Discussão

Discussão: Jogos são ou não são cultura?

Após a polêmica afirmação da ministra da cultura Marta Suplicy sobre jogos não serem cultura , coloquei-me para pensar o motivo pelo qua... (por Fellipe Camarossi em 24/03/2013, via GameBlast)

Após a polêmica afirmação da ministra da cultura Marta Suplicy sobre jogos não serem cultura, coloquei-me para pensar o motivo pelo qual a política tem esta visão sobre os videogames. Convenhamos que os políticos não sejam as pessoas mais confiáveis desse nosso Brasil, mas será que esta opinião foi pessoal e infundada? Será que os jogos são mesmo uma cultura em nosso país? O que aqui pode ser considerado cultura e o que não é? Bem, acho que a melhor maneira de descobrir isso é discutindo.

O que é cultura?

Antes de iniciar esta discussão é interessante analisarmos o conceito de cultura, para que não haja desavenças e distorções no entendimento. Segundo Edward B. Tylor, antropólogo britânico considerado o “pai do conceito moderno de cultura”, esta nada mais é do que “todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e capacidades adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Tá, e o que isso quer dizer?

Isso significa que qualquer tipo de expressão artística que seja reflexo da sociedade humana como um todo é cultura. Isso inclui nossos livros, revistas, filmes, peças de teatro, músicas e por que não, os jogos? Afinal, eles também são feitos tendo como reflexo a sociedade humana, não? Com isto, fica fácil deduzir que jogos são cultura. Entretanto, com esta mesma justificativa, podemos dizer que músicas com letras degradantes de qualquer estilo musical sejam igualmente cultura. Então não é tão simples assim fazer essa definição.

Mesmo assim, comprar um CD que tenha essas mesmas músicas pejorativas entrariam mais como cultura na visão política do que os nossos queridos videogames. Mas como podemos definir o que eles veem como cultura e o que não veem? Bom, caso vocês leitores estejam desligados das notícias das últimas semanas, hora de apresentar a vocês o Vale-Cultura.

A chave para um povo culto

Só me pergunto porque não pensaram nisso antes.
A presidenta Dilma Roussef sancionou no final do ano passado a lei nº 5.798 que entrará em vigor no próximo semestre. Esta lei garante ao trabalhador que ganhe até cinco salários mínimos por mês e esteja devidamente credenciado no projeto um valor mensal de R$ 50,00 para consumo com fins culturais. O “Vale-Cultura” funciona como um cartão de débito, carregado mensalmente junto do salário do funcionário e poderá ser utilizado em todos os estabelecimentos que estiverem em convênio.

A gama de produtos abrangida pelo Vale é colossal, podendo o cidadão gastar o valor com ingressos para o cinema ou teatro, concertos musicais, CDs, livros, DVDs e até mesmo revistas. Entretanto, voltamos para a afirmação inicial desta discussão e afirmamos agora que jogos não são considerados cultura perante o Ministério da Cultura, portanto não são beneficiados pelo sistema do Vale. E foi aí que a guerra começou.

A empresa de games Square Enix enviou uma carta à ministra Suplicy contendo um artbook com os rascunhos e artes oficiais da série Final Fantasy e o CD Distant Worlds, com as faixas mais famosas da série já citada, performada pela Orquestra Filarmônica Real de Estocolmo. Esta foi a maneira da produtora mostrar à ministra a cultura dos games, com as mais belas artes ocultas na ação e dinâmica dos jogos criados para puro entretenimento.

Com isto (e a carta da ACIGAMES sobre a importância dos jogos no nosso mercado e sociedade) fica claro que os jogos tem sim a sua fatia na cultura em nossa sociedade e mostram-se cada vez mais merecedores de estarem inclusos no projeto da lei nº 5.798, mas se vocês leram bem o parágrafo anterior, devem ter dado atenção para uma palavra-chave que muda completamente a situação: “oculta”.

Cultura para quem é culto 

Para quem quer, encontra nos
jogos mais imersividade
que um livro.
O verdadeiro problema dos jogos é que a sua cultura está nos detalhes. As músicas de fundo, embora sejam essenciais para a ambientação e algumas das principais causadoras da imersividade, raramente são realmente apreciadas por sua arte. As histórias construídas com cuidado, narrativas que mostram moral, dualidade e evolução de caráter social, emocional e psicológico de diversos tipos de personagem, nem sempre recebem toda a atenção que deveriam dos jogadores. E isso que estou falando não é só do público geral, mas do público “gamer” também.

Infelizmente, é um fato que, embora muitos encham o peito para falar que os jogos são cultura, poucos realmente apreciam a cultura que estão nos jogos. Eu sou um daqueles jogadores “chatos” que dão muito mais valor para uma boa narrativa do que para uma jogabilidade divertida. O jogo pode ser todo travado no gameplay, mas se a história for boa, o traço, a música, eu vou encará-lo do começo ao fim, pois eu acredito que é aí que está a verdadeira cultura dos jogos, é ali que está a arte.

Um exemplo polêmico? Podem me odiar, mas nunca fui fã da série God of War, porque acredito que a narrativa seja forçada e fraca. As batalhas são incríveis, a jogabilidade é excelente e os gráficos são arrasadores, mas eu não consigo apreciar os jogos pela sua história. Entendam que não estou criticando quem gosta e tampouco dizendo que este jogo não tem cultura (pois ele tem), é apenas para exemplificar quando um jogador está realmente interessado na parte cultural.

Afinal, ainda aprende-se um pouco de mitologia grega... Né?

Voltando para o Vale-Cultura, é possível notar que o alvo do projeto são as famílias de renda até cinco salários mínimos. Sem querer soar preconceituoso, mas levando em conta que este mesmo público alvo é o que, segundo os próprios dados do ministério da cultura, são os menores consumidores de livros, cinema, museu e teatro, o que se pode esperar quando vão atrás de jogos? Que estão buscando diversão e entretenimento ou a cultura – que é o proposto pelo projeto?

E os impostos não
ajudam muito.
E nós ainda nem levamos em conta ainda a questão do preço. Um jogo físico hoje em dia custa, em média, R$ 150,00 nas grandes lojas, independente da plataforma. A quantia disponibilizada para as famílias beneficiadas é de R$ 50,00 mensais para consumo de cultura. Conseguem ver o primeiro empecilho? A família inteira teria de ficar sem utilizar o valor por três meses para que o filho ou filha compre apenas um título para o seu console. São três meses que poderiam ter ido ao cinema, comprado algum livro ou mesmo uma revista que fosse, pois ao menos exercitariam a leitura.

Supondo que ainda assim o fizessem, acumulassem por três meses e o jovem enfim compra o seu jogo. Sem hipocrisia, quero que respondam mentalmente se acham que o rapaz vai atrás do jogo pela cultura ou pela diversão. Creio eu que seja unânime a resposta, assim como quero crer que é isso que passou pela mente da ministra Suplicy ao utilizar-se daquelas palavras para falar dos jogos.

Um jogo pode ter beleza, música, jogabilidade e ainda transmitir ideias,
perspectivas e aprendizado.

Em suma, a cultura dos jogos só se aplica para pessoas cultas. Se elas sabem apreciar arte de verdade, elas vão naturalmente ir atrás de jogos pela sua arte. A música, a história, cada detalhe as cativa de modo individual e se tornam tão transmissoras de conhecimento como um livro ou um documentário. Porém, se a pessoa não entrou ali já buscando esta fonte cultural, ela está fadada a contentar-se com o espancamento de botões e as horas de gameplay.

Mas afinal, é ou não é cultura? 

No fim das contas, isso é mais uma questão de ponto de vista. Seguindo o conceito de Edward Tylor, os jogos se classificam sim como cultura, e após vermos todos esses exemplos sobre a transmissão de conhecimentos que eles podem oferecer fica evidente que é mais do que certo que nossos queridos videogames tem sim o seu espaço no mercado artístico e cultural.

Entretanto, devo admitir que eu mesmo não tomaria uma decisão diferente da ministra da cultura Marta Suplicy, talvez apenas o fizesse numa abordagem diferente. Afinal de contas, o objetivo do projeto é introduzir as famílias de renda baixa e média para a cultura que estão deixando de apreciar por motivos diversos, como a própria renda ou a falta de oportunidade. É uma iniciativa boa do governo de tentar iluminar um pouco as mentes da população, embora deixar uma gama tão grande de produtos possa acabar gerando um novo “bolsa família que paga cabeleireiro”.

É triste, mas a própria população não parece estar madura o suficiente para saber lidar com esses benefícios que o governo oferece. A própria ministra afirmou que a lista de produtos a serem beneficiados não está absoluta ainda e novos itens podem ser adicionados (talvez prevendo o caos que sua afirmação iria gerar), então é possível que nós vejamos os jogos nessa lista daqui a algum tempo. Infelizmente, seria uma pena vê-los entrar apenas por esta reclamação do público “gamer” e ter de assistir um valor que deveria ser direcionado à cultura afundar em mais um entretenimento disfarçado de conteúdo. É o famoso jeitinho brasileiro.

Apreciar a cultura nos jogos? Por enquanto, só no exterior.
Apenas no caso de eu ter soado confuso, vou concluir o meu papel nesta discussão resumindo a minha opinião: sim, jogos são cultura. Não, eles não deveriam ser inclusos no projeto Vale-Cultura proposto pelo governo. Os motivos são os citados, talvez precisamos amadurecer um pouco mais para lidar com isso, mas talvez eu esteja subestimando o nosso povo. O que vocês leitores acham disso? Concordam? Discordam? Deixem suas opiniões, afinal de contas, essa é a graça da discussão. O meu papel eu fiz, agora é com vocês! 
Revisão: Ramon Oliveira de Souza
Fellipe Camarossi é graduando em Ciências Contábeis e amante de uma boa discussão sobre videogames. Além de escrever para o GameBlast, também é redator nas revistas Nintendo World e EGW. Para elogios e críticas, pode encontrá-lo no Facebook ou Twitter.

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