Discussão

O fim de uma Era? Entenda as mudanças na indústria e no perfil dos gamers

Desde o advento dos primeiros consoles, a indústria de jogos passou por altos e baixos. Gigantes surgiram e caíram, apenas aqueles que ... (por Alex Campos em 13/04/2013, via GameBlast)


Desde o advento dos primeiros consoles, a indústria de jogos passou por altos e baixos. Gigantes surgiram e caíram, apenas aqueles que conseguiram se adaptar sobreviveram às grandes mudanças no mercado de consoles e na economia global. Empresas como a Sega e a Atari são apenas alguns exemplos de companhias que abandonaram a produção de consoles, para se focar exclusivamente no desenvolvimento de jogos para outras plataformas. Nos dias de hoje, vemos um mercado caótico e perigoso como nunca se viu antes. Consoles virando computadores, celulares virando consoles... As coisas estão mudando, e os jogadores também.

Os três mosqueteiros... Ou um só?

Vivemos em uma geração esquisita. Para o pessoal mais jovem, a santa trindade Nintendo, SonyMicrosoft que se estabeleceu na 6ª geração, pode soar como o maior sinônimo da diversidade e concorrência mas, para aqueles que acompanham o mundo dos games há algumas gerações, a sensação de estagnação tornou-se incômoda.

Foi-se o tempo em que a existência de diferentes consoles se traduzia em diversidade de títulos. Nos tempos do Super Nintendo e do Mega-Drive, a guerra não era para ver quem produzia as melhores texturas, ou a melhor iluminação, mas sim quem detinha os melhores jogos. Os consoles até compartilhavam certo número de títulos multi-plataforma, mas a existência destes era apenas uma pequena parcela da grande diversidade entre ambos.

Na minha época isso era uma heresia.
Hoje, embora muitos justifiquem suas preferências em nome dos serviços e títulos exclusivos (que muitas vezes nem são tão exclusivos assim) de seus consoles, a verdade é que esses representam uma parcela ínfima dos jogos lançados a cada ano.

Neste aspecto, vale lembrar, a Nintendo sempre conseguiu segurar bem suas pontas, mesmo sem o suporte de thirdparties, emplacando títulos que realmente carregavam um peso diferenciado dos demais. Entretanto, desde o lançamento do Wii U, grande parte do que vimos foram jogos reaproveitados, que contam com versões para toda e qualquer plataforma disponível.

A crise do modelo triple A

Mais do que um sintoma de falta de criatividade, essa postura – por parte das desenvolvedoras – é reflexo de uma situação econômica desfavorável. A produção de títulos de alto nível tornou-se cara e as vendas em um único console não são suficientes para cobrir os gastos.

O desenvolvimento de jogos AAA como as séries Call of Duty, GTA e semelhantes, envolve um número absurdo de profissionais. Além de artistas, músicos, programadores e designers, as desenvolvedoras trabalham com enormes empresas publicitárias e com uma pesada cadeia de distribuição para garantir o retorno do investimento.

Você não imagina o custo desse screenshot.
O problema, no caso, é que desde o início dessa geração, os custos de produção destes títulos subiram exponencialmente. Para acompanhar a evolução das placas gráficas, os estúdios passaram a empregar muito mais artistas e investir em tecnologias mais caras. Nesse caminho, para não ficar pra trás, mesmo estúdios menores foram obrigados a adotar a política da Alta Definição, sob pena de parecerem atrasadas aos olhos do público.

Alguns dos resultados dessa postura podem ser vistos na serialização anual de títulos de renome. Após o desenvolvimento de uma tecnologia, muitas empresas adotaram a postura de reutilizar recursos a cada ano para garantir o retorno financeiro, o resultado se vê na estagnação. Investir em inovação tornou-se arriscado, a ponto que um único grande fracasso comercial pode significar o fechamento de um estúdio.

Outro ponto que devemos lembrar é a longevidade de cada geração. Se antigamente tínhamos novos consoles a cada 5 ou 6 anos, essa geração, iniciada pelo Xbox 360 em 2005, já está completando seus 8 anos, e, devido aos custos de produção, alguns consoles só recentemente começaram a retornar lucros.

Lançado em 2006, PlayStation 3 só veio a dar lucros de venda em 2010.
Para o consumidor, a longa duração de uma geração pode, em um primeiro momento, parecer benéfica. A troca de consoles é sempre custosa e a ideia de ter um console que vá te acompanhar por um bom tempo pode soar como um bom custo-benefício. Na prática, entretanto, esse fenômeno é perigoso para a indústria, ainda mais agora, que os consoles concorrem com dispositivos portáteis que duplicam sua capacidade anualmente.

Novos consoles para novos gamers

O último grande aspecto que deve puxar a mudança no perfil da indústria, é o novo perfil de jogadores. Para o público hardcore, citar aqueles que jogam em seus celulares ou navegadores como gamers pode soar ultrajante, entretanto, do ponto de vista comercial, cada vez mais crianças e jovens (o grosso do público alvo) estão abdicando de consoles em prol de celulares e gadgets de alta capacidade.

A primeira vista, falar que títulos como Temple Run e Zenonia concorrem com grandes produções como Halo ou Metroid pode soar um absurdo, entretanto, se tratando de produtos de entretenimento, ambos concorrem pelo tempo livre do jogador, e, se jogos casuais não te fazem acreditar que celulares representam perigo para os consoles, cada vez mais títulos como Infinity Blade e Nova 3 mostram que o poder de fogo destes dispositivos não deve ser subestimado.

Sim, roda no celular.
Somando a isso, temos os jogos de PC. O sistema que foi quase um cemitério para desenvolvedoras durante o começo do século XXI, ganhou um novo fôlego com a expansão do mercado digital. Serviços como o Steam, G2P e semelhantes eliminaram custos de produção e distribuição das produtoras, garantindo uma plataforma rentável e com muito mais usuários que qualquer console.

Uma nova era

Depois de tantas considerações negativas sobre o mercado de consoles, pode parecer que rumamos em direção às trevas. Entretanto, devemos lembrar que mudanças não são necessariamente ruins. Se, por um lado, devamos ver algumas grandes produtoras e fabricantes desaparecendo, por outro lado, estamos acompanhando diretamente o surgimento de uma verdadeira nova geração, não limitada pelos paradigmas adotados pela indústria tradicional ao longo dos últimos 30 anos.

O surgimento de novas produtoras, mais compactas, mais dinâmicas e sem medo de inovar rende quase que mensalmente ótimos frutos. De jogos simples como BraidMinecraft a obras complexas como o recém anunciado Battle Worlds: Kronos. É interessante ver que não é preciso sacrificar a criatividade em nome das vendas.

Battle Worlds: Kronos
Por fim, uma coisa é certa: estamos vivendo um ponto de virada. Muitas reclamações serão feitas, muitas empresas culparão o consumidor, enquanto outras tantas trabalharão extensivamente para bloquear a venda de jogos usados e limitar a liberdade dos jogadores com sistemas de cash. No final, entretanto, somente aquelas que verdadeiramente se adaptarem aos novos tempos conseguirão sair vivas.

Do ponto de vista sentimental, poderemos até sentir falta de alguns nomes que fizeram nossa infância; do ponto de vista racional, contudo, estaremos garantindo um novo espaço para jogos e experiências que não dariam certo no modelo atual. Está nascendo uma nova indústria de jogos. E você, o que acha das mudanças e do futuro?

Revisão: Leonardo Nazareth
Capa: Douglas Fernandes
Alex Campos é graduando em Produção Sonora pela UFPR. Trabalha como músico freelancer e participa ativamente no cenário de jogos indie nacionais. Estuda por diversão sobre a indústria de games e está no Facebook.

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