Discussão

Discussão: Estamos prestes a entrar em uma nova era PONG de imitações?

A História é um grande emaranhado de fatos, magicamente organizados para dar sentido ao que, provavelmente, é infinito: o tempo. Por mais... (por Gabriel Toschi em 20/01/2013, via GameBlast)

A História é um grande emaranhado de fatos, magicamente organizados para dar sentido ao que, provavelmente, é infinito: o tempo. Por mais que todos os momentos na nossa vida sejam únicos, é fácil estar em uma situação onde se depara com a frase “eu já vi isso antes”. Tudo bem que isso não é culpa da História, mas sim, na maioria das vezes, nossa, que escrevemos a nossa própria história. E não estamos aqui pra falar de guerras nem crises políticas, mas de videogames.

“Nada se cria, tudo se copia”

Poderíamos resumir a primeira geração de videogames neste simples ditado popular. Para começar a Discussão de hoje, precisamos relembrar como tudo começou. Ralph Bear foi o responsável pelo primeiro videogame doméstico da história, o Magnavox Odyssey. Ele trazia quatro jogos já na memória, sendo um deles um grande marco na popularização dos vídeogames: seu nome era Ping Pong e foi, realmente, o primeiro jogo comercial de rebater a bolinha (que era quadrada, por motivos óbvios) entre dois jogadores tentando imitar uma partida de tênis real.

Quico, achei sua bola quadrada! Ou quase isso...
PONG, a imitação original
Foi aí que entrou na história Nolan Bushnell, fundador da Atari e idealizador de PONG, uma cópia totalmente descarada do Ping Pong do Odyssey e, que por incrível que pareça, fez mais sucesso do que o jogo original. Ralph entrou na Justiça, que acabou liberando a venda de PONG e sua versão doméstica, chamada de Home PONG, após o pagamento de uma quantia em dinheiro.

Enfim a bola de neve das imitações chegou. Novas versões do Odyssey apareceram como filhotes de coelho, cada vez mais buscando imitar o PONG de Bushnell, fazendo de Ralph um refém da imitação de seu próprio produto. Isso sem contar as versões baratas de consoles domésticos copiando PONG, que apareciam aos montes nas mais diversas lojas. Sendo sincero, uma versão mais vagabunda do que a outra.

Odyssey 4000, uma das últimas versões a serem lançadas. E, sim, ela também copia PONG.
Assim podemos resumir a primeira geração de videogames: cópias, imitações e plágios de um jogo de ping pong. Essa “Geração PONG” é passado, claro, já que hoje podemos desfrutar de games bem diversificados, porém, este padrão de “sempre a mesma coisa” não ficou totalmente para trás...

Sétima geração: o “mais do mesmo”

Diga o que quiser: a expressão “mais do mesmo” no mundo dos jogos está se tornando muito recorrente atualmente. Talvez você deve ter a ouvido de um amigo, de um jornalista ou até lido em algum comentário aqui no Blast, mas seu significado é bem simples: a falta de inovação entre alguns dos jogos atuais. Se na primeira geração só podíamos jogar PONG, atualmente existe uma grande variedade de títulos cuja base é totalmente igual. Há muita coisa nova e inovadora aparecendo por todos os cantos, claro, mas esse mais do mesmo é algo que vem se tornando cada vez mais recorrente.

Antes que você se assuste, é bom deixar claro a grande diferença entre as épocas. Naquele tempo, a tecnologia era bem inferior à nossa e fazer algo além do padrão era realmente difícil, ainda que possível (afinal, os jogos evoluíram). Em tese, a primeira geração foi composta de imitações baratas, já que não dava pra mudar muita coisa. Hoje a inovação pode ocorrer livremente e isso de fato acontece, ainda que em níveis muito baixos.

Não quero dizer que Call of Duty e Battlefield são exatamente iguais ou que um é cópia do outro. Sabemos que cada um tem uma história melhor, mecânica ou modos de jogo diferenciados, mas pode-se dizer que os atuais títulos do gênero first-person shooter estão muito semelhantes; não só neste gênero, mas em muitas outros também. Sim, há inovações tanto dentro das próprias séries quanto entre elas, mas os games seguem com as mesmas mecânicas e, em nenhum momento, há uma mudança radical, que apresente novas experiências de jogo. 

Que papelão, hein?
Tudo bem, saudosismo e nostalgia com o jeito antigo de jogar é muito bom, certo? Afinal, é também por isso que a série New Super Mario Bros. faz tanto sucesso. Mas até o mais ardoroso nintendista, mesmo que tenha argumentos dos “novos modos de jogo” ou algo parecido sabe que a mecânica é a mesma vista desde o NES, no primeiro jogo de Mario. Podemos citar ainda FIFA 13 para Wii e PSVita que, como todos sabem, é apenas uma versão “atualizada” da versão do ano anterior. Dizer atualizada é ser respeitoso até demais: mudaram apenas os times e a trilha sonora. Isto é uma indicação clara de que a inovação está muito em falta atualmente, o que pode nos levar até a uma nova era PONG. Não pelos mesmos motivos, mas a consequência será a igual: uma saturação do mercado. Aliás, quais são estes tais motivos?


“Pu que” você faz isso?

Certo, o que ocorre é claro. Talvez não tão evidente quanto na primeira geração, mas está acontecendo. A pergunta que não quer calar é: por quê? Estatística é a resposta neste caso. Recentemente foi anunciado uma lista mostrando os 10 jogos mais vendidos no Brasil para Xbox 360, PlayStation 3 e Wii no ano de 2012, segundo a GfK.

Para os consoles da Sony e da Microsoft, o jogo mais vendido foi Pro Evolution Soccer, em suas versões 2012 e 2013, sendo seguido de FIFA Soccer 13 (e, no caso do PS3, até FIFA Soccer 12 aparece na lista). Na lista do Wii, temos também Pro Evolution Soccer 2012, com a companhia da franquia Just Dance (que também mantém a mesma fórmula há algum tempo), com suas versões 3 e 4, além de New Super Mario Bros. Wii. Continuando a lista de jogos musicais, Dance Central e sua continuação também aparecem na lista do Xbox 360. Para os FPS, Call of Duty: Black Ops II aparece nas listas do PS3 e do X360.

Resultado: apenas de jogos de futebol, foram sete versões entre os consoles. De jogos musicais que seguem a fórmula de dança por sensores de movimentos, temos quatro, além da aparição da franquia Call of Duty como quinto lugar em vendas no país inteiro. 

Mas afinal, por que as empresas tendem a barrar inovações? Porque vende. Não sou um fã assíduo de FPS, nem de futebol, mas sou um fã dos jogos de plataforma do Mario e de jogos musicais e posso afirmar, com toda certeza, que nestes casos e em muitos outros, nós necessitamos de novas ideias. Se antigamente as imitações apareceram porque PONG fazia sucesso e não era tão fácil criar algo diferente, hoje as vendas são mais expressivas que o próprio jogo. Tudo bem, eu até posso aceitar as inovações de Mario e Call of Duty, mas são estratégias como a da EA em FIFA 13 que mostram, claramente, o que está acontecendo.

A culpa é um pouco nossa também, acreditem. Compramos todos esses jogos “mais do mesmo” e é isso que gera o lucro do mercado. Não quero propor uma revolução contra o comércio de games, mas apenas uma reflexão. Muitos jogos hoje buscam inovar e no entanto não recebem a atenção merecida, como boa parte da indústria indie atual e muitos outros títulos que fazem a gente pensar diferente. Eles merecem sim a nossa atenção às vezes.

Braid, um dos ótimos exemplos de inovação no gênero plataforma vindo do lado indie da Força
E essa inovação está na nossa cara e não percebemos. Existem tantos jogos exceção a essa regra, tanto vindo do mercado das publishers quanto dos desenvolvedores indies, que podemos ficar perdidos em tantos novos modos de jogar. FPS? Todo o universo de Portal e a atmosfera de Borderlands são poucos, mas ótimos exemplos. Para os jogos musicais, temos Rocksmith, vindo da própria Ubisoft (que também produz Just Dance), que, por mais que não seja de dança, pode ser considerada a real experiência de um jogo musical de guitarras. Eu aposto todos os meus Rupees que, se você procurar, vai achar muita coisa nova. Não precisa parar com os conhecidos, mas encontrar estes “desconhecidos” vai ser uma ótima pedida, acredite.

Se você é fã de FPS, você deve experimentar Portal
O que você acha sobre isso? Você acha que os jogos estão cada hora “mais do mesmo” ou as pequenas inovações são totalmente válidas (e nada pequenas)? Poderemos ter um cenário parecido com o da primeira geração em um futuro próximo? Deixe sua opinião nos comentários. 

Revisão: Bruna Lima

Cientista da computação em formação pela USP São Carlos, sempre encontra tempo para falar sobre jogos, tecnologia, viagens no tempo e outras loucuras. Desenvolve jogos, aprecia chocotones, escreve para o Deviante e faz piadas ruins em seu Twitter (pode ser que tenham coisas legais também).


  1. Concordo completamente gabriel. Infelizmente existe algo dentro da grande massa, eu chamo de PREGUIÇA e MEDO. Quando aparece algo novo no mercado, a maioria tem um preconceito natural por ele, consequente de PREGUIÇA de aprender o novo, ou MEDO de não gostar, logo ficão com o mais do mesmo. Ainda bem que existem os sites e revistas que analisam e bem pontuam jogos com novas propostas, para encorajar mais essas pessoas. Esse é um dos motivos de eu gostar do trabalho da nintendo, que explora muito o DIFERENTE, INOVADOR.

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  2. Eu diria que nunca houve tanta repetição e tanta inovação caminhando juntos, o que, a meu ver, não é necessariamente um problema.

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