Game Music

A música em Sonic the Hedgehog

O porco-espinho mais famoso dos games completa 25 anos. De lá para cá, muita música o acompanhou.

Por quantas mudanças passamos em 25 anos? Frente a um quarto de século, qualquer um encara uma série de mortes de si mesmo — sempre deixando algo para trás enquanto incorpora um novo elemento em sua existência. Nossas criações, fruto da nossa interpretação da realidade, não fogem dessa premissa.




Em junho, Sonic the Hedgehog celebrou o 25o aniversário de seu lançamento no Mega Drive. De lá para cá, o porco-espinho azul passou por uma diversidade de eventos: derrotou o Dr. Robotnik inúmeras vezes, agregou aliados e até fez as pazes com um certo encanador de veste escarlate. Perante sua trajetória multifacetada, uma coisa é certa: a transmutação da música que acompanha o personagem ao longo do tempo. Pretendo, portanto, levantar alguns pontos interessantes sobre o elemento musical da franquia neste texto.

Gênese

Para compreender a incipiência da música em Sonic, voltemos a 1991, quando Sega e Nintendo travavam uma intensa disputa pelo mercado de consoles. A diferença entre os chips de som do Super Nintendo e do Mega Drive é nítida — visto que cada um utilizava padrões muito diferentes de síntese sonora. O chip incorporado ao aparelho da Sega, confeccionado pela Yamaha, produzia timbres que remetiam aos sintetizadores utilizados pelas bandas de rock progressivo dos anos 1970 — diferente do S-SMP do SNES, que utilizava samples de instrumentos digitais pré programados. Assim, cada console possuía uma identidade sonora marcante. Escute as duas versões do tema de Earthworm Jim e atente para suas discrepâncias:


Por esse aspecto técnico, o Mega Drive contava com timbres com ataques potentes e, assim, esse fato foi fundamental para a formação de uma estética musical inteira no console — Sonic, portanto, sendo um de seus representantes mais conhecidos.

Os dois primeiros games da franquia tiveram sua música composta por Masato Nakamura. O autor já contava com uma carreira bem alicerçada como baixista do grupo de pop japonês Dreams Come True. Por conta de sua formação, podemos dever a ele a marcante presença das linhas de baixo nas peças dos dois primeiros títulos da série, como no tema de Spring Yard Zone:


A influência do Dreams Come True, no entanto, é excepcionalmente clara no tema final de Sonic the Hedgehog 2, que ganhou letra na canção do grupo Sweet Sweet Sweet — contida no álbum The Shining Star, lançado apenas três dias após a chegada do game aos consoles japoneses. Escute as duas composições e preste atenção na semelhança entre suas melodias:


Em entrevista ao extinto site Sonic City, Nakamura contou que sua guia para compor as peças do primeiro game foi uma demo e a orientação da equipe de desenvolvimento, que lhe falava das paletas de cor de cada fase e de seu universo ambientado em um futuro próximo. Segundo sua fala, o compositor concebeu uma visão geral de como toda a música deveria soar no jogo: melodias cantáveis para as fases, temas dramáticos para cenas intensas e música climática para a chegada dos bosses deveriam culminar, enfim, em um tema final espirituoso:


Nakamura ainda fala que esse tipo de pensamento já era presente em RPGs, mas pouco difundido em jogos de ação. A ideia se contrapõe à composição de Koji Kondo para Super Mario World, que utilizava uma melodia recorrente com diferentes arranjos ao longo do título.

Sonic 3 e uma participação especial

Masato Nakamura não participou da elaboração de Sonic 3, o que levou a Sega a buscar novos reforços para a área musical. A composição do game ficou a encargo de vários autores e, nesse sentido, a identidade de suas peças se diversificou, embora ainda haja uma forte referência ao pop e ao funk que dominou as rádios nos anos 1980. Tomemos aqui como exemplo o tema do primeiro ato de Hydrocity Zone:

O tema do primeiro ato de Angel Island, por sua vez, faz menção a idiomatismos da música caribenha. Seu início simula o tremolo de uma marimba e suas melodias contêm momentos de forte sincopação rítmica.


No entanto, a música de Sonic 3 atrairia a atenção da mídia por um rumor antigo de que Michael Jackson teria trabalhado no game. A lenda ganhou força quando pessoas começaram a notar semelhanças entre canções do intitulado Rei do Pop e peças do game. O encerramento do jogo, por exemplo, contém uma linha percussiva que lembra Stranger in Moscow, single lançado em 1996:


O rumor, enfim, foi confirmado como verdadeiro no início deste ano. Um artigo publicado pelo Huffington Post chegou à conclusão por entrevistas de que Jackson teria visitado a sede da Sega na Califórnia devido ao game Michael Jackson’s Moonwalker. Daí surgiu o convite para o músico integrar a equipe de Sonic 3. No entanto, Michael teria se mostrado insatisfeito com a capacidade sonora do Mega Drive e, portanto, pediu para não ser creditado por suas canções para o jogo.

Ecletismo evidente

No passado, discuti por aqui a importância da música de rádio para as trilhas musicais do NES. Visto que Sonic surgiu pouco depois do período áureo do Nintendinho, essa influência continuou evidente no início dos anos 1990.

A presença do pop japonês de Masato Nakamura nos dois primeiros games é notável devido à própria característica eclética de sua banda, que — a exemplo de outros artistas de sucesso de sua época, como Stevie Wonder e Chic — incorporava elementos de outros gêneros musicais, como o funk e o jazz.

Em títulos subsequentes da franquia, essa variedade de gêneros continuaria a se fazer presente e, tal qual no início dos anos 1990, o rádio continuaria a imprimir sua marca. O Dreamcast, por exemplo, podia reproduzir faixas de áudio com qualidade em seus games. Um caso conhecido pelo fãs de Sonic é o tema de Sonic Adventure, Open Your Heart, gravado pela banda Crush 40. É uma canção de hard rock, gênero que emergiu novamente no início dos anos 2000:


Vale lembrar que Jun Senoue, guitarrista e fundador do grupo, trabalhava como compositor para a Sega desde Sonic 3. Senoue seria fundamental para outro aspecto interessante das trilhas musicais da franquia: o reaproveitamento de temas. Em Sonic Generations, título que conta com referência a diversos períodos da série, o autor foi um dos arranjadores de melodias clássicas, como o tema de Green Hill Zone, originalmente presente no primeiro game de Sonic:


Note como a fusão entre timbres eletrônicos e o naipe de metais, aliados ao peso do baixo e da bateria, dão uma roupagem mais moderna e multifacetada a uma peça tão conhecida do repertório de game music.

Essa ideia se faz presente também em temas originais, como é o caso do primeiro ato de Studiopolis Zone, cenário que estará presente em Sonic Mania, título ainda não lançado que celebra os 25 anos do porco-espinho. Novamente, uma orquestração diversa se faz presente, com os sintetizadores se intercalando com os metais e até seções de improviso do piano.


Essa estratégia musical promove uma união do conhecido ecletismo de Sonic — já presente nos primeiros games da série, que servem de inspiração a Mania — com uma estética mais recente. Isso, logicamente, também é fruto do avanço tecnológico que se teve da incipiência da franquia no Mega Drive até aqui. Resta-nos, portanto, aguardar para escutar os sons a vir no futuro da série mais famosa da Sega.

Revisão: Luigi Santana
Luiz Roveran é mestrando em música pela UNICAMP. Busca em sua produção promover a interdisciplinaridade entre os games e outras mídias, como o cinema e a literatura. É um dos fundadores do Pulo Duplo, toca com o Co-Op Players e é ostensivamente são-paulino.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais