Analógico

Metal Gear Solid V: The Phantom Pain (Multi) e o tema da vingança — Parte 1

Uma análise do enredo e dos temas do último jogo de Hideo Kojima.

A série Metal Gear Solid é conhecida por trazer enredos com diversos personagens, organizações, reviravoltas e revelações, tudo isso em horas de cenas e diálogos. Cada jogo da série possui, também, um tema que de certa forma guia seu enredo e as motivações de diferentes personagens. Já até fizemos uma matéria apresentando esses eixos temáticos da série aqui no GameBlast. Nesta série de dois textos, irei analisar o desenvolvimento do tema de Metal Gear Solid V: The Phantom Pain: como ele se desenrola, como guia os personagens e de que formas se encaixa no restante da série.


Atenção! Essa matéria é indicada para aqueles que finalizaram as missões de história do jogo, bem como as side-ops importantes. Ela contém spoilers dos eventos e personagens. Se você ainda não finalizou a história e tem interesse no tema, não deixe de conferir o texto quando o fizer.

Vingança, raça, guerra e a dor fantasma

“Kaz, eu já sou um demônio” (Big Boss)

Existe uma camada do tema principal de The Phantom Pain — Vengeance — que fica evidente desde o início. Durante a suposta inspeção de uma organização internacional na antiga Mother Base, Cipher e o grupo XOF conseguiram destruir tudo que Big Boss e Kaz Miller construíram até então: a visão que ambos compartilhavam do legado de The Boss e os caminhos para se alcançar isso. Snake perde um braço e permanece em coma por nove anos, Kazuhira perde dois membros e a visão. Ambos perdem a base, inúmeros companheiros, e, sobretudo, a possibilidade de resistir a Cipher, ou Major Zero.

Big Boss e, principalmente, Miller só têm em vistas reconstruir seu grupo de soldados sem fronteiras, fortalecerem-se para poder revidar, destruir a vida daqueles que destruíram a deles. É o que eles fazem por boa parte do primeiro capítulo, enquanto lidam com diferentes crises que se apresentam, por sua vez, a partir da perspectiva de vingança de outros personagens, principalmente o antagonista Skull Face.


Em seu álbum de 1974, “Diamond Dogs”, David Bowie se inspira no romance “1984”, de George Orwell, e existem referências às duas obras em The Phantom Pain. Se no disco conceitual os Diamond Dogs são um grupo buscando sexo e prazer em meio a um futuro distópico e totalitário, o livro nos mostra um futuro também totalitário, no qual o controle das pessoas e da informação é sistemático e brutal. Já os Diamond Dogs de Metal Gear Solid V são um grupo de guerreiros sem fronteira que fazem frente aos interesses dos grandes países, mas sobretudo ao controle absoluto da informação exercido por Cipher. A informação que é controlada, manipulada, e repassada convenientemente a partir da linguagem, de um idioma.

Para tentarmos entender melhor como o tema da vingança se desenvolve, vamos focalizar cada um dos personagens.

Man on Fire

“A vingança é boa para a sua saúde, mas a dor te encontrará novamente” (Oldboy, filme de 2003)

Yevgeny Borisovitch Volgin, o general antagonista de Metal Gear Solid 3: Snake Eater, aparece aqui como Demon Volgin (Volgin Demônio). O personagem possui uma personalidade extremamente sádica, podemos apontar como exemplo sua participação na Segunda Guerra, na qual executava inimigos de forma cruel por puro prazer. A perspectiva de vingança de Volgin é bem direta: seu corpo, uma “máquina” modificada bastante poderosa, é recuperado dos arredores de Tselinoyarsk, continuando a ser estudado em solo soviético, e ao entrar em contato com Tretij Rebenok (Terceira Criança) se reergue com o único intuito de se vingar de seu assassino: Big Boss.
O homem em chamas.
A escolha pelas chamas traz uma metáfora interessante para a vingança: ela consome o combustível todo e por fim se apaga, ela destrói o corpo do vingador e também daqueles que se opõem a ele. Alguém que só vive para se vingar pode se sentir sem futuro uma vez que a vingança é consumada. A única vontade de Volgin era matar Snake, e inclusive ele “acorda” tão logo Big Boss acorda do coma. Skull Face toma conhecimento do homem em chamas, e acaba utilizando o guerreiro em sua XOF, visando Big Boss.

Huey Emmerich

O pai de Otacon é um personagem bem complicado. Não dá para saber muito bem onde está sua lealdade, mas a impressão que tenho é que ela está em sua covardia, ou seja, ele se alia durante um tempo com quem for melhor se aliar para estar seguro e continuar suas pesquisas. É difícil julgar, pois Huey é um personagem distinto dos soldados que estão a sua volta, não é um gurreiro. Mas estar aliado a alguma organização não o faz ter menos ódio de seus líderes. A relação dele com Snake patina bastante, em certas horas ele jura lealdade, em outras culpa Big Boss por diversas situações.
Huey está na Mother Base, mas não faz parte dos Diamond Dogs.
Já sua relação com Skull Face fica bem clara quando ele tem a oportunidade de puxar o gatilho para matar seu antigo captor. Huey, no entanto, é o único a questionar a forma como os Diamond Dogs agem. A paranoia, a violência e a sede por vingança são aspectos que aparecem para Emmerich como uma pista de que o grupo está se tornando tão violento e opressor quanto seus antagonistas.

Old Diné “Code Talker”

O outro tema de The Phantom Pain é também o nome do segundo capítulo: raça. O velho navajo exemplifica muito bem como essa questão se interliga com o tema da vingança. Membro de um povo indígena dos Estados Unidos, Code Talker acabou sendo levado a frequentar uma escola na qual o inglês lhe era ensinado, e a língua navajo proibida, identificada como algo inferior e nojento. Depois de um tempo ele se envolveu com o exército americano e ajudou a desenvolver o código navajo que eles usavam em guerra, por ser uma língua totalmente desconhecida pelos inimigos. A dominação que vem do outro, que destrói sua língua e sua cultura, que te faz morrer ou mudar, faz com que um povo inteiro desapareça, de alguma forma. O ressentimento é inevitável nesse tipo de processo, já que violência tende a gerar violência. Ironicamente ou não, o velho Diné adora hambúrgueres.
Code Talker já viu muita coisa em seus quase 100 anos de vida.

Revolver “Shalashaska” Ocelot

A figura de Ocelot é uma das mais enigmáticas da série. Ele já teve conexão com tanta organização diferente, chegando ao cúmulo de ter sido um agente triplo, que fica difícil entender de onde ele vem e para onde está indo. Em Metal Gear Solid V, o filho da lendária The Boss e do soldado The Sorrow consegue ser leal tanto ao Snake quanto ao Major Zero, ao mesmo tempo.


Independente da maneira tranquila de falar, e de muitas vezes ser a pessoa que pede calma e clemência ao Snake, enquanto Miller distila raiva, Revolver Ocelot é o torturador do grupo. Alguém que aplica violência sobre um corpo para retirar informação a partir da fala das pessoas. Além disso tudo, é interessante a forma como Ocelot tem consciência de que continuarão a existir conflitos no futuro, de que em algum momento os filhos de Big Boss irão se enfrentar. Será que essas pessoas que só conhecem a guerra e a violência possuem como linguagem a guerra e a violência? E os genes e memes que passam adiante são carregados de ódio, vingança e violência? Desta forma, como seria uma nação global de todos os soldados?

Skull Face

“Não habitamos uma nação, habitamos uma língua. Ela é nosso país” (Emile Cioran)

Quando a unidade de operação FOX foi criada, Major Zero criou um grupo ainda mais obscuro, a XOF. Tal grupo, que existia em segredo tanto do governo americano quanto da própria FOX, realizava diversas atividades de apoio e suporte nas missões realizadas pelos agentes do grupo principal. Skull Face era o melhor agente e líder da unidade, e esteve perto de Snake em vários momentos, inclusive durante os acontecimentos de Metal Gear Solid 3.

Skull Face se tornou um dos meus personagens preferidos da série, talvez pela excelente atuação de James Horan. O antagonista de The Phantom Pain nasceu na Hungria, em uma pequena vila rural. O país esteve sobre controle dos alemães e depois dos russos, fazendo com que o jovem tivesse que descartar seu idioma húngaro em favor da língua dos ocupantes de seu país. Depois de um acidente, seu corpo ficou destruído e desfigurado, e ele passou a ser imune a dor. Eventualmente ele se tornaria um espião e assassino de primeira linha.
Uma das melhores cenas da série.
Para Skull Face, o idioma inglês seria o parasita mundial do momento. Seria uma “língua franca” que unificaria o mundo, mas de forma a destruir as outras línguas, e assim as outras nações. Essa unificação não seria aquela idealizada por The Boss (o líder da XOF também conhece e admira a lendária guerreira). O plano de usar os parasitas vocais para atacar apenas aqueles que falassem alguma palavra em inglês indica a ideia de Skull Face de que um idioma falado por diversas raças e etnias é um idioma da dominação. Ao seu modo, o espião almeja criar um mundo no qual a paz, o fim dos conflitos, também será atingido, um mundo sem língua franca.

Nesse sentido, sua vingança é contra a ideia de um idioma estrangeiro que chega e subjuga a língua local, se em sua experiência pessoal foi o alemão e o russo, de um ponto de vista global esse agora é o papel do inglês. Além disso, ele se volta contra Zero, que usa o idioma para dominar e manipular a informação. O ataque à Mother Base em 1975 foi orquestrado por Skull Face, que algum tempo depois atacou Zero e tomou controle da XOF e do grupo Cipher.


Skull Face não começou nenhuma guerra, era criança quando seu país foi invadido e ocupado. Sofreu com um bombardeio, e depois cresceu sendo treinado como assassino. Diversos acontecimentos o levam a querer vingança e cometer atrocidades. Miller e Big Boss são atacados brutalmente por Skull Face, e ao acordarem só têm um pensamento: vingança. É interessante perceber que tanto Skull Face, quanto Major Zero, e Snake, perseguem um único ideal: o legado de The Boss. Falaremos mais disso ao tratarmos da questão dos pontos de vista.

Existe um pecado original em relação à violência? Um primeiro ato que desencadeia um ciclo de vinganças? É claro que os processos que levam a grandes conflitos, guerras e dominações são muito maiores que sentimentos pessoais de vingança, mas como caminhar para a paz se todas as novas gerações nascem no ressentimento, na opressão e na violência?

Na semana que vem retomaremos falando de uma parte essencial do desenvolvimento do tema: as crianças. As conexões com o restante da série ficarão mais claras quando falarmos dos principais atores de Metal Gear Solid V: Quiet, Kazuhira Miller, Major Zero, Eli “White Mamba” e Big Boss.

Revisão: Vitor Tibério
Capa: Felipe Fabrício
Pedro Vicente é um homem sem qualidades. Para se esquecer das décadas de fracassos de sua vida real, resolveu passar parte do seu dia jogando. Iniciado nos games por Adventures e JRPGs, hoje em dia joga de tudo. Gosta muito de escrever sobre jogos, mas só dá nota 10 para games em que você pode dar Suplex em um trem.

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