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Análise: Corpse of Discovery (PC): não é para todos, provavelmente nem para você

Um “walking simulator” em que a exploração é o foco principal, mas que logo acaba perdendo a graça, o sentido e até mesmo a sua paciência.



Simuladores de caminhada, uma tradução livre de walking simulator, têm como principal atrativo a exploração. Ir do ponto A para o ponto B, mas sem muita pressa. Às vezes nem é preciso ter um destino. Como presunçosamente dito pelos próprios desenvolvedores de Corpse of Discovery, esse jogo não é para todos. O texto abaixo foi publicado em sua página na Steam, e traduzido por mim:

ESTE JOGO NÃO É PARA TODOS. É um “walking simulator”, com um jetpack ocasional e obstáculos mortais. Também se torna muito estranho e introspectivo. Se tudo isso não soar como um jogo para você, então provavelmente não será.
É a primeira vez, como jornalista de games há uns sete anos, e como gamer há 25, que alguém diz que um jogo não foi feito para alguém. E depois de ler isso, e jogar cerca de três decepcionantes horas de um produto mal otimizado, cheguei à conclusão que Corpse of Discovery também não foi feito para o jogador para o qual supostamente foi feito.

Explorando o esperado

Jogos de exploração, em sua essência, tendem a satisfazer seu público com excelentes gráficos, segredos escondidos e incentivos para continuar esta jornada. Spore transmite esse sentimento, mas é essencialmente um simulador/RTS; Skyrim também é assim, mas ele é um RPG; Minecraft faz o mesmo, sendo um sandbox; e até mesmo GTA (mundo aberto com porradaria) faz com que desejemos buscar cada vez mais, nos envolvendo lentamente em uma excelente colcha de micro e macro histórias. E a maioria deles também oferecem armas, veículos e poderes mágicos.


Corpse of Discovery não lhe dá muita coisa de equipamento. E isso é bom, se feito da forma certa. Por mais equipada que seja a sua base planetária (com direito a viveiro, leguminosas, caixas enormes de suprimentos e até mesmo um laptop!), você não pode tocar em nada. Há muitos objetos interativos no jogo, mas você não os usa. Eles estão lá para serem admirados, e tenho certeza que nunca vi um explorador que não deseja tocar suas descobertas, muito menos seu próprio equipamento!

Sem a necessidade de se carregar bugigangas, por outro lado, não há a obrigação de se preocupar com a falta de um item para determinado trabalho. E de qualquer forma, não há muito o que se fazer em Corpse of Discovery. Há um gigantesco planeta inexplorado pelo homem, escondendo uma diversidade de segredos, apenas esperando para serem encontrados. Uma pena que eles não estão escondidos. Na verdade, eles todos estão marcados em seu mapa, e convenientemente marcados no visor de seu capacete.

A não defesa da tradicional família

Se a mamata de se encontrar os objetivos pode ser ignorado, dificilmente o jogador pode ignorar a lição de moral que o jogo tenta impor em sua experiência. A todo instante, e digo novamente, a todo instante, o jogo te lembra de como é chato estar longe de sua amada família, isolado num mundo hostil. Por mais que amemos nossos filhos e vidas em família, sempre gostamos de momentos de isolamento para reflexão ou apenas para relaxar.



O homem não é 100% sedentário, mas AVA, o robozinho que acompanha nosso herói, a central de comando que representa a corporação e diversos elementos do jogo insistem em dizer, em todas as oportunidades possíveis, que o que estamos fazendo é errado. E a meta-mensagem escondida aí me faz pensar que isso é uma crítica ao próprio prazer de se jogar videogame.

E não, queridos, exploração planetária ou ficar um tempo no videogame não é errado. Obviamente, ficar a vida toda, ao estilo Astronauta, explorando o espaço; ou dedicando boa parte de sua vida em jogos com pouca ou nenhuma perspectiva de ganho pessoal — ou espiritual — é horrível.

Espaço vazio

Ficar frustrado pela mensagem que um jogo lhe impõe não é o suficiente para tornar Corpse of Discovery ruim. Mas o conjunto de outros dois fatores me fizeram chegar a este veredicto: gráficos e jogabilidade.

Por mais que tentasse, não consegui otimizar o jogo em minha máquina. Com seus 5GB de tamanho, não é um jogo grande. Minha placa de vídeo e memórias são mais que o suficiente para rodar o jogo no máximo. Mas mesmo com as funções gráficas no mínimo possível e até mesmo apelando para resoluções menores (800x400!), o jogo continuava rodando mal.



Tentei de tudo, até chegar às discussões na página da Steam do jogo e vendo análises de outros portais: não fui o único a ter este problema. Os desenvolvedores tentam solucionar isso há algum tempo, mas o jogo pode não ser para você que gosta de jogar com boas taxas de frames.

Com uma engine que exige muito, mesmo das melhores máquinas, é de se esperar um show para os olhos, o que as prints e trailers do jogo nos fazem acreditar. E mais uma decepção vem aí: o jogo, por mais colorido e bonito que seja, é uma tristeza de se admirar. Não nego que há uma grande dedicação por parte da Phosphor Games para se criar lindos cenários, recheados de montanhas, campos verdes e platôs sombrios, mas a exemplo de algo lindo de se ver à distância, mas que se torna decepcionante se visto de perto, Corpse of Discovery é horrível de se explorar.

Assim como um bêbado usando uma roupa de mergulho numa loja de porcelanas, andar pelo mundo é um trabalho desastroso. Alguns lugares exigem passar por estreitas pontes naturais com certo cuidado para não se cair num abismo infinito (há muito disso), mas uma combinação ácida de design ruim com gráficos medonhos me fez cair nas profundezas dezenas de vezes, e foi numa dessas quedas que finalmente desisti de tentar continuar. O jogo não foi feito para aqueles que sofrem por plataformas mal desenvolvidas.



Corpse of Discovery está longe de ser um jogo finalizado. Há produtos em Early Access mais jogáveis que este, e muito mais estáveis. Seus gráficos mal otimizados, história linear e desinteressante, somados à péssima experiência de finalmente encontrar algo, e não ter interação alguma com sua descoberta, deixam o jogo numa duvidosa posição.

Seus R$ 27,99 e 2-3 horas necessários para se chegar ao fim serão bem mais aproveitados numa sessão de filmes sci-fi, e suspeito que ainda há a vantagem de poder viajar por planetas exóticos sem precisar se irritar com um robozinho ou se frustrar com uma descoberta inexpressiva e estática.

Prós

  • Mundos feitos com esmero (à distância).

Contras

  • Jogo graficamente mal otimizado;
  • História mal elaborada;
  • Plataformas e obstáculos feitos com pouco esmero;
  • Muitos objetos interativos, nenhum realmente utilizável;
  • Com 3 horas de gameplay, a experiência acaba. Para nunca mais ser repetida.
Corpse of Discovery — PC — Nota 3.0
Revisão: Alberto Canen
Capa: Felipe Araújo

Diego Gomez escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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