Blast from the Past

Aprenda em Transport Tycoon (PC) como se tornar um magnata do transporte

Relembre o jogo que partia de gerenciar uma cadeia de transporte para uma enorme fonte de renda e foi muito além no quesito diversão e legado.


O desenvolvedor escocês Chris Sawyer começou sua carreira no mundo dos games em 1983, trabalhando em pequenos lançamentos e conversões de jogos feitos para o Amiga para o MS-DOS. Algum tempo depois ele começou a criação de seu próprio jogo, inspirado pela ideia de expandir a jogabilidade de Sid Meier's Railroad Tycoon além da limitação dos trens. Ele também entendeu que poderia expandir o mundo a sua volta ao incluir sua experiência de trabalho com jogos de visão isométrica. A Microprose, empresa responsável pelos jogos de Sid Meier, fechou um acordo para ser publisher e em 1994 era lançado um clássico da simulação de transportes para o MS-DOS.


Bem vindo ao mundo da logística

Você iniciava seu império dos transportes em 1930, logo após ter conseguido um empréstimo no banco. Você então está livre no mapa do jogo, que lembra a representação visual do primeiro SimCity. Muitos dos prédios do design padrão do jogo são baseados em construções reais de Glasgow, então é capaz de você reconhecer alguns deles caso já tenha visitado a cidade.
A interface é muito parecida com SimCity. Estranho pois Chris não o havia jogado antes do lançamento.


O mapa apresenta logo de cara diversas cidades e indústrias, e vai depender de você para conectá-las e gerar mais dinheiro, pagando seu empréstimo e finalmente podendo criar ainda mais rotas de transporte. Você tem até 2030 para acumular o máximo de dinheiro possível. Mas apesar do tempo parar de avançar, não existe um final além de adicionar seu nome e pontuação no Hall da Fama do jogo. Era possível continuar jogando e criando novas rotas até se cansar.

A conexão mais simples e óbvia é entre cidades. Criar uma estação, porto, aeroporto ou parada rodoviária próximo de casas irá acumular passageiros que estão dispostos para ir para qualquer outra cidade. Então construa o mesmo tipo de prédio em outra cidade, compre um veículo e crie estradas ou ferrovias. Com mais alguns comandos, o veículo estará em uma rota contínua, recolhendo passageiros e transportando-os de um lado para outro. Essa é a mecânica base do jogo.
As conexões podem ser até mesmo dentro de uma mesma cidade. Só que serão menos rentáveis


Porém, não para por aí. Os veículos requerem manutenção constante, então você precisa ter um posto de reparos no caminho. Além disso, veículos novos são lançados conforme o passar do tempo, com melhores capacidades de carga, velocidade e menor chance de quebrar. Como sua renda gerada no momento da entrega é baseada na quantidade entregue e distância percorrida, vale a pena trocar por veículos mais avançados o quanto antes.

A cadeia de produção

Fora passageiros, diversas indústrias também precisam realizar entregas. Uma mina de ferro precisa que seus minérios sejam entregues a uma siderúrgica. Essa, por sua vez, cria aço a partir do ferro recebido. Uma fábrica processa esse aço em bens necessários em casas e escritórios. Você no fim alimenta uma complexa cadeia de oferta e demanda.
Essa é a cadeia de necessidades do jogo

Uma coisa interessante de se ver é que o mundo do jogo também está em constante movimento. Uma cidade que recebe e envia carga constantemente começa a crescer, e o mesmo vale para as diversas indústrias presentes no jogo. E caso alguma delas passe muito tempo sem enviar ou receber carga poderá até mesmo fechar suas portas e declarar falência. Mas antes disso acontecer, as cidades ou indústrias enviavam uma proposta com incentivo monetário para criar uma nova rota. O primeiro jogador a fechar essa rota ficava com o bônus.

Essa complexidade na economia fica mais interessante quando há interação com outros jogadores. As indústrias são neutras, enviando e recebendo bens em qualquer estação próxima. Portanto, você pode se aproveitar de que seu oponente está entregando grãos de uma fazenda para uma fábrica e enviar os bens industrializados produzidos ali para alguma cidade.
Uma enorme cadeia de transportes é complicado de montar, mas ótima quando já está operacional


Ameaças a seu redor

O jogo ficava realmente mais divertido com outros jogadores competindo pelo mercado de transportes, já que haveria disputa por passageiros, bens, contratos para criar a primeira rota e até mesmo espaço. A posição em que sua estação era construída influenciava na velocidade em que você recebia novos bens e passageiros. Mas a real briga por espaço vinha ao construir ferrovias.

Você podia construir estradas, mas essas podiam ser compartilhadas. Os espaços aéreos e marítimos também eram compartilhados. Porém, as ferrovias ocupavam obrigatoriamente um quadrado do mapa e precisavam cumprir todo o percurso de uma estação a outra. A briga começava quando outro jogador resolvia construir uma rede ao lado da sua, eventualmente lhe deixando sem saída.
Você briga bastante com seus rivais por passageiros e até mesmo espaço!


Mesmo possuindo um modelo fácil para construção de túneis e pontes, nem sempre era possível escapar de um isolamento criado por um rival. Diversas vezes você era obrigado a apagar o que já tinha construído e recomeçar do zero. Ou então caso você se irritasse de vez com algum dos rivais, era possível comprá-lo e fundir as empresas. Mas isso requeria muito tempo e dinheiro, já que você precisava comprar todas as ações de seu rival e o valor da empresa subia conforme ele construía novas rotas.

Transportando para o presente

Com o enorme sucesso apresentado pelo jogo, principalmente na Europa, houve o lançamento de uma versão Deluxe. Essa incluía um editor de mapas e diversos modelos de cenários diferentes. Assim, se você cansou de transportar as mesmas coisas, você podia partir para mapas em regiões árticas, tropicais e até mesmo em um mundo de brinquedos ou Marte. Essas novas regiões traziam outros bens para serem transportados e até mesmo um diferente modelo de economia. Por exemplo, no modelo tropical as cidades necessitavam receber água para poderem crescer, e a pontuação seguia dos anos 1950 até 2050.

Chris Sawyer planejava lançar uma sequência para o jogo no final da década de 1990, porém ele criou uma obsessão por montanhas-russas. Nada mais justo então que adaptar o modelo que já havia criado para desenvolver a franquia de sucesso Rollercoaster Tycoon. Sawyer chegou a receber cerca de US$ 30 milhões por seu trabalho em Transport e Rollecoaster Tycoon após um processo contra a Atari por briga de royalties.
A influência passada para Rollercoaster Tycoon passa do mapa até pelos ícones do menu


Após terminar o desenvolvimento do segundo jogo da franquia Rollercoaster, Sawyer quis voltar ao ramo dos transportes. Isso culminou com o lançamento de Chris Sawyer's Locomotion em 2004. Mesmo modernizando diversas funções do Transport Tycoon original, o jogo acabou não tendo a mesma recepção devido a diversos bugs e limitações em sua interface.
Mesmo com diversas novidades, muita gente ainda prefere o jogo original

Mais recentemente, Sawyer fundou um novo estúdio, 31X Ltd., readquiriu os direitos da marca Transport Tycoon e criou uma nova versão do game para dispositivos iOS e Android. Essa versão é baseada na engine gráfica de Locomotion e adaptada para se parecer mais com o jogo original e para jogabilidade mobile. Também é comemorativa dos 20 anos do lançamento do game original, já que saiu em 2014.
A nova versão melhora muitos dos erros de Locomotion e fica bem divertida


E caso isso tudo não seja um legado suficiente, entusiastas da versão original de PC criaram uma versão em código aberto baseada no jogo original, chamada de OpenTTD. Para poder se configurar como um novo jogo sem infringir regras de copyright do original, a comunidade do OpenTTD se reuniu para criar modelos de construções, trens e até mesmo músicas e sons do zero. Novas tecnologias também foram adicionadas, como monotrilhos e trens baseados em gravidade. Também existe outro projeto em código-aberto, conhecido como Simutrans. Ele inclui até mesmo transportes e prédios subterrâneos entre suas possibilidades.
O OpenTTD permite até mesmo utilizar diversos monitores e jogabilidade por rede. É como trazer o clássico para o século atual.


Transport Tycoon chegou a ser lançado para PC, MAC, Saturn e PlayStation. Posteriormente ainda recebeu as versões de iOS, Android e até mesmo dispositivos Kindle. Além dos sucessores ditos aqui, diversos outros jogos também se basearam nesse clássico, como Cosmonautica. Caso você queira relembrar ou até mesmo experimentá-lo pela primeira vez, recomendo testar o OpenTTD por ser menos trabalhoso do que rodar um jogo original de DOS. E se prepare para transformar algumas horas em pura diversão.


Revisão: Luigi Santana
Vinicius Eleno é formado em Administração de Empresas pela USP, e mestre em cultura inútil pelas experiências de vida. Desde 1993 gosta de explorar o mundo dos games em seu tempo livre. Pode ser encontrado reclamando da vida no Facebook e Twitter.

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