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Análise: Dark Souls Remastered (Multi) é bom para novatos, mas nem tanto para veteranos

A remasterização do primeiro capítulo da saga de Dark Souls tem suas qualidades, mas nada que já não havíamos visto antes.

Dark Souls acabou virando uma saga sem precedentes, dando a popularidade necessária para o estilo souls-like, que surgiu com Demon's Souls (PS3) lá em 2009. Originalmente lançado em 2011, o primeiro capítulo da franquia melhorou a fórmula do jogo anterior, criando realmente a base do gênero que se tornou popular de forma bem paulatina. Agora, sete anos depois, a geração atual pode experimentar essa história com Dark Souls Remastered (Multi).


Entretanto, mesmo que o título traga toda a experiência fiel do primeiro Dark Souls, ele possui suas falhas. Experimentar a saga Dark Souls não é algo tão convidativo para a maioria dos jogadores e, além disso, essa forma remasterizada do game original não pensa tanto nos novos jogadores como sua versão original. Ao mesmo tempo, jogadores veteranos na série não verão nada que a Prepare to Die Edition, de PC, já não tinha antes. No entanto, vamos por partes.


Retorno à Lordran

A primeira jornada da saga de Dark Souls nos apresenta o reino de Lordran. Essa é uma terra desolada e confusa, repleta de demônios e combates aterrorizantes. Com uma arquitetura sem igual e uma atmosfera aterradora, o reino dos mortos-vivos representa perigo a cada curva de cada masmorra claustrofóbica que encontramos. Aqui, somos um morto-vivo que não foi completamente amaldiçoado por esta terra, precisando então vagar pelo distorcido reino para encontrar sua saída ao mesmo tempo que buscamos de volta a nossa humanidade.

Entretanto, essa terra nem sempre foi assim. Isso porque após a guerra contra os dragões na chamada Era dos Antigos, os humanos saíram vitoriosos e puderam dar vida à Lordran. Porém, durante a Era do Fogo, onde começamos o jogo, a chama que protege os seres vivos da escuridão completa começou a se apagar. Com isso, Lordran passa a ser habitada pelos terríveis seres corrompidos os quais precisamos enfrentar ao longo da jogatina.



Lordran agora é apenas uma sombra do que foi um dia, servindo de palco para as mais terríveis e inacreditáveis existências. A ambientação gótica terrivelmente sombria do título é um de seus maiores charmes. Além de já apresentar essa atmosfera no controverso tutorial, os veteranos não deixarão de sentir a boa e velha nostalgia ao revisitar o local com uma resolução um pouco melhor do que anteriormente.

Conteúdo extra? Só o velho DLC

Não que isso seja uma surpresa exatamente, mas quando comparamos Dark Souls Remastered com o conteúdo de sua versão original, temos pouquíssimas diferenças. Entre elas, a presença do DLC Artorias of the Abyss na versão básica do game. Com isso, o jogo se torna absurdamente semelhante à edição especial lançada para PC, batizada de Prepare to Die Edition.



Não temos nada de novo aqui e isso pode não ser tão interessante para os fãs mais antigos da série. Se for o caso destes jogadores veteranos já terem experimentado o Prepare to Die Edition no PC, experimentar o Remastered lhe dará apenas uma experiência mais completa no quesito técnico do game. Fora isso, a nova lista de troféus também pode agradar, mas estes são conteúdos supérfluos se comparados às melhorias que se esperava de uma edição remasterizada.

Não é difícil lembrar de outros títulos que repetiram este feito anteriormente, como The Last of Us Remastered (PS4). Entretanto, o título da Naughty Dog trouxe algumas mecânicas extras e uma otimização um pouco mais relevante do que Dark Souls apresenta aqui.  É claro que isso não faz dele um péssimo jogo — até porque seria muito difícil ser péssimo, sendo que estamos falando do próprio Dark Souls original. A questão aqui é, de fato, os motivos para retomar a jogatina, que não são tão significativos assim.


As melhorias da remasterização

Dark Souls Remastered não tem gráficos tão bonitos e evoluídos como Dark Souls III (Multi) ou Bloodborne (PS4). Isso incomoda um pouco, considerando que se ele se trata de uma versão remasterizada de um jogo de sete anos atrás lançado em 2018 e em 4K. A preocupação com suas texturas foi um pouco preguiçosa, tornando a experiência não tão “nova” assim.

Felizmente, não podemos dizer o mesmo de sua capacidade técnica, visto que o título de 2011 tinha alguns problemas graves de queda na taxa de frames, principalmente em ambientes  com muitos inimigos ou efeitos de iluminação. Essas e algumas outras limitações felizmente foram sanadas, tornando a aventura um pouco mais fluida do que outrora.



Para início de conversa, a iluminação de Dark Souls Remastered é bem superior à do jogo original, fazendo com que todo o cenário tenha um aspecto mais nítido. Isso é complementado com os 60 quadros por segundo mantidos de forma bem estável pelo título. Além dos frames constantes, o Remastered garante também 1080p de resolução, assim como uma boa adaptação ao formato 4K nos modelos mais potentes da Sony e da Microsoft.

Fora isso, os controles estão um pouco mais precisos do que antes. Alguns problemas de AI dos inimigos ainda estão aqui — além de efeitos de física questionáveis em determinados momentos—, mas a experiência de se jogar o primeiro Dark Souls é renovada com louvor nos combates, mais orgânica que em sua versão original.



Porém, fica o aviso aos jogadores de PC: quem jogou Dark Souls com mods visuais em tal plataforma provavelmente não vai sentir salto gráfico nenhum na remasterização. A única mudança será realmente na fluidez de comando, melhorando o desempenho, nada mais do que isso. Assim, se você está esperando algo do nível de Dark Souls III pode se decepcionar um pouco.

Bom “retorno” para quem nunca veio

Se o jogo não tem tantos chamarizes assim para os veteranos e menos ainda para aqueles que jogam no PC, ao menos para os novatos da franquia o título vai ser bem-vindo. Aos jogadores que começaram a jogar Dark Souls em seu segundo título, ou até no terceiro, revisitar o primeiro capítulo da série pode ser uma boa vivência.



Isso acontece porque reviver a experiência original de treinamento pesado, desafios constantes e a boa e velha jogabilidade punitiva de Dark Souls pode ser uma boa vivência para os fãs mais novos da série. Além disso, outra grande novidade do título são as legendas em português brasileiro, que o primeiro Dark Souls nunca teve.

É claro que isso conta com pontos positivos e negativos. Para os novatos, é uma ótima experiência para apreender a história da série de uma forma mais completa, principalmente quem não tem tanto domínio da língua inglesa. Entretanto, novamente, veteranos podem estranhar um pouco alguns nomes traduzidos, como a “Cidade dos Moléstias” (Blighttown, no original). De fato, isso não chega a ser um problema drástico e é algo muito semelhante ao que ocorreu em Monster Hunter World (Multi), com a tradução dos gatinhos Palico e de algumas armas.



Para além dessas mudanças, há também o fator dos controles em si. Para além da fluidez citada anteriormente, podemos agora também editar o layout de botões. Basta acessar o menu principal a qualquer momento e configurar os comandos do modo que o jogador achar mais proveitoso para si, algo que não existia no título original.

Remasterização tímida demais

Dark Souls Remastered tem suas qualidades, mas estas não são muito diferentes daquilo que o jogo original possuía, além do fato de já termos no PC uma versão mais atualizada do título, que acumula menos diferenças ainda desta versão. As texturas que seriam o fator mais interessante de se atualizar para a versão 4K não foram tão bem tratadas assim, mantendo a atualização do título em uma zona de conforto bem proveitosa.



Dessa forma, as mudanças da remasterização se concentraram muito mais no desempenho, como mostramos ao longo dessa análise. Esse campo seguro agrada por entregar um título muito mais interessante de se jogar, na prática, do que a versão de 2011. Infelizmente, tais mudanças mais se assemelham a um patch de correção do que uma remasterização completa, fazendo o preço do jogo ser um pouco exagerado se comparado ao resultado final.

Mesmo assim, um excelente jogo

Dark Souls Remastered (Multi) oferece, basicamente, a mesma experiência do jogo original, apenas com um desempenho melhorado. Com isso, surge a dúvida se o jogo vale a pena ou não de ser comprado. Como podemos ser taxativos, a resposta que fica aqui é o bom e velho “depende”. Sim, depende do seu perfil de jogador e também do seu perfil de fã da série Souls.

Se você nunca jogou o primeiro Dark Souls, adquirir o Remastered é uma boa opção. É a melhor forma de revisitar a primeira aventura da franquia. Entretanto, se quem está lendo é um veterano da franquia que já jogou o primeiro título, principalmente no PC, pode não ser uma boa opção a compra — a não ser que você queira muito reviver a aventura ou então adquirir os novos troféus do título.


De um jeito ou de outro, Dark Souls continua sendo aquilo que sempre foi: um ótimo título para colocar em teste o próprio masoquismo, bem como a perseverança e a paciência. O crescimento paulatino e o desafio constante se mantém nessa versão, além deste ser um dos (se não o) jogos mais importantes do seu gênero. No entanto, é claro lembrar: se você nunca jogou algum jogo do gênero antes, talvez experimentar Bloodborne antes deste daqui seja uma boa opção.


Prós

  • Combates mais fluidos e tão desafiadores quanto antes;
  • Melhorias no desempenho do jogo, mantendo altas taxas de frame;
  • Oportunidade de jogadores novatos conhecerem a origem da franquia;
  • Nova lista de troféus pode atrair jogadores veteranos;
  • Conteúdo do DLC já presente no título base;
  • Efeitos de iluminação dão mais beleza ao mundo do jogo.

Contras

  • Nenhum conteúdo novo para quem já conhece o título;
  • Atualização gráfica preguiçosa e pouco relevante;
  • Semelhante até demais com o Prepare to Die Edition de PC;
  • Melhorias de desempenho não justificam a remasterização.
Dark Souls Remastered - PS4 / XBO / PC - Nota: 7.5
Versão utilizada para análise: PS4
Análise produzida com cópia digital cedida pela Bandai Namco
Revisão:João Pedro Boaventura
Gilson Peres é Psicólogo e Mestrando em Comunicação pela UFJF. Está no Blast desde 2014, onde é Redator e Diretor. Começou sua vida gamer bem cedo no NES e hoje divide seu tempo entre games antigos e novos. Pode ser visto por aqui sempre escrevendo algum texto polêmico, instrutivo ou nostálgico. Geralmente é visto em alguma discussão no Facebook ou no Twitter.

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