Jogamos

Análise: Mother Russia Bleeds (PC) exibe uma alternativa URSS sanguinária

Prepare-se para o massacre socialista mais sanguinário, nonsense, difícil e banalizado que você pode ter em pixels indie.


Guerra Fria, o que hoje vemos nos livros, documentários e filmes já foi realidade um dia. A indústria simpatiza com produções sobre esse período, porém ainda mais fértil inspiração vem em relação à União Soviética. Assim, cá paramos em Mother Russia Bleeds, outra produção que usa a Rússia soviética em uma realidade paralela, manchada de muito sangue, golpes de luta, gráficos pixelados, som empolgante, drogas, inimigos, monstros, governo ditador... Uma mistura e tanto que nos instiga saber no que deu.

Lutadores de todo o mundo, uni-vos!

É bom esquecer boa parte do que seu professor de História tenha dito: Mother Russia Bleeds vai passar por cima de boa coisa que você já ouviu sobre a URSS. O jogo se passa na pele de lutadores de rua que são misteriosamente capturados pelo governo, apenas para acordar semanas depois num laboratório, dopados e dependentes de uma droga chamada nekro.

A droga, vendida pela conhecida máfia russa Bratva, logo apresenta uma ligação com o governo, que financia o laboratório; em pouco tempo, então e é perceptível que boa parte da população está entregue ao seu consumo. Viciados na droga, os lutadores querem vingança por aqueles que os fizeram de cobaia, mataram seus companheiros e tornaram a população miserável. Nessa jornada, eles se deparam com Vlad, um socialista bolchevique (parte da população russa que, durante a revolução que derrubou o antigo regime, queria socialismo imediato) que arquiteta uma revolta contra o governo menchevique (parte da população que achava mais adequado desenvolver o capitalismo para depois, com a aliança da burguesia, promover o socialismo). Nisso, os lutadores se unem a Vlad para combater o inimigo em comum, mas com objetivos diferentes.


Durante o trajeto sanguinário dos lutadores, coisas sinistras acontecem em suas mentes. De tempos em tempos, uma visão toma conta do ambiente por alguns segundos: um lugar escuro, um coração e uma coisa no chão, que depois se ergue e... A ilusão some e os lutadores vomitam. Seria mais um inimigo aguardando para se rebelar?


O enredo de Mother Russia Bleeds é simples, mas não tão simples se encararmos o fato de que ele se propõe a recontar uma época tensa na História: a Guerra Fria. De fato, consegue nos proporcionar uma experiência envolvente: durante a campanha, novos acontecimentos surgem sempre com novidades, seja confrontando a Bratva, enfrentando soldados do governo, engajando-se na revolução ou mesmo entrando numa boate gay (sim). No entanto, os lutadores, como personagens principais, não são desenvolvidos: o máximo que sabemos deles é o que aparece nas telas de loading. O único que pelo menos chegou a mostrar um carisma próprio foi o Vlad; o treinador dos lutadores, por sua vez, foi até desenvolvido, só que de forma tão radical que se perde na própria transformação. Ele tem mais cenas nervoso e em desespero do que sereno e realmente demonstrando algum controle de si. Os produtores do game fizeram o que quiseram com ele, e, no final, sua passagem não pareceu sensata.

Apesar de todo o contexto histórico, é difícil saber em que época o jogo se passa, pois há uma mistura de datas. O enredo dá a partida no início da década de 1980, mas tudo se bagunça. Vamos agora lembrar do que seu professor ensinou: a fase da disputa entre bolcheviques e mencheviques foi durante a Revolução Russa, evento datado lá para 1917, porém, no jogo, cerca de setenta anos depois, Vlad é chamado de bolchevique. Não dá para saber em qual época está pois não são dados muitos detalhes ou datas; não há grandes acontecimentos em 1980 na URSS, porém.


Além do mais, falar sobre socialismo pode dar espaço para erros dentro da própria produção: a idealização de heróis, que gira em torno tanto dos lutadores quanto de Vlad, é uma ideia que Lenin, líder bolchevique da Revolução Russa, não apoiava. Para ele, a criação de um herói é fruto do individualismo burguês. Tomamos de conta que quem realmente deveria aparecer foi ocultada: a população, a classe operária.

Rasteira na burguesia

O tutorial de Mother Russia Bleeds é simples, mas objetivo no que é necessário para levar ao resto do game. Os controles são intuitivos e, até mesmo divertidos; é um desafio se preocupar em arrumar um tempo de se curar enquanto toda a luta só aumenta. Para enfrentar as numerosas hordas de inimigos, o jogador conta com alguns golpes: soco, soco carregado, soco em série, soco para cima, chute, chute aéreo, rasteira, joelhada na barriga. É isso. Pode até parecer muitos, mas não é. Quando uma fila de inimigos é formada, você já sabe o que fazer, os golpes viram instintivos. São várias lutas em que o jogador começa a perceber que ele mesmo se tornou repetitivo, pois não são tantas as variações que o game dá a possibilidade.



O desafio de vencer as hordas acaba por se resumir a alguns golpes: rasteira, corre, soco em série, corre, chute aéreo, corre. Enfim, o combate não é tão dinâmico para um jogo focado em luta; no final, tudo parece ter sido questão de decorar o que se deve fazer, sem inovar. 

Caminhos da revolução (são cheios de buracos)

Mother Russia Bleeds é difícil, seguindo a linha dos indies pixelados que podem agradar visualmente, porém na prática fazem o jogador sofrer. Não morri inúmeras vezes como em Hotline Miami, mas pelo menos eu finalizei o jogo com garra, já em Mother Russia Bleeds eu me perguntei várias vezes se era possível realmente chegar ao final. Uma prova de que a história convenceu é que ela foi minha motivação para ir até onde pude na campanha.

Apesar disso, a dificuldade do jogo chega a ser irritante, desleal e ultrapassa o limite do desafio. Ao longo das fases, como tentativa de diferenciar os combates, novos inimigos são introduzidos, mas quando isso já não basta, o jogo aumenta o número deles. É comum que nos capítulos finais os lutadores sejam encurralados por DEZENAS e DEZENAS de inimigos.
Tinha inimigos antes, teve mais depois. Ah! Desafio: Ache a Natasha!


O game dá a chance ao jogador de enfrentar a campanha com ajuda de IAs ou amigos. Chamei um amigo para casa. Fomos jogar e... morte. Colocamos ajuda de um IA. Morte. Dois IA. Morte, morte, morte. Apesar de poder mudar a dificuldade o jogo dá um jeitinho de lembrar que nada pode ser tão mole. Sim, é para acreditar quando é dito que “Mother Russia Bleeds é difícil”.

Há outro problema e ele se encontra no checkpoints. Enfrentar certos desafios, seja uma horda mais dura de inimigos ou mesmo um boss, pode levar um grande esforço, pois há momentos em que o jogo não manera, coloca diversos obstáculos para serem superados em um mesmo momento. Ao morrer, o jogador pode se deparar ainda no início de tudo, tendo que levar cerca de 25 minutos para chegar no ponto onde morreu, fazendo com que toda a tortura seja reiniciada. Isso é desgastante



Ser um game difícil não torna Mother Russia Bleeds melhor; pelo contrário, atrapalha a fluidez da história, deixa mais evidente suas falhas no combate repetitivo, graças ao número pequeno de golpes e à música que não muda, e cansa o jogador, desestimulando que continue a campanha (até porque a gente quer jogar, não tentar jogar).

Vermelho comunista, vermelho sangue

Em meia hora de jogo já dá para ver como Mother Russia Bleeds é sanguinário. Não é difícil que o cenário fique apinhados de corpos e sangue por todo o lado. A ambientação ajuda a tornar mais marcante os traços de barbárie, uma vez que toda a sua construção deixa evidente os contrastes da sociedade segregada: uns em miséria em meio ao vício, outros aproveitando o luxo burguês.



Os cenários não são interativos, o que não os impede de serem bem-feitos, e, como jogo de plataforma 2D, Mother Russia Bleeds cumpre bem esse quesito. Em algumas fases, o plano de fundo é bastante rico: seja na prisão, mostrando o comportamento dos presos; numa boate gay, com cenas de sexo oral, exibição de partes íntimas e sadomasoquismo; ou numa manifestação, tendo ótimas cenas de repressão militar. Em uma parede até mesmo coube espaço para uma referência a um outro jogo da Devolver: Not a Hero.

O coelho roxo de terno, o glorioso Bunnylord.


A trilha sonora é boa, mas é tão empolgante como de outros jogos da mesma distribuidora, como de Hotline Miami. Colocamos a música de Mother Russia Bleeds em uma área em que é importante a presença como fundo durante a jogatina, mas por se repetir tanto uma fase graças a dificuldade do game, o som às vezes acaba por ficar esquecido por sua falta de mudança. Seria mais interessante trocar a faixa de acordo com tempo, não somente de nível em nível. Por fim, concluímos que a trilha não deixa de ser consistente e sua produção merece destaque: ela se encaixa perfeitamente com a arte visual e contribui para a imersão do jogador.

Comunismo – em construção

Como a gente sabe, a revolução socialista não foi completa; na verdade, a URSS fracassou até mesmo em ser socialista (a exploração excessiva dos trabalhadores é atitude do capitalismo, não do socialismo, Sr. Stalin). Mother Russia Bleeds não é um fracasso, longe disso: o jogo dá boas horas de diversão, a jogabilidade é simples para que jogá-lo seja um ato fácil, mas na prática há um game muito difícil, desbalanceado e que quer desafiar o jogador de modo equivocado. A arte do jogo é muito boa, os cenários são ricos em detalhes, o som é envolvente, mas pode ser facilmente repetitivo. Para a história, reservamos elogios pela empreitada que é atualmente tocar no assunto “comunismo” e no modo fluido que tentou passar o enredo.


Contudo, ao se falar sobre comunismo, é preciso haver cuidados para não deixar lacunas que possam ser preenchidas com a imaginação daqueles que pretendem difamar e criticar. Vlad não teve linhas de diálogo em que falou sobre sua causa, as datas são estranhas, e deveria haver mais esclarecimento sobre o contexto histórico. Além disso, aqueles que realmente deveriam protagonizar a luta nem sequer apareceram direito: os trabalhadores.

Para Mother Russia Bleeds a revolução está por vir, mesmo sob o domínio de um governo corrupto marionete de grandes organizações, só que com uns certos ajustes o game poderia ter se saído melhor, até mesmo na história que teve um final inesperado e sem explicação coerente. Mas, espere, talvez a revolução esteja mesmo vindo: quem sabe não seja você um lutador que se aliará às forças comunistas ou até mesmo seja um Vlad? Não é somente em Mother Russia Bleeds em que há a esperança de que o comunismo está em construção.

Pros

  • História envolvente;
  • Cenários ricos em detalhes;
  • Boa trilha sonora.

Contras

  • Dificuldade excessiva;
  • Música pode se tornar repetitiva;
  • Combate restrito ao pequeno número de golpes;
  • Personagens não desenvolvidos;
  • Alguns checkpoints são muito distantes.
Mother Russia Bleeds ― PC ― Nota 7,5
Revisão: Bruno Alves
Janderson Oliveira ainda não chegou ao patamar de universitário por estar no Ensino Médio, entrou no GameBlast com o intuito de unir o que aprendeu em sala com o que andou jogando enquanto deveria estudar para Química. Tem Facebook caso queiram catalogar a espécie.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais