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Análise: Cross of the Dutchman (PC): problemas com gameplay prejudicam boa história

Jogo baseado em herói holandês do final do século XV tem bom potencial, mas erros acabam atrapalhando o resultado final

Jogos baseados em fatos e lendas do mundo real geralmente me agradam. Seja só uma reprodução de um episódio histórico ou uma mistura entre realidade e fantasia, há muito potencial para boas obras surgirem. É seguindo essa premissa que temos Cross of the Dutchman, jogo criado pela desenvolvedora holandesa Triangle Studios, e que se baseia na história de Pier Gerlofs Donia, também chamado de Grote Pier, personagem cercado de mitos da história dos Países Baixos.


Um pouco de contexto histórico

Pier Gerlofs Donia é uma figura originada na Holanda da Idade Média. Viveu entre 1480 e 1520, na Frísia, região que fica ao norte do país. Ganhou notoriedade ao liderar rebeliões contra os Saxões e, depois, se tornar um pirata implacável, tendo uma vida toda calcada em conflitos contra outras forças da região.

A vida de Pier Donia é um misto de fatos com lendas. Dizia-se que era um homem assustadoramente grande e de uma força física sem igual, capaz de manejar com uma só mão uma espada de duas mãos. Sem falar de sua fúria no campo de batalha, embora seja dito que era um indivíduo provido de um ótimo bom-humor ao redor de amigos.

Pier não tem problemas em bater em todo mundo

Levando a história para o jogo

Cross of the Dutchman mostra os eventos antes da invasão dos Saxões, mostrando Pier ainda como um fazendeiro comum com sua família, e a transformação do personagem, liderando e organizando os camponeses da Frísia na luta contra os opressores.

Devo admitir que o contexto histórico utilizado é muito atrativo. Muitas das pessoas e locais que fazem parte da história de Pier estão presentes no título, como seu sobrinho Wijerd, e as vilas de Arum e Kimswerd. A sequência de fatos do jogo, até onde apurei, é bem fiel ao que é contado nos livros.

Embora até tenha me simpatizado pelo herói, a narrativa seja bem construída e algumas passagens do jogo sejam bem interessantes, acho que a simplicidade das mecânicas acaba tirando um pouco o brilho da epopeia de Pier.

Pier se transforma de um fazendeiro para um terrível guerreiro

Andar, andar, andar

Cross of the Dutchman é um jogo curto. Quatro horas, no máximo, são suficientes para terminá-lo. Fato esse, que por si só, não é problema nenhum. Toda a ação se passa em um mesmo cenário, dividido em 6 mapas, incluindo aí as vilas e a fazenda de Pier.

O primeiro problema mais sério é no fluxo do jogo, principalmente na primeira metade. Muitos objetivos são ir de um ponto A até um ponto B, depois até um C e ficar nessa de um lado para outro. Então, basicamente, muito tempo eu só passei andando. Andando em mapas sem inimigos, sem outros objetivos secundários. Só andando.

Concordo que o cenário é pequeno demais para um “fast-travel”, mas vejo isso como um problema de game desing. Se essas viagens realmente eram necessárias, pelo menos me desse um botão de corrida, ou algum recurso que me fizesse perder menos tempo com isso. Ou que o caminho estivesse repleto de inimigos, pelo menos eu teria algo pra fazer.

Muitas caminhadas estarão no seu caminho

Batendo de frente com o inimigo

O sistema de batalha  de CofD, ao meu ver, também peca pela simplicidade e mal uso de alguns elementos.

Pier é um sujeito bruto. Como alguem grande e forte, é de se esperar que agilidade não seja uma de suas qualidades e é o que acontece. Por outro lado, ele também não é um “tanque”, não sendo muito difícil perder quase todo o HP em poucos instantes, principalmente com arqueiros inimigos no campo.

Pier tem dois tipos de ataque, um básico e um especial. O especial, geralmente, derruba inimigos com um ataque só, jogando soldados para todos os lados. Acertar vários inimigos ao mesmo tempo é bem divertido, mas errar pode te causar muitos problemas, principalmente porque eles consomem toda a barra de estamina, que é preenchida com o tempo.

As batalhas não tem o peso do histórico do personagem
A junção desses dois fatores foi o que mais me incomodou. Não há um plano B na hora de enfrentar as hordas inimigas. Se o seu golpe especial não for efetivo, você vai receber muito dano sem ter muito como reagir. Ao longo da aventura, você ganhará uma espada e poderá aprender outras variações de movimentos, mas o conceito sempre é o mesmo.

Ainda sobre as lutas, para um jogo hack 'n'slash, elas não aparecem em quantidade suficiente. Como mencionei acima, a primeira metade do jogo é bem devagar, o que pode desanimar. Somente no arco final é que as coisas engrenam, com uma ação mais frenética.

Momento furtivo do jogo. Não é revolucionário, mas funciona bem

Bom de se ver, péssimo de se ler

No que diz respeito à parte técnica de Cross of the Dutchman, a equipe de desenvolvimento fez um belo trabalho. Os gráficos seguem uma linha puxada para o cartoon, o que deixa o estilo bonito, mesmo não sendo uma tecnologia de ponta. A arte do jogo também, de maneira geral, me agradou muito.

A trilha sonora também é muito bem feita, sendo um dos destaques do jogo. Sendo toda com arranjos orquestrais, as músicas sempre encaixam bem com o momento da aventura.

Por fim vale lembrar que o título está disponível em português do Brasil. Mas já aviso, a tradução está repleta de erros. São problemas de digitação, concordância e até no contexto de certas palavras. Por diversas vezes notei que havia apenas uma tradução literal, sem uma adaptação apropriada. Se inglês não for um problema para você, jogue em inglês.

Um exemplo dos textos estranhos da tradução

A Cruzada do Holandês

Cross of the Dutchman tem acertos e erros bem definidos. Criar um jogo baseado em um “herói” do mundo real, abordado um período histórico muito rico para a construção de narrativas foi uma bela decisão. Por outro lado, as mecânicas de batalha são muito simplórias e não há um prazer em sair batendo em tudo. E as longas caminhadas entre objetivos também não ajudam a manter um bom ritmo. Essa falta de cadência acaba manchando o que o jogo traz de bom.

Ao mesmo tempo que eu queria mais da história de Pier, eu não queria mais ter que ficar andando pelos mapas só para falar com um NPC ou entrar em batalhas que não me empolgassem. Por ser um jogo bem curto, as falhas acabam passando com mais facilidade, mas ainda assim, não dá para assumir que elas não existam.

Prós

  • Narrativa com trechos muito interessantes;
  • Embasamento em fatos reais;
  • Trilha sonora;
  • Arte simples, mas agradável;

Contras

  • Sistema de batalha simplório e com falhas;
  • Ritmo muito devagar em alguns momentos;
  • Tradução para o PT-BR cheia de erros gramaticais.

Cross of the Dutchman — PC — NOTA: 7.0


Revisão: Alberto Canen
Capa: Felipe Araújo
Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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