Quantum Break é o ápice da imersão narrativa da Remedy Entertainement

A empresa conseguiu o que muitos desenvolvedores anseiam em uma ótima experiência gamer: envolver o jogador em sua narrativa.


Quando a aventura de um escritor de bestsellers de horror psicológico (ao melhor estilo Stephen King) chegou ao mundo digital, Alan Wake foi um sucesso de crítica. A mecânica de uso da luz, o suspense constante e a narrativa envolvente conquistaram jogadores. A principal inovação feita pela produtora do título, a Remedy Entertainment, foi expandir o universo do game com uma websérie que revelava mais detalhes da trama. Com seu novo título, Quantum Break, a empresa aproveita tudo que fez de Alan Wake uma experiência singular e vai além.

Mergulhando de cabeça na história

Antes de falarmos sobre como a Remedy transformou a narrativa no mundo dos games, é bom analisarmos um dos quesitos mais procurados pelos desenvolvedores há vários anos: imersão. E não estamos falando de imersão a nível de se empolgar com a trama, procurar material extra ou se afeiçoar pelos personagens. Não. Estamos nos referindo a um estágio muito mais profundo: um ponto em que o game se torna o próprio mundo do jogador; uma experiência única em que ele participa ativamente da história e cada ação gera uma consequência que muda drasticamente o desfecho.
Portal, assim como qualquer game do gênero FPS, ganha o nível de imersão certo no universo da VR.

Se um game consegue alcançar esse nível de imersão, pode ter certeza de que ele será um sucesso. E existem diversas formas para se obter essa qualidade. A mais óbvia é mexer na mecânica do game, na maneira como o jogador interage com o universo virtual. A realidade virtual utilizando equipamentos como o Oculus Rift, o Vive ou o Playstation VR é uma forma de transformar a experiência do jogador ao colocá-lo dentro do mundo do game. É um mercado em crescimento que tem muito a oferecer, mas não há garantias que usar um dispositivo na cabeça e estar dentro do game irá proporcionar a devida sensação de imersão a todos os jogadores.
Nos envolvemos e nos emocionamos com a história de Clementine em The Walking Dead. Mas quão imersiva foi essa experiência?

A segunda forma é talvez a mais poderosa, mas também a mais difícil. Criar uma narrativa perfeita não é um desafio apenas no mundo dos games, mas também em relação a filmes e livros. No entanto, é nos games que o elemento da narrativa encontra seu mais forte aliado para criar a experiência imersiva completa: a interatividade. Este elemento é crucial para a construção de uma narrativa forte em que o usuário se sinta mergulhado na história como se fosse um personagem extra. Afinal, se você é capaz de mudar o desenrolar da trama, isso faz de você alguém tão importante quanto o próprio protagonista. Além disso, a interação cria uma sensação de que os elementos do game fazem parte do mundo do jogador e estão ocorrendo ao seu redor.

Um jogo de luz e sombra

Desde o sucesso de Alan Wake era sabido que a Remedy Entertainment sabia muito bem fazer uso da narrativa em um game para conquistar o jogador. Quando tive a chance de jogá-lo, não apenas a mecânica do uso da luz me surpreendeu, como também a capacidade que a história tinha de se aproximar de uma experiência cinematográfica. E não era nada que se parecesse com o que a Telltale Games faz com seus títulos, que muitos criticam pela falta de interatividade, consequências pouco significativas e por parecerem filmes interativos (críticas com as quais concordo parcialmente, com exceção de The Walking Dead). Com Alan Wake era diferente. O ambiente, os personagens, tudo se combinava para formar uma atmosfera extremamente densa, complexa e, acima de tudo, imersiva.
A Websérie ajudou muito os jogadores a entenderem um pouco mais sobre a história complexa de Alan Wake.

O clima de suspense deixava tudo melhor. Afinal, aquele não era um game para qualquer um. Apesar dos elementos cinematográficos e da websérie que assisti com gosto para entender um pouco mais da história, a jornada noturna de Alan Wake era uma luta pela sobrevivência. A lanterna era a maior arma do herói, e o terror de ter um inimigo te espreitando das sombras e as baterias escassas criavam uma sensação crescente de angústia. Isso sem falar na trama em geral, que, durante um bom tempo, planta no jogador a dúvida de se tudo é de fato  real ou apenas um delírio saído da cabeça do escritor.

Brincando com o tempo

Enquanto todos os elementos de Alan Wake foram inovadores para sua época, Quantum Break não sofre da mesma sorte. Mas isso não é ruim. Pelo contrário, é o que torna o game tão imersivo à sua forma. Isso porque o núcleo de sua história mexe com um dos temas mais clichês do universo da ficção, mas que nem por isso deixa de ser interessante: viagem no tempo. Esse tema já foi explorado à exaustâo em livros, filmes e games. No entanto, é nos games que o assunto tem mais chance de crescer. Afinal, existem muitas formas de criar interações para manipular o tempo e construir situações únicas.
A mecânica de controle do tempo é refinada em Quantum Break, além de atuações excelentes que mergulham o jogador no game.

E Quantum Break surpreende na mecânica de manipulação temporal. As habilidades especiais do protagonista Jack Joyce possuem o mesmo nível de refinamento que Alan Wake possuía com sua arma e lanterna. No momento em que o jogador torna-se capaz de controlar o tempo, as ações são de uma naturalidade impressionante e nada parece “mecânico”, desde congelar inimigos em bolhas temporais até rastrear eventos passados através de fragmentos do tempo. A Remedy consegue explorar um tema clichê da forma interativa mais interessante possível, mas ainda vai mais longe, pois não sacrifica a narrativa ao fazê-lo.
Intercalar o gameplay com uma série live-action interativa cria uma experiência completa.

Além do aspecto cinematográfico que marcou Alan Wake, Quantum Break é acompanhado por um elenco fantástico de atores que realmente convencem o jogador com seus personagens. As atuações se mostram excepcionais principalmente durante os segmentos dos episódios digitais, em que a direção da série fica por conta do jogador. Aliás, dividir o game em segmentos intercalados por episódios interativos foi uma ótima escolha para não correr o risco de tornar o game cansativo.

Tudo ao seu tempo…

Com uma mecânica refinada e uma narrativa destinada a criar uma sensação de profunda imersão, a Remedy Entertainment conseguiu criar a experiência definitiva de nossa geração em termos de história com Quantum Break. O tema de viagem no tempo cai como uma luva para desenvolver uma aventura em que a interação vai muito além de controlar o tempo, mas como a história irá se desenrolar. O mais impressionante de tudo: você precisa apenas de um Xbox One ou um PC para poder mergulhar nessa experiência única. Em uma época de realidade virtual invadindo o mundo dos games, poder contar apenas com os equipamentos básicos para participar de uma aventura tão instigante é algo que se merece elogiar.
Muito mais que apenas um game.


Revisão: Bruno Alves
Luís Antônio Costa é graudado em Ciência da Computação pela UFRGS. Apaixonado por games desde que ganhou seu primeiro Master System e conheceu Sonic, também é amante da ciência e um devorador de livros. Além do GameBlast, também faz alguns textos para o Medium e pode ser encontrado no Facebook e Twitter.

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