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Steins;Gate (Multi) é uma obra-prima entre os jogos do gênero

O clássico da Nitroplus resgata antigos elementos como a viagem no tempo.


Quando pensamos em histórias clássicas envolvendo viagens no tempo, não há como não lembrar de Primer, uma das obras mais complexas envolvendo o tema já muito conhecido pelo cinema. Infelizmente, hoje o mercado se encontra saturado de produtos com essa temática e a ideia de viagem no tempo é utilizada frequentemente como Deus Ex Machina, ou seja, como um recurso para solucionar problemas de uma maneira mirabolante e improvável.

Em Primer, Aaron e Abe são dois jovens engenheiros que realizam experiências científicas em uma garagem. O projeto mais recente em que estão trabalhando envolve um dispositivo que pode reduzir o peso de um objeto em seu interior ao anular a força da gravidade. A experiência, no entanto, faz com que eles acidentalmente descubram uma maneira de viajar no tempo. Assim, eles acabam ganhando o poder de fazer tudo o que quiserem.
Por sorte, Steins;Gate (Multi) foge desse recurso da maneira como é comumente usado na mídia popular e é fortemente influenciado por Primer. Em ambas as obras, a viagem no tempo ocorre a partir de uma extensão fictícia da física contemporânea real e é descoberta de forma totalmente acidental. A partir daí, esta se torna o foco da história e não meramente um artifício complementar.

Para quem ainda não teve contato com nada relacionado ao título, Steins;Gate conta a história de Rintaro Okabe (ou Hououin Kyouma, como ele prefere ser chamado), um jovem cientista maluco que desenvolve vários experimentos em seu apartamento ao lado de sua amiga de infância, Mayuri Shiina e do superhacker, Itaru Hashida. Dentre suas principais invenções está o Mobile Microwave, um micro-ondas que pode ser controlado à distância através de um celular. Os problemas de Okabe começam quando, durante uma palestra na Rádio Kaikan, ele encontra o corpo de Kurisu Makise, a garota gênio, todo ensanguentado jogado em uma sala. As coisas se complicam ainda mais quando, algum tempo depois, o cientista maluco reencontra a garota agindo como se nada tivesse acontecido.
A série contou no início com um jogo visual novel, mas, posteriormente, obteve adaptações para mangá, anime, web rádio e CDs Drama.

A décima segunda teoria 

Toda essa transmidialidade não se explica apenas como um recurso comercial para vender mais, mas ela existe por se tratar de uma trama complexa e algumas vezes confusa, principalmente para quem nunca teve contato com a série. Dessa forma, foi necessário adaptá-la para outros formatos no intuito de tornar a história um pouco mais compreensível,, alcançando, assim, outros públicos além dos aficionados por ficção científica.

Para se ter uma ideia, no visual novel há um momento em que a personagem Kurisu cita as 11 teorias físicas da viagem no tempo, e elas de fato existem. No entanto, ela não se restringe a apenas citá-las, como também explica exaustivamente duas delas (a teoria do buraco de minhoca e rotação de um cilindro ou teoria da cordas cósmicas) e logo depois as refuta.

Em outras, o jogo atrai universitários, acadêmicos da área e fãs de ficção, enquanto pode acabar afastando os jogadores comuns, principalmente aqueles que nunca tiveram contato com visual novels, dando uma impressão errada do que é o gênero. Afinal de contas, nem todos possuem uma narrativa tão intrincada como a de Steins;Gate.

A presença de personagens pitorescos, no entanto, alivia um pouco toda essa tensão. Esse é caso do pervertido Hashida, por exemplo, que só consegue realmente ficar à vontade com garotas em 2D. O próprio Okabe parece sofrer de uma constante síndrome de perseguição e esquizofrenia à primeira vista. Essas situações inusitadas contribuem com uma pequena quebra no excesso de seriedade do jogo, servindo como um excelente quebra-gelo no decorrer da história sem deixá-la monótona demais.

Pureza de Gênero 

Ao contrário dos títulos mais recentes do gênero, Steins;Gate não é um híbrido ou uma mistura de duas categorias distintas de jogos. O título é um puro e exemplar visual novel, ou seja, prepare-se para longas horas de leitura, principalmente se você estiver jogando a versão de PC, em que a dublagem em japonês é a única existente.

Em contrapartida, em todas as plataformas foi preservada a opção de som original em japonês e, com exceção dos pensamentos de Rintaro, o jogo é inteiramente dublado. Talvez os pensamentos também devessem ser dublados, inclusive com outro tom de voz, para diferenciá-los das falas do personagem propriamente dito. De qualquer forma, isso não tira o mérito deste elemento do jogo, que torna o gameplay mais dinâmico e confortável.

Tonalidades do tempo 

Sem dúvida alguma, o visual é outra proeminência no jogo. Tanto os cabelos quanto as roupas dos personagens são coloridos em estilo aquarela, destacando-se dos demais elementos. Os olhos também são bastante distintos. Eles são enormes, como na maioria dos animes e mangás, mas são predominantemente monocromáticos e a íris do olho apresenta um brilho extremamente magnífico e hipnótico, como se alguém estivesse enxergando o fundo da sua alma.

Esses elementos fazem com que Steins;Gate tenha uma estética única, distinguindo-o de outros títulos do gênero de maneira extraordinária e mostrando como a sua história se aproxima de uma verdadeira obra de arte.

Quando menos realmente é mais

Como já deve ter ficado claro, o game é composto quase que exclusivamente de narrativa, porém o jogo ainda possui algumas mecânicas.

A primeira com a qual você irá se deparar são as tips, palavras destacadas em vermelho em meio ao diálogo. Geralmente, elas se referem a lugares e conceitos conhecidos, alguns típicos da cultura japonesa, como a Miko – um espécie de sacerdotisa xintoísta –, e outros meramente fictícios, como a TOTV – uma rede de TV que exibe notícias locais e animes inspirados pela TV Tokyo –, que só existem dentro da narrativa. De qualquer maneira, o interessante é que você pode compreendê-los melhor acessando a opção Tips List, que pode te ajudar a se aprofundar mais na história e ainda pode te  ensinar algumas coisas sobre os costumes japoneses e sobre ciência.

A interatividade propriamente dita, entretanto, acontece principalmente através do celular de Okabe. Ações, que à primeira vista parecem ser triviais, como enviar mensagens, receber chamadas ou até mesmo apenas observá-lo em determinados momentos podem afetar drasticamente a trama.

Isso quer dizer que no jogo haverá várias tomadas de decisão, algumas utilizando o celular e outras simplesmente interagindo com os demais personagens. Seja como for, suas escolhas refletem diretamente no desenrolar da história, resultando em seis finais distintos. Esse recurso contribui para a rejogabilidade e faz com que você se dedique ao título por mais algumas horas após o término do mesmo. Pelo menos, até você conquistar o True End, que é considerado o melhor dos finais e, ao mesmo tempo, o mais difícil de alcançar.

Para ajudar o jogador a conquistar cada um desses finais, é permitido que você salve o seu jogo em qualquer momento da jogatina, inclusive pouco antes de uma tomada de decisão e não apenas quando algo importante da história está para acontecer, como ocorre na maioria dos jogos que contam com este recurso. Essa funcionalidade também encoraja o jogador a retornar ao título, pois, assim, ele não terá que desperdiçar o seu tempo revendo partes da história já conhecidas, o que seria frustrante.

Por fim, mas não menos importante, a versão de PC permite que, pela primeira vez, você desfrute de Steins;Gate em Full HD (1080p). Infelizmente, o jogo apresenta alguns problemas quando rodado em Full Screen, obrigando o jogador a reiniciar o seu computador após cada sessão de jogatina. Então, é recomendado que você só jogue em modo janela. Pode parecer bobagem, mas isso atrapalha a imersão do jogo, pois possibilita que outros softwares do PC, como antivírus e facebook, se manifestem durantes as partidas.

El Psy Congroo

Steins;Gate é simplesmente um dos melhores títulos do gênero já desenvolvido. Ele possui um enredo incrível, personagens profundos e carismáticos, que criam momentos realmente emocionantes. Sua narrativa, todavia, é bastante complexa, o que pode assustar aqueles que nunca tiveram contato com este tipo jogo.

Prós 

  • Trama complexa embasada em teorias físicas reais;
  • Estética única e distinta com elementos no estilo aquarela;
  •  Alta rejogabilidade.      

Contras 

  • Problemas para funcionar em Full Screen.
Steins;Gate — PC/PS4/PS3/PS Vita/PSP/X360/iOS/Android— Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Érika Honda
Manoel Siqueira Silva é formado em Análise de Sistema e Filosofia pela UFSCar. Aprecia games de todos os gêneros, mas confessa ter uma queda por RPG e jogos de mundo aberto. Está sempre em busca de games de qualidade que foram subestimados ou são desconhecidos. Este ser pode ser encontrado no Twitter e no Facebook.

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