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Análise: O polêmico Hero & Daughter+ (PC) é muito mais do que rostinhos bonitos

Uma mistura bizarra de fanservice, RPG, Tinder, Visual Novel, roguelilke e design de interiores.


Koichi Nakamura, o criador da série Dragon Quest, foi quem entregou o prêmio de melhor jogo para Hero & Daughter+, na 4ª edição do NicoNico Indie Game Festival em 2014, ano de lançamento do jogo. O festival é um concurso de jogos independentes bem conhecido lá pela Terra do Sol Nascente, e é organizado por um site parecido com o YouTube, só que  nipônico. Feito em cima da versão VX Ace, de 2012, o jogo apareceu no ocidente agora em 18 de fevereiro de 2016.

Hero & Daughter+ (16+) leva o crédito por ser o primeiro jogo japonês de RPG Maker a ter seu texto traduzido integralmente para o Steam, uma prática que, se continuada, certamente só enriquecerá as opções de jogos para os jogadores ocidentais. O motivo certamente salta aos olhos: quase 40 garotas colegiais gatinhas em roupas sexys, completamente devotas ao herói protagonista, para que o jogador monte sua equipe na luta contra o mal. Tudo isso inserido em um sistema de batalhas ortodoxo, em turnos, mas com profissões e habilidades incomuns para cada menina, como doceira e psicóloga.



Como entretenimento (e para os amantes de visual novels), existe muito texto envolvido simplesmente sobre xavecar elas e criar laços emocionais, conhecer suas motivações e seu passado. Diferentemente de Persona 3 e 4 (PS2/PS Vita), em que esses laços realmente influenciam nas batalhas e podem até acabar em namoro, aqui o objetivo é conseguir convidá-las para a casa do herói, decorada pelo jogador. No fim, você pode levar ela para as águas termais, só que vai ter que suar a camisa, afinal, seu herói fica sempre no nível um.

Me diga qual o teu nível que eu te direi quem és

Ralph era um héroi tão forte que derrubaria todas as árvores do Parque Ibirapuera, fácil, fácil. Ele já derrotou o Dark Lord 184 vezes, mas o maldito sempre dá um jeito de renascer. Da 185ª vez que o rei convoca-o para mais uma jornada atrás da cabeça do inimigo, ele recusa por estar cansado de toda essa repetição. O rei fica ofendido e chama o boticário para preparar uma poção para derrubar o topete de Ralph, além do seu nível. Ao terminar de beber o frasco, de nível 99 o herói passa para o nível um, sem possibilidade de upar. O nível mudou, mas a ordem do rei não, agora ele deve salvar o reino, fraco pra burro. Como ele poderia sair dessa?

Depois de tomar umas chineladas de uns Slimes, nosso herói renasce num templo, que na realidade é um pub, envergonhadíssimo. O pub é administrado por um necromante tarado que Ralph apelida de “Haremancer” (harem+necromancer). Ele é o equivalente daquele tio constrangedor que pergunta nos churrascos em família como vão as namoradas. Ele claramente usaria um boné da John Deer e uma camisa desabotoada no peito, levemente acima de uma barriga acumulada depois de anos de trabalho duro no balcão de algum bar decrépito.
Pobre Ralph


O velho invoca as gatinhas na esperança de um sexo casual e já sai mandando cantadas frenéticas, mas tudo o que ele acumula são foras. O que as moças realmente querem é ajudar o famoso herói Ralph na sua jornada para salvar o reino, então é só conversar um pouco que elas entram na equipe.

É aqui que reside a grande sacada de Hero & Daughter+. O jogo entende a demanda por relacionamentos com garotas com comportamentos submissos e antiquados, estimula uma tensão sexual e mete trajes provocantes no pacote. Mas ao mesmo tempo, usa esses mesmos personagens marginais e estereotipados para salvar o próprio herói, passando uma mensagem feminista com piadas ótimas e autorreferenciais por toda a parte. A própria abertura do jogo, como se fosse uma continuação (de 183 continuações) é hilária.

Quebrando a banca. E as costas

Jogo dentro do jogo, a gente vê por aqui
O começo de Hero & Daughter+ lembra de cara Weapon Shop de Omasse (3DS), um jogo de craftar armas que serão usadas… em outro jogo, o fictício Night of Legend II, retratado dentro do próprio Weapon Shop. Não é à toa que as piadas metalinguísticas estão cada vez mais acessíveis e disponíveis nos roteiros, tanto que têm várias no filme do Deadpool, por exemplo. Então, temos aqui humor de primeira, e pescaria do público errado para a didática certa de empoderamento das mulheres. Parece que o jogo virou, não é mesmo? O que era para ser um hino ao machismo acaba sendo uma demonstração da importância das mulheres e da sua capacidade de executar as mesmas tarefas que os homens.

E tem mais, os calabouços são gerados aleatoriamente, com eventos mais aleatórios ainda, como a senhora que oferece uma relaxante sessão de acupuntura que pode aumentar seu HP. Isso é muitíssimo útil tendo em vista a proibição de pegar nível. No entanto, se ela erra o ponto onde coloca a agulha auricular, você perde uma quantidade de vida e ainda fica com ela no vermelho. Existe uma menina que joga jokenpô contigo e, se você ganha, arrecada uma grana. Se perde, tem que desembolsar 10.000 moedas de ouro.


Mas nem todos os eventos são baseados na sorte. Comerciantes, aventureiros, voluntários de orfanatos e outros personagens carismáticos aparecem o tempo todo nos cinco andares dos calabouços. Inclusive garotas que lhe desafiam para uma batalha e que só podem entrar na sua equipe se você vencê-las desse modo.

Também existe uma guilda no centro da cidade que lhe premia se você derrotar monstros mais desafiadores que estão espalhados pelos andares dos calabouços, porém essas batalhas são opcionais. São para você testar seus limites mesmo, porque eles só lutam se você aceitar o confronto. O legal é que tem uma descrição com o nível recomendado para as garotas enfrentarem o monstro, então não precisa se arriscar à toa. Em determinado ponto você também pode testar a Challenge Tower, com 9.999 andares forrados de monstros e com nível de dificuldade crescente, o que aumenta a longevidade do título, cuja campanha principal tem duração de 10 a 15 horas.

É uma espada no seu bolso ou você está feliz em me ver?

Você começa a sua jornada com Lara, mas daqui para frente as próximas garotas invocadas são decididas na sorte. Depois, você pode escolher à gosto até três delas por vez para te acompanhar nas batalhas. Tem opção pra caramba: garota mosquito, fisiculturista, psicóloga, ciclope, fantasma e muito mais. Cada uma com habilidades exclusivas para você testar diversas combinações. Só as pedras de invocação são escassas no começo, então a menos que você encontre um ambulante que tenha elas perdido em algum calabouço, vai ter que se acostumar com o que vier no começo.
O único pernilongo que você vai deixar te morder
O que você tem que cuidar durante as batalhas é que a barra de habilidade esgota fácil em algumas personagens que têm golpes com um custo mais alto para atacar, mas normalmente são golpes situacionais. A Lara tem a vantagem de ter um golpe que recupera essa barra, mas para as demais, a recuperação acontece turno por turno, contanto que ação escolhida não seja uma habilidade, e sim ataque comum, magia, defesa ou item.
Jesuis
O sistema de batalha não tem muito mistério, pois o que dá o sabor ao jogo é a variedade de combinações que você pode experimentar, mesmo 40 garotas não sendo um número assim tão alto à primeira vista. Podiam só ter aumentado o número de garotas que usam magias além de habilidades. Só uma ou outra, como as feiticeiras, obviamente, as usam. Existe uma loja onde você pode ensinar feitiços sem restrições de classe, então teoricamente todas podem curar, queimar ou eletrocutar, até mesmo Ralph. Provavelmente, se eles tornassem as magias particulares para cada classe e criassem mais magias, tão criativas quanto as habilidades e as garotas, o jogo ficaria ainda mais rico e abrangente.


“A sua força não vem do seu nível, mas de suas ações”

Essa frase pungente por incrível que pareça saiu da boca do Haremancer. Não é só porque Ralph está no nível um e conhece apenas uma habilidade que ele tem que ser um peso morto no time. Usando magias ou itens ele já se torna útil, e depois, voltando de cada calabouço, você pode ir ao restaurante e pedir um prato para incrementar seus status, então você tem o sentimento de progresso de um jeito ou de outro.



Só não vale ficar indo e voltando de calabouços fáceis porque em determinado momento a sua cidade começa a ser invadida ao final de cada ida ao calabouço. Então se as garotas que ficaram no pub de Haremancer não estiverem afiadas em defesa pessoal, a cidade vai estar condenada, daí é fim de jogo. Uma forma de evitar perder a sua cidade para os larápios é que apesar de não upar, Ralph acumula experiência como qualquer outro membro, daí o jogador distribui ela como preferir entre as garotas. Assim, elas sobem de nível e aprendem novas habilidades (que podem ser de dano, dano em área, buff, debuff, suporte, cura etc...) ganham mais força e podem ter uma chance nos combates contra eles. É interessante deixar as garotas equilibradas em um certo patamar, mesmo as que você não usa. Na hora da briga, qual garota vai defender a cidade é decidido na sorte.


Mais tarde no jogo, abre uma casa na cidade com um domador de dragão que pode receber experiência para ajudar na defesa da cidade, mas pra que você vai querer investir pontos de experiência em um réptil feioso se você certamente comprou o jogo pelas meninas em trajes sexys?

Não existe almoço grátis

É próprio da cultura japonesa presentear as pessoas que você estima como uma forma de demonstrar que se lembrou delas. Então pode ir se preparando para ir na joalheria comprar joias para essas quase 40 garotas se você quiser que hoje a festa seja lá no seu apê. Isso porque o jogo tem um NPC que funciona como o Tom Nook em Animal Crossing: New Leaf (3DS). Ele lhe dá uma casa para chamar de sua e encher com as traquitanas que você encontra nos calabouços ou cumprindo desafios. Quando se dá por conta, você tem tanta coisa legal e tão pouco espaço para a sua mobília e para seu harém que talvez esteja na hora de mudar de lar. Mas a mais barata custa 300.000 moedas de ouro, que extorsão! Pelo menos a primeira casa é de graça. Mas você aprende do pior jeito que home design não é um hobby tão barato quanto colecionar figurinhas.

Se durante a história você ver que está faltando arroz e feijão no seu time, dá para contratar uma caçadora de recompensas para lhe acompanhar, que é bem forte. Derrote-a e você pode convidá-la para fazer parte da equipe, de graça agora.

Tem outras lojas e lugares na cidade, mas ou são tradicionais em RPGs, como lojas e lugares destinados à memorabilia ou não vale a pena estragar o mistério. Os calabouços também são bem especiais e vão lhe prender por horas à caça de itens e equipamentos. Aliás, tem um cara numa cabana que configura isso para você, então você só encontra aquilo que estiver buscando, mas confesso que não usei essa opção porque tira a imprevisibilidade do jogo, que é uma das partes mais divertidas (depois das piadas). Tem uma opção de avançar o texto também caso você queira pular a parte da visual novel, mas então por que você estaria jogando isso se não fosse para simular relacionamentos com as meninas em trajes sexys?


Beleza não se põe à mesa

Faltou mesmo para ganhar nota 10 uma direção de arte melhor. Os sprites das criaturas são genéricos e praticamente estáticos e os desenhos das meninas são super-apelativos e bem mal-acabados. Diferentes da tela de abertura do jogo, sempre com uma aquarela adorável, então realmente não faz sentido dentro do jogo as artes serem assim.
Acho que estou apaixonado
Os calabouços, por causa dos gráficos, poderiam ser cansativos visualmente de se ficar perambulando se não fossem pelos eventos aleatórios. Minto, o de lava é chato porque tem pouca variedade de inimigos, então dá vontade de evitar das batalhas, já que você pode ver os ícones dos monstros se movimentando pelo cenário.

Sobre a música, ela não tem nada demais. É épica e serve para lhe inserir no universo. O destaque fica para a trilha do pub do Haremancer, que é bonitinha e grudenta, com uma vozinha cantando “lala-lalalala” num looping infinito com um violão e um pandeirinho.

Herói e… filha?!

Não é o que parece. Isso foi a primeira coisa que me chamou atenção: como um jogo que estimula encontros pode se chamar Hero & Daughter, sendo que o significado mais comum da palavra inglesa daughter é filha. Seria esse um simulador de incesto?!

Nada disso, a confusão com o título do jogo é premeditado. No japonês (Hīrō & Musume) musume é um termo que literalmente significa filha, porém é frequentemente usado fora do contexto para designar garotas em geral. Assim como o vocábulo kanojo é usado fora do contexto de “ela” para designar “namorada”. Ufa. Aliás, vou dar um spoiler: o título não deixa de fazer sentido, porque a sua filha realmente aparece no jogo, podendo ser invocada pelo Haremancer, mas não é como se você pudesse dar em cima dela, não é, doentão?
Só matchs politicamente corretos 
Ah, e o sinal de “+” no título é porque a versão ocidental recebeu mais conteúdo, como mais de dez novas garotas, e além do mais, algumas artes foram remodeladas.

Hero & Daughter+ se insere dentro da leva de anime waifu games, como a série Atelier e Hyperdimension Neptunia, tão populares no PS Vita. Porém, H & D tem uma aura bem-humorada e frequentemente faz piadas de si mesmo, dos seus personagens e até do próprio jogador. Isso o torna muito particular e cativante, deixando suas poucas falhas em segundo plano. Em tempos em que empoderamento da mulher é uma coisa muitíssimo debatida, é ótimo que os jogos se voltem para essas questões culturais. Que incorporem ao seu texto a representação de gêneros e de relações afetivas, engrossando o debate e o levando até outras mídias, assim tudo parece mais fácil e menos estranho, não é mesmo? Bem, nem tanto.

Prós

  • Sistema inovador de simulador de encontros, RPG, Visual Novel, roguelilke e design de interiores no RPG Maker;
  • Várias garotas sexys prontas para lutar até a morte por você, seu princeso;
  • Quebra de paradigmas machistas de uma forma didática e inserida na narrativa;
  • Engraçadíssimo, com várias piadas autorreferenciais e sobre os próprios RPGs;
  • Eventos e cenários gerados aleatoriamente, além de vários acontecimentos baseados na sorte, tornam a experiência ainda mais divertida e surpreendente;
  • Várias habilidades, com descrições coerentes com as classes das garotas e efeitos sortidos;
  • Caçadas de recompensas e desafios hardcores dão longevidade ao título.

Contras

  • Visual ultrapassado;
  • Artes das garotas mal-acabadas;
  • Repetitividade dos inimigos em certos calabouços;
  • Uso das magias podia ter se espelhado nas habilidades.

Hero & Daughter+ – PC – 8,0
Revisão: Luigi Santana
Capa: Peterson Barros
Rafael Buffon é formado em Jornalismo pela UPF e redator no GameBlast. Além de videogames portáteis curte literatura, jazz e é apaixonado pela banda Velvet Underground.

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