livros e animes. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos.

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