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Análise: Samorost 3 (PC) — maior, melhor e mais bonito

O terceiro título dessa alucinante série de adventures point-and-click é a obra-prima do estúdio Amanita Design.

Quando fui baixar Samorost 3 (PC), sem perceber acabei mandando o Steam baixar seu antecessor no lugar. Com apenas 20 MB, espantei-me com o tamanho diminuto. Quando me deu conta do erro e baixei o jogo certo, tive outro espanto, dessa vez pelo motivo contrário: o título ocuparia mais de 1 gigabyte de memória de meu disco rígido. Nenhum absurdo, mas comparativamente muito maior.


Por mais que espaço no HD não seja documento, não deixa de ser muito ilustrativo nesse caso. Os primeiros games da série foram adventures criativos que chamaram a atenção do mundo, mas eram pequenos e experimentais. 13 anos depois do primeiro lançamento, as ideias germinadas nos títulos anteriores parecem finalmente ter alcançado a maturidade. Samorost 3 é, de fato, um projeto muito maior e mais ousado que qualquer outro do Amanita Design — e tem bem mais do que os bytes para provar isso.

O jogo faz jus ao nome de seu estúdio. Amanita, para quem não conhece, é um tipo de cogumelo normalmente tóxico e alucinógeno. Samorost 3 parece ser fruto de uma viagem de alguém sob o efeito do fungo. Trata-se de uma obra, no mínimo, surreal. Assumindo o papel de um gnomo espacial, o jogador deve viajar através de vários planetoides e interagir com criaturas mecânicas e biológicas das mais bizarras possíveis. As situações peculiares que você enfrenta podem não fazer sentido à primeira vista, dando ao game uma aparência de improvisado. É como se as pirações dos desenvolvedores tivessem sido inseridas de qualquer maneira, a medida que vinham na cabeça deles, sem uma linha de raciocínio clara.

A palavra chave do parágrafo anterior é “aparência de improvisado”. Samorost não é, de forma alguma, produto de improvisação. Justamente o contrário, trata-se de um game muito bem planejado. Suas situações bizarras são colocadas de uma forma orgânica naquele universo surreal, fazendo com que elas ganhem sentido dentro da lógica particular da obra. Há um arco principal por trás de toda a aventura e suas ações não são aleatórios e inconsequentes. Apesar disso, a principal motivação do game é a pura curiosidade. Nada se compara a sensação de chegar em um novo planeta e pensar, “o que me espera agora?”

Esse desejo primal de explorar o desconhecido é elevado à enésima potência graças a peculiaridade do universo que você se encontra. Uma rápida olhada pelas imagens do game ou qualquer um de seus trailers são o suficiente para constatar que ele é diferente de qualquer outra obra de ficção. Prepare-se para jogar qualquer noção de realismo pela janela e tornar a fantasia surreal parte de seu cotidiano.

Mas a estética visual é só parte da equação. Tudo colabora para alimentar o desejo de explorar. As reações dos personagens, os problemas que você deve resolver, a história narrada magnificamente sem o uso de palavras, a trilha sonora que não sai da cabeça… Até mesmo interações mais banais, como o simples ato de clicar em algum objeto para ver o que irá acontecer, motivam a continuar explorando.

Essa exploração é feita através das mecânicas básicas dos clássicos point-and-click adventures. Samorost 3 está bem enraizado no gênero, fazendo uso exclusivo do mouse para suas interações. Muitas coisas que alguns consideram questões de game design ruim em certos jogos clássicos do gênero são usadas sem medo aqui. Um bom exemplo é o infame pixel hunting, a arte de ficar clocando em todas as coisas do cenário para descobrir o que fazer. Entretanto, parece que essas coisas foram deixadas de propósito no game e não prejudicam ele de forma alguma. Se qualquer coisa, são apenas mais uma desculpa para você explorar mais.

Mesmo quando você se sente perdido, não se sente punido. O game é extremamente prazeroso de se jogar. Ele destila os elementos básicos do gênero e entrega um produto simples e acessível. As ferramentas básicas dos point-and-click adventures são colocadas em uma aventura fantástica com ótimo ritmo. Qualquer pessoa, até mesmo uma criança que não sabe ler, poderia jogá-lo e se divertir — e todos, infantes e adultos, podem se divertir igualmente. É como se o pessoal do Amanita Design tivesse encontrado o ponto de equilíbrio perfeito: não há barreiras artificiais de dificuldade e, mesmo sendo simples e fácil, em nenhum momento o jogador sente que está sendo carregado pela mão.

Ao fim de sua jornada, você é deixado com a liberdade de explorar todos os lugares por quais já passou para tentar descobrir novas interações e segredos — e acredite, segredos são o que não faltam. A vontade é de continuar explorando aquele pequeno universo fantástico para sempre. É muito provável que, depois de terminar o game, aquele sentimento de curiosidade surreal continue lhe acompanhando por algum tempo, como se um pouquinho da amanita que os desenvolvedores tomaram tivesse passado para você.

Prós

  • Visualmente incrível;
  • Excelente trilha sonora;
  • Narrativa sem palavras muito bem executada;
  • Criativo e surreal;

Contras

  • Pode fazer você alucinar na vida real.
Samorost 3 — PC — Nota: 9,0
Lucas Pinheiro Silva é analista de sistemas web por profissão, gamer por vocação. Tem grande interesse em game e level design, o que o levou a escrever para o GameBlast. Em seu Facebook e Twitter também fala de outras coisas, como HQs, música e literatura.

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