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Análise: Ray Gigant (PS Vita/PC) é uma amálgama surpreendente

O novo jogo da Experience é uma desconstrução de clichês.


Minha relação com Ray Gigant (PS Vita/PC) já vem de longa data. Sua premissa é tentadora, o que me instigou a especular exaustivamente sobre o título, antes mesmo do game chegar ao mercado ocidental. A partir de então, tive várias oportunidades de adquiri-lo, inclusive uma com um desconto gigantesco na promoção de férias da PSN. Contudo, além do fato de ser um visual novel, este é também um dungeon crawl, o que fez com que eu hesitasse, pois jogos pertencentes a este último gênero são em sua maioria repetitivos, por se ficar mais em ação e combate do que qualquer outra coisa, o que me desanimava.


Felizmente, recentemente, o título foi lançado na Steam a um preço bastante acessível, e eu finalmente me rendi. Descobri então que jogo me reservava uma agradável surpresa, porque além de uma história sensacional, descobri que este era em boa parte composto de elementos e mecânicas provenientes de visual novels, ou seja, trata-se de um raro híbrido.

Não é apenas mais um clichê japonês

A história do jogo se passa em um futuro no qual Tóquio foi deixada em ruinas pelo ataque de misteriosas criaturas colossais conhecidas como Gigantes. A população não sabe ao certo a origem desses terríveis seres, mas a mídia especula que eles tenham vindo do espaço. O único que parece capaz de efetivamente detê-los é Ichiya Amakaze, que, através de um misterioso poder, conseguiu salvar o que sobrou da capital japonesa.

Liderado por Uzuki Nanashiro, Ichiya e mais quatro jovens também imbuídos de habilidades enigmáticas formam uma espécie de força tarefa especial, que tem como principal objetivo deter a terrível ameaça.

À primeira vista, é difícil não comparar Ray Gigant a um anime genérico, e talvez esse tenha sido um dos motivos para que ele não tenha sido bem-sucedido no mercado ocidental. Essa impressão, no entanto, não é duradoura e começa a ser evidenciada no modo como a história é contada. O jogo é dividido em capítulos e, à medida que a narrativa se desenrola, ele nos proporciona visões distintas a respeito da invasão dos gigantes através dos olhos de três protagonistas distintos: Ichiya Amakaze, Kyle Griffin e Nil Phineas. Cada um desses personagens pertence a um grupo diferente, que se rivaliza com os demais, apresentando não apenas novas versões do ocorrido, mas também soluções divergentes para o mesmo. Em outras palavras, não se trata de mais clichê, mas sim uma desconstrução de histórias de Anime envolvendo monstros gigantes atacando Tóquio e apocalipses.

Em contrapartida, como é comum em RPGs japoneses, a história demora a se desenvolver e você, só a partir do sétimo episódio, perceberá toda a potencialidade da trama, o que poderá afastar quem está habituado apenas com obras ocidentais.

Arte e Jazz

Como é bem típico de visual novel, o jogo possui uma arte estilo anime, porém com ausência de animações durante o desenvolvimento da narrativa, apenas suaves movimentos e mudanças de semblante. A arte, no entanto, é muito bem trabalhada, sem traços grossos e muito expressiva.

Outro elemento que vale a pena destacar é trilha sonora jogo, que é composta predominantemente de um vocal jazz que lembra grandes lendas deste gênero musical, o qual o mero balbuciar já gera um arrepio na espinha e um sentimento de boêmia. Em outras palavras, aquele tipo de música que você quer levar consigo em sua viagens ou passeios noturnos, combinando perfeitamente com o ambiente trevoso e desconhecido das dungeons.

Infelizmente, Ray Gigant é mais um daqueles jogos com longos e exaustivos diálogos que seriam mais prazerosos e absorvidos se o jogo fosse integralmente dublado. Porém, diferente dos visual novels mais recentes, como Zero Time Dilemma (Multi), as vozes do personagens só vêm à tona em momentos importantes da narrativa.

Um Davi e Golias

Como foi dito há pouco, parte do jogo possui elementos de dungeon crawl, porém seu sistema de combate não é tão ruim quanto eu supunha. Ele é bastante complexo e, ao mesmo tempo, dinâmico. Para ilustrar melhor explicação e deixá-la um pouco mais clara, podemos compará-lo ao da série Bravely Default.

Da mesma maneira que o famoso RPG do 3DS, possui combate por turnos que podem ser acelerados ou não de acordo com desejo do jogador. Todavia, diferentemente do título da Nintendo, cada movimento durante luta tem um custo em APs (Pontos de Ação), que são compartilhados por todos os membros do time. Além disso, caso você tenha pontos suficientes, pode repetir todos os golpes do turno anterior com um simples apertar de botão.

A única maneira destes pontos serem recuperados é sofrendo dano ou sendo capaz de exterminar os inimigos rapidamente. Quanto em menos turnos a luta for concluída, maior a recompensa em APs.

As várias opções disponibilizadas por Ray Gigant faz com que este se distinga dos demais RPGs de turno, forçando o jogador pensar estrategicamente a médio prazo. Ao mesmo tempo, a possibilidade de acelerar o ritmo da batalha e reproduzir todos os comandos pressionando uma simples tecla faz com que, mesmo que os inimigos sejam numerosos, os conflitos não se tornem cansativos.

Todavia, apesar de todas as singularidades, diferentemente de outros jogos desenvolvidos pelas Experience, como Stranger Of Sword City (multi), ele não é tão desafiador, fazendo dele uma ótima porta de entrada para aqueles que têm pouca ou nenhuma experiência com dungeon crawls, mas poderá afastar os fãs do gênero.

Uma surpresa colossal

Ray Gigant mostra que dois gêneros aparentemente incompatíveis podem resultar em um jogo surpreendente. Aliado a uma boa história, apresentada sob diversos paradigmas, e um sistema de batalha dinâmico e fluido, o título é uma ótima pedida, principalmente para os fãs de RPGs japoneses e como porta de entrada para quem nunca teve contato com o gênero.

Prós

  • Design expressivo e bem detalhado;
  • História é apresenta sob vários paradigmas;
  • Combinação incomum de dois gêneros;
  • Sistema de combate dinâmico.

Contras

  • Parcialmente dublado;
  • Narrativa demora a se desenvolver.
Ray Gigant — PS Vita/PC — Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PC 
Revisão: Vitor Tibério
Manoel Siqueira Silva é formado em Análise de Sistema e Filosofia pela UFSCar. Aprecia games de todos os gêneros, mas confessa ter uma queda por RPG e jogos de mundo aberto. Está sempre em busca de games de qualidade que foram subestimados ou são desconhecidos. Este ser pode ser encontrado no Twitter e no Facebook.

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