Discussão

O que está acontecendo com a Konami?

Berço de séries consagradas, a gigante japonesa passou por alguns embaraços e tem andado apagada.



Enquanto desenvolvedora de games, a Konami foi muito famosa no mundo gamer desde a época de ouro das máquinas de arcade. Responsável por uma parcela gorda do sucesso de diversas plataformas, seus jogos são ícones da história dos videogames e não dá para negar sua importância na indústria. Porém, há alguns anos, o ritmo de lançamento de seus títulos reduziu e surgiram até boatos de que ela deixaria o ramo do entretenimento eletrônico. Aliado a isso, devido a decisões infelizes, a empresa tornou-se refém de muitas críticas de fãs, personalidades e inclusive ex-funcionários. Vejamos um apanhado com alguns dos momentos mais marcantes da história que culminou nessa situação.

Títulos de sucesso

Difícil encontrar algum gamer que não conheça ao menos um jogo da empresa. O antigo logotipo da marca, que estampava a tela de abertura de seus jogos, é lembrado até hoje. Foi responsável pela criação de títulos relevantes em praticamente todas as gerações de consoles a partir de sua fundação. Para melhor contextualizar o debate, cabe uma breve revisitada às franquias popularizadas pela Konami:
  • Gradius: “Jogos de navezinha” muito famosos nos arcades;
  • Parodius: Assim como no item anterior, eram shoot’em ups de naves;
  • Contra: Títulos de “run and gun” populares;
  • Tiny Toon Adventures: Jogos de plataforma muito divertidos;
  • Teenage Mutant Ninja Turtles: Games da franquia do quarteto de tartarugas, incluindo o aclamado TMNT: Turtles in Time (Arcade/SNES);
  • Castlevania: Série de aventura num universo de vampiros, até hoje uma das mais queridas pelos jogadores;
  • Suikoden: RPG nascido no primeiro PlayStation com uma forte base de fãs;
  • Silent Hill: Trama de terror que surgiu também no PS1 e teve diversas sequências;
  • Metal Gear: Série de ação furtiva que dispensa comentários;
  • Pro Evolution Soccer: Jogo de futebol que se desenvolveu a partir de Konami Soccer (MSX), passando por International Superstar Soccer (SNES) e Winning Eleven (Multi) para atingir o que conhecemos hoje como PES.


O “código Konami” foi outra coisa que ficou vastamente conhecida: uma sequência de comandos (cima, cima, baixo, baixo, trás, frente, trás, frente, B e A) que habilitava todos os power-ups em Gradius (Multi) de 1985. Algo deixado acidentalmente no jogo, mas que, futuramente, marcaria referências em diversos outros games, como por exemplo: Prince of Persia: The Two Thrones (Multi) e Bioshock Infinite (Multi).

Desvalorização dos mestres

Mesmo com o histórico de emplacar tantos títulos de sucesso, parece que a maneira de conduzir a execução de seus projetos foi se perdendo aos poucos. Grandes game designers fizeram carreira dentro da companhia, tornando-se, em alguns casos, celebridades cultuadas pelos fãs de seus jogos. Porém, para alguns desses profissionais, a limitação imposta pela administração da Konami os obrigou a procurar outros rumos. 

Ao que tudo indica, foi o caso de Koji Igarashi, grande colaborador de Castlevania, que saiu da empresa em 2014, afirmando buscar maior liberdade para o desenvolvimento de seus projetos. Mais tarde foi a vez de Hideo Kojima “pular da barca”. Depois de ter as relações estreitadas com a Konami, a mente poderosa por trás da criação de Metal Gear, saiu da empresa em 2015. Com o apoio da Sony, fundou um novo estúdio e, aparentemente, recebeu carta branca para trabalhar em seus projetos.

Essas duas perdas de peso acarretaram, além da ausência óbvia da contribuição dos mestres, que já se confundiam com a própria obra, fortes prejuízos para popularidade do estúdio dentro da comunidade gamer.


Desleixo com as franquias

Medidas duvidosas, consequentemente, acabaram por enterrar as franquias que ajudaram a erguer o império do estúdio japonês. A decadência da série Silent Hill estava evidente, pois desde os clássicos lançados no Playstation 2, nenhum jogo parecia receber o carinho merecido. Em 2014, foi disponibilizada na PlayStation Store, uma demo misteriosa intitulada P.T. (PS4). Ao final dessa espécie de teaser foi revelado o título “Silent Hills”, inclusive com participação de Hideo Kojima e Guilhermo del Toro. Os fãs ficaram muito empolgados, porém, a Konami acabou com a festa cancelando a produção do game.

Os sintomas de um clima ruim ficaram provados no desenvolvimento conturbado de Metal Gear Solid V: Phantom Pain (Multi). A empresa claramente quis apagar a imagem do diretor, inclusive, retirando seu nome da capa do jogo. O recente Metal Gear Survive (Multi) de nada serviu para melhorar esse status, pois, sem a mão do seu criador, houve pouco interesse do público.

Algo parecido aconteceu com outra série querida. Mesmo depois de receber o apoio de Kojima no original Castlevania: Lords of Shadow (Multi), notou-se uma gradual queda de potencial. A última sequência de Castlevania foi o mediano Lords of Shadow 2 (Multi), lançado em 2014 e, desde então, os fãs seguem sem esperanças de um novo episódio significativo.

Talvez a mais importante franquia da empresa, Pro Evolution Soccer, seja a única que recebe atenção digna até hoje. Mesmo perdendo bastante público para o forte concorrente FIFA, ainda há um notável esforço para manter aceso o interesse do público. Entretanto, perdas de licença como a da Copa Libertadores da América e, mais recentemente, da Champions League, comprometem cada vez mais o futuro do jogo.


Aquela que adoramos odiar

Não demorou muito para que a empresa entrasse na mira de críticas vindas de todos os lados. Surgiram denúncias de funcionários sendo explorados e monitorados de maneira abusiva. Essa cultura interna refletiu, não só nas suas produções, mas também numa péssima imagem pública.

O ator Norman Reedus, que já havia trabalhado com Hideo Kojima no teaser jogável, P.T., do abandonado Silent Hills, também botou lenha na fogueira, publicando um meme famoso desde a saída de Kojima da empresa. Manifestações como essa traduziam o sentimento da maioria dos jogadores, uma espécie de resposta às estranhas escolhas da companhia.



Até o narrador de futebol Silvio Luiz, que havia trabalhado nos jogos da série PES, contribuiu para a crise de integridade da Konami, ao alegar que “não tinham cumprido o prometido”, se referindo a um acordo de colocar seu nome na capa do jogo. Depois, foi a vez do polêmico Diego Maradona demonstrar-se indignado pelo uso de sua imagem em Pro Evolution Soccer 2017 (Multi), cogitando inclusive, processar a companhia. 

Esse cenário nada vantajoso, provavelmente, incentivou o estúdio a sair de cena e explorar novos mercados. Aos poucos, percebemos que aquela Konami que morava no coração de quem cresceu com seus jogos, já não existia mais, o estigma era outro.

Foco no mobile

Devido ao sucesso dos jogos mobile, a companhia se voltou para o desenvolvimento desses, e o próprio CEO da empresa afirmou que o futuro da indústria se encontrava nesse ramo. Ao contrário de rumores de que estaria falindo, a Konami apresentou crescimento em seus lucros. No futuro, suas criações estão destinadas a receber uma versão para dispositivos móveis, e o anúncio de um Castlevania para iOS no Japão corrobora isso.

Na tradução literal a palavra “konami” significa "ondas pequenas”. Pois bem, a companhia resolveu abandonar as ondas das produções de alto custo, para se dedicar a marolas menos arriscadas e pretensiosas, isto é, jogos para as plataformas móveis. Deixou de lado suas origens fartas de títulos criativos e franquias cativantes para perseguir o que está dando mais dinheiro. Parece ter encontrado inspiração para o rumo dos negócios em outro segmento da empresa: os caça-níqueis.



Revisor: Link Beoulve

Thiago Batista escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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