Jogamos

Análise: Horizon Chase (iOS) resgata o espírito de Top Gear

Jogo da desenvolvedora brasileira Aquiris traz o melhor dos jogos de corrida dos anos 1980 e 1990 com uma roupagem moderna.

Horizon Chase (iOS) possui uma pista baseada na Chapada Diamantina. Ela não se parece em nada com o local na vida real. A representação exagerada que o jogo faz do lugar resume-se a repetir seus elementos mais icônicos infinitamente, como se a Chapada fosse apenas um grande serra com casas idílicas em certas partes. Ainda assim, ao ver aqueles polígonos pontudos e texturas coloridas na tela, tive a sensação de que eu realmente estava correndo por Diamantina.

Apesar dos boatos, Diamantina não tem árvores triangulares.
Similarmente, o modo como Brasília é representada no game está longe de ser real. Na tela do iPad, a capital do país ganha esculturas modernistas feitas por Niemeyer em cada curva. “Espera, mas Brasília não é assim?”, alguns podem se perguntar, retoricamente. A cidade não é só isso, mas aí está um detalhe: apesar de o local ter muito mais coisas, a imagem mental que muitos têm do lugar resume-se à Praça dos Três poderes.

Algo parecido ocorre com Salvador, Niterói, Los Angeles e outras cidades homenageadas por Horizon Chase. Elas não são representadas com fidelidade, mas o título consegue emular perfeitamente a imagem mental temos delas, sempre capturando seus aspectos mais memoráveis.

Essa abordagem permeia o jogo do início ao fim. Assim como as pistas capturam apenas as partes mais icônicas das localidades em que se baseiam, o game em si resgata os elementos mais saudosos dos jogos de corrida dos anos 1980 e 1990.

Superando os mestres

Mas Horizon Chase não é uma mera imitação de Top Gear (SNES) ou Lotus Esprit Turbo Challenge (PC). Ele é um exemplo quintessencial e excelente de “sucessor espiritual”. Suas inspirações são claras e ele tentar se manter o mais fiel possível ao “espírito” desses clássicos, mas seu “corpo” traz inúmeras mudanças.

É preciso dar o braço a torcer: os brasileiros da Aquiris realmente trabalharam muito para que você tivesse a sensação de estar jogando um Top Gear moderno, apesar das sutis e sempre presentes diferenças. A jogabilidade consegue emular de maneira incrível a sensação de se jogar um game de corrida antigo no Super Nintendo, ainda que o título esteja rodando em um tablet. O visual possui um gigantesco ar de nostalgia, mesmo sendo um jogo 3D, composto por polígonos que fariam qualquer console de 16-bits derreter. Barry Leitch, o compositor da trilha sonora de Top Gear, da série Lotus e vários outros títulos antigos, retorna, mas agora com novas inspirações e fazendo mais experimentos. Para cada semelhança, há algum pequeno elemento que faz este jogo ser único.

Em certos aspectos, Horizon Chase é até mesmo melhor do que os clássicos jogos de corrida pixelados. Uma característica importante é a sua acessibilidade. A curva de aprendizado é suave, com as primeiras pistas possuindo um desafio na medida certa para todos os públicos. Gradualmente, a dificuldade vai aumentando. Com mais de 50 pistas, passando por oito países, a jornada tem tempo de sobra para desafiar o jogador mais e mais.

Felizmente, as pistas possuem não apenas quantidade, como também qualidade. Elas são muito bem projetadas, com um ótimo fluxo e algumas ferramentas para guiar o jogador. Durante as corridas, é possível coletar combustível, medalhas e nitros. Esses itens são estrategicamente posicionados, indicando ao jogador o melhor caminho a se seguir e ensinando até os mais inexperientes a se tornarem bons corredores enquanto jogam.

Os veículos também são elevados — em quantidade e qualidade. Há um total de 18 carros, cada um com suas próprias características mecânicas e estéticas. Mesmo os carros mais parecidos entre si possuem detalhes únicos que lhes dão identidade. É possível diferenciá-los até pelo barulho do motor.
Essa daí faz um som assim: "Vruuuummmm!!!"

Não tão rápido!

Já em outros aspectos, Horizon Chase não supera suas inspirações, mas as imita perfeitamente… para o bem e para o mal. A inteligência artificial de seus oponentes, por exemplo, lembra muito a de Top Gear: ela é extremamente irritante.

A verdade é que a máquina tem uma clara desvantagem em relação ao ser humano. Até por isso o jogador sempre começa as corridas em último lugar — se ele começasse na frente, as disputas seriam triviais. Mas, em alguns momentos, a inteligência artificial parece ter a clara intenção de irritar, sempre ficando na frente e impedindo a ultrapassagem a qualquer custo. Pelo menos Horizon Chase melhor essa limitação do que suas inspirações. Algumas pistas são mais estreitas e propensas a colisões, transformando-se numa verdadeira corrida de obstáculos móvel.

Já em outros aspectos, o game decepciona, principalmente na ausência de um modo multiplayer. Claro, um modo de tela dividida seria impossível (ou, pelo menos, impraticável) num tablet, mas seria interessante algo pela internet — até porque, como dito, jogar com a máquina não é exatamente desafiador. Resta esperar que a futura versão para PS4 corrija isso.

A música também deixa um pouco a desejar, causando um sentimento misto no jogador. As trilhas sonoras são boas, mas são poucas se comparadas ao número de pistas. Sem contar que, por mais que Barry Leitch continue sendo muito talentoso, a melhor música do jogo é justamente um remix da trilha principal de Top Gear. Bem, meio difícil disputar com a magnum opus dele, não é?

Em direção ao horizonte

Apesar de todas as semelhanças e diferenças em relação aos clássicos, Horizon Chase ainda preserva a coisa mais importante de suas inspirações: o desejo primordial de sair correndo em direção ao horizonte o mais rápido possível. Nesse aspecto, ele não deixa em nada a desejar para Top Gear. É um jogo que agradará tanto as crianças que queimaram os olhos na frente de TVs de tubo nos anos 1980 e 1990 quanto os adultos que elas viraram.


Prós

  • Visual lindo;
  • Pistas muito bem feitas;
  • Muitas pistas e carros;
  • Boa trilha sonora;
  • Controles precisos;
  • Nostálgico.

Contras

  • Inteligência artificial fraca e irritante;
  • Trilha sonora limitada;
  • Sem multiplayer.
Horizon Chase - iOS - Nota: 8.0
Lucas Pinheiro Silva é analista de sistemas web por profissão, gamer por vocação. Tem grande interesse em game e level design, o que o levou a escrever para o GameBlast. Em seu Facebook e Twitter também fala de outras coisas, como HQs, música e literatura.

Comentários

Google+
Facebook


Podcast

Ver mais

No Facebook

Ver mais