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Análise: The Flame in the Flood (PC/XBO) é sobrevivência rio abaixo

Não morrer é uma tarefa complicada nesse interessante título indie.

Em The Flame in the Flood, título indie para PC e Xbox One, sobreviver é o maior objetivo. Assumindo o papel de uma garota solitária, exploramos áreas selvagens repletas de perigos e enfrentamos também um rio repleto de corredeiras traiçoeiras. Assim como outros jogos do gênero, as primeiras partidas são bem difíceis e frustrantes, mas depois de morrer algumas vezes a aventura fica mais divertida.

O mundo depois do caos

Scout, a protagonista da aventura, se encontra em uma situação complicada. Após algum tipo de desastre, boa parte do mundo foi alagado — somente alguns poucos pontos altos se salvaram. Por sorte, a garota encontra um cachorro chamado Aesop que trás consigo um rádio que transmite uma mensagem enigmática: algo sobre encontrar a salvação em um lugar distante. Sendo assim, Scout decide tentar encontrar esse local seguro e para isso enfrenta o rio criado pelo cataclisma em cima de uma jangada.


O mundo está destruído, mas isso não significa um cenário desolador, pelo contrário: The Flame in the Flood tem ótima direção de arte. A garota explora uma espécie de interior dos Estados Unidos repleto de natureza selvagem, com indícios aqui e ali das consequências do desastre, como restos de viadutos, carros abandonados e ruínas de construções. Os gráficos não são muito elaborados, mas têm charme com os objetos e personagens estilizados. A trilha sonora é mínima, mas conta com a participação eventual de ótimas composições cantadas que lembram o folk norte americano.

As mecânicas de The Flame in the Flood são todas construídas em cima dessa premissa de sobrevivência. O jogo tem dois momentos distintos: exploração e navegação pelo rio. Scout pode explorar várias áreas em busca de suprimentos e outros itens, a fim de não morrer de fome ou de frio. Para ir de um local a outro a garota controla uma jangada, em uma espécie de minigame no qual é necessário desviar de obstáculos. O ciclo básico se resume a explorar, manter Scout viva e navegar rio abaixo em busca de outra área.
Alguns poucos personagens exóticos aparecem pelo caminho
O jogo conta com dois modos. O Infinito, como o nome sugere, não acaba: o objetivo é tentar sobreviver o máximo de dias possível. A morte é permanente, por mais que exista a possibilidade de transferir itens para partidas futuras — basta guardá-los na bolsa de Aesop. A outra modalidade é a Campanha, que conta com checkpoints, uma leve narrativa que dá dicas do que aconteceu com o mundo e opções de dificuldade.

Se virando para sobreviver

Assim como outros jogos de sobrevivência como Don’t Starve e Ark: Survival Evolved, o foco é coletar itens para poder criar novas coisas. Com algumas taboas (uma planta que lembra palha) e mudas, Scout faz uma armadilha para capturar coelhos; já pedaços de sílex e corda geram uma ferramenta para fazer objetos mais elaborados e assim por diante. O diferencial em relação a outros títulos similares é que em The Flame in the Flood o mundo não é aberto: você sempre segue em frente, rio abaixo.


Mas não adianta ter um martelo de ferro e outras mil ferramentas se Scout está debilitada. Sendo assim, é de extrema importância ficar de olho nas necessidades da garota como fome, sede, cansaço e frio. Acontece que nesse ambiente hostil é difícil encontrar comida, logo, é necessária atenção para não morrer. Para piorar, qualquer deslize pode deixar a garota doente: água poluída pode conter vermes, carne crua tem parasitas, mandioca pode dar intoxicação alimentar. Para evitar essas mazelas, os alimentos precisam ser preparados antes do consumo, mas nem sempre é fácil e simples de fazer isso — tente imaginar o quão difícil é encontrar um purificador de água em um mundo devastado.

Para deixar as coisas ainda mais complicadas, alguns lugares têm animais hostis. Lobos, javalis, cobras e ursos atacam impiedosamente e podem matar Scout com poucos golpes. A garota até pode sobreviver aos encontros, mas provavelmente estará ferida, o que pode levar a morte em pouco tempo — principalmente por conta da dificuldade de se encontrar suprimentos médicos. Em um primeiro momento é fácil evitar essas criaturas, mas conforme se avança na aventura torna-se mais importante caçar esses bichos — eles são ótimas fontes de carne e peles para a confecção de roupas. Não existe combate: para caçar os animais, é necessário preparar armadilhas.
Muitos tormentos trazem uma morte rápida
Depois de explorar (e saquear completamente) alguma área, é hora de seguir em frente. Para isso, Scout usa uma jangada para navegar pelo rio que, como tudo nesse jogo, está repleto de perigos (como árvores, casas, carros e outros obstáculos). O barco é bem artesanal, o que justifica os controles imprecisos, e frágil, o que torna a navegação pelas correntezas algo desafiador — poucos danos resultam em morte. Felizmente, é possível melhorar o barquinho, mas é difícil encontrar os materiais necessários. Navegar pelo rio é uma atividade tensa, pois qualquer deslize pode ser fatal.

Aprendendo com a frustração e com os erros

Confesso que, no início, não gostei muito de The Flame in the Flood. O motivo é que o jogo não te explica nada e tudo parece muito aleatório. O começo é extremamente problemático, já que você não sabe as coisas direito e qualquer erro resulta em morte. Recomeçar desde o início depois de investir horas explorando e construindo itens bons é desmotivante. Mas como qualquer outro jogo de sobrevivência e roguelike, aos poucos eu fui entendendo as mecânicas e gostando (e sobrevivendo) mais.


As mecânicas de sobrevivência são bem pensadas e interessantes, casando perfeitamente com a ótima ambientação de uma sobrevivente no meio da natureza selvagem. No começo eu simplesmente pegava tudo que aparecia pela frente, mas depois entendi que para sobreviver eu teria que ser seletivo e inteligente, o que significava coletar somente o que é importante ou que pudesse ser útil no futuro. Mesma coisa com os animais hostis: você aprende com o tempo quando é bom atacar ou fugir. Aprendi, também, que para ir longe é importante escolher com cuidado que áreas visitar — não vale a pena explorar todos os lugares. Experimentar é extremamente importante para se dar bem em The Flame in the Flood.

Um problema que eu enfrentei com frequência foi o inventário. Gerenciá-lo é irritante: os menus são bagunçados e nada inteligentes. Scout tem a disposição sua mochila, a bolsa do cachorro e o armazenamento da jangada, mas tudo tem que ser movido manualmente de um para o outro. Quer criar um item novo? Você precisa abrir o menu e procurar na aba de criação, que tem organização confusa. Quer saber se um chapéu de tricô oferece mais proteção que um boné de pele de lobo? Boa sorte, essa informação não está clara no menu. Para piorar, partes dos textos de descrição de certos itens estão cortados e a ação não é pausada enquanto o menu está aberto. Até existem atalhos, mas por conta de tanta bagunça, passei boa parte das partidas navegando em menus, o que não é nada divertido.
A tela do inventário é utilizada frequentemente
The Flame in the Flood é desafiante na medida certa, mas depois que você aprende as nuances e mecânicas básicas, o jogo fica um tanto quanto fácil, até mesmo monótono. O motivo disso é que as áreas são muito parecidas (muitas delas têm disposição idêntica de objetos) e as surpresas são poucas, mesmo em pontos avançados da aventura — claro, vira e mexe acontece alguma situação extremamente problemática e você morre em poucos segundos, mas com cuidado é bem tranquilo. Também me incomodou a pouca variedade de locais para visitar: existem igrejas, mercados, acampamentos, mas a única diferença entre eles são os itens encontrados e alguns poucos elementos do cenário.

Bugs, os maiores perigos da correnteza

Fome, frio, cobras e lobos são perigos constantes em The Flame in the Flood, mas nenhum deles superam os terríveis bugs — quase um ano no programa Acesso Antecipado do Steam não foi suficiente para resolver os problemas. Durante minhas partidas, vi todo tipo de bug: áudio parando de funcionar, inimigos agindo de maneira estranha, gráficos desaparecendo e movimentações estranhas são só alguns. Esses defeitos são simples, mas enfrentei alguns mais sérios como travamentos repentinos, perda de progresso e até mesmo um bug raríssimo quase no final da campanha que impedia terminar a aventura. Os desenvolvedores estão sempre trabalhando para resolver os problemas, mas a sensação que fica é que o jogo não estava completamente pronto para o lançamento.
Cadê o rio???

Uma aventura para poucos

The Flame in the Flood é um título de exploração e sobrevivência competente. O visual e ambientação, aliados às mecânicas de jogo, conseguem transmitir bem a experiência de uma sobrevivente de catástrofe — é muito divertido tentar chegar cada vez mais longe. Infelizmente perde-se muito tempo nos menus confusos, e a pouca variedade no desenho dos locais pode deixar as coisas meio monótonas e repetitivas depois de algumas horas jogadas. Os inúmeros bugs também irritam e frustram, principalmente aqueles que atrapalham o progresso da aventura. The Flame in the Flood é perfeito para quem gosta de aventuras de sobrevivência com alto desafio, jogadores mais casuais podem acabar se frustando com a dificuldade e ausência de explicações.

Prós

  • Boa direção de arte, ambientação e música;
  • Mecânicas de sobrevivência bem pensadas;
  • Desafio alto, mas na medida certa.

Contras

  • Pouca variedade no design das localidades;
  • Menus confusos e desajeitados;
  • Bugs e travamentos frequentes.
The Flame in the Flood — PC/XBO — Nota: 7.5
Versão utilizada na análise: PC
Revisão: Gabriel Verbena
Capa: João Leal
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura e Motoi Sakuraba, é apreciador de boardgames, game music, fotografia, livros e animes. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos.

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