Discussão

Videogames com microtransação podem ser jogos de azar?

Antes de associar as microtransações aos jogos de azar, é necessário levar em consideração muitos fatores sobre o comportamento do ser humano.

Estamos a um mês e um dia da E3 2018, e este evento de maior importância na indústria dos games é o assunto que está “na boca do povo” entre a comunidade gamística. Sempre há especulações sobre o que será apresentado, uma ou outra empresa solta uma declaração nas redes sociais para atiçar a curiosidade do público, e criamos muita expectativa. Entretanto, quem já é da área há um pouco mais de tempo, sabe que existe uma polêmica muito discutida no meio: as microtransações.


A Electronic Arts figura a polêmica mais recente, com seu jogo Star Wars: Battlefront 2 (Multi), lançado em novembro de 2017. Grande parte dos jogadores considerou a mecânica de microtransações deste game agressiva, pois de início era necessário jogar 40 horas para desbloquear a compra dos personagens icônicos da saga: Luke Skywalker e Darth Vader.

Porém, o dinheiro utilizado para a transação era virtual, ou seja, adquirido dentro do próprio jogo. A EA respondeu abaixando o preço dos heróis e implantando o serviço de lootboxes, as famosas caixas da sorte, como um caminho mais fácil para obtenção de “Cristais” - moeda mais cara do jogo. Além disso, quem não conseguisse os Cristais com as caixas da sorte, poderia comprá-los com dinheiro de verdade. Entretanto, a rejeição à essa mecânica por parte dos jogadores foi tão repercutida que, horas antes do lançamento, a desenvolvedora removeu esse sistema de compra de Cristais com dinheiro real.

Jogo de azar?


O episódio acendeu uma luz de alerta em algumas instituições, que passaram a investigar o sistema de lootboxes sob a ótica de jogos de azar. O motivo dessa associação é que, enquanto algumas dessas caixas podem ser adquiridas após o jogador completar uma missão, como espécie de recompensa, outras podem ser compradas com dinheiro real. O item dentro dela pode ser comum ou raro, poderoso ou fraco - só é possível saber quando abrir. Nesse caso, o jogador depende única e exclusivamente da sorte.



É válido ressaltar que esse não é o único campo que conta com as microtransações: elas também existem na compra de expansões de jogos. O exemplo mais clássico é The Sims 4 (Multi), em que uma expansão pode vir a ser mais cara que o próprio jogo base. Porém, neste caso, as microtransações não são associadas aos jogos de azar, pois o jogador tem certeza do que irá receber.

Então, quando se fala em videogames com microtransações, o leque é bem grande. Elas não vão sair de cena tão cedo (se é que vão), prova disto é a declaração de Strauss Zelnik, CEO da Take Two, empresa dona da conceituadíssima desenvolvedora Rockstar Games. Ele disse que quer microtransações em todos os futuros jogos da companhia. Não disse nada sobre caixas da sorte, apenas mencionou a mecânica de forma geral.

Isso significa que Red Dead Redemption 2 (Multi), esperado para outubro de 2018, terá microtransações, mas não necessariamente lootboxes. Poderá vir a ser a compra de uma nova aventura do protagonista Arthur Morgan, de revelações de John Marston, herói do primeiro jogo, enfim. As possibilidades são imensas.

A questão dessas expansões serem pagas com dinheiro real pode abrir outra discussão que gira em torno do lançamento de jogos incompletos que forçam o jogador a desembolsar mais dinheiro para uma experiência plena, mas não deve ser, de forma alguma, associada às lootboxes e às discussões sobre jogos de azar. Isso significa que antes de dizer “gastar dinheiro dentro do game o configura como jogo de azar”, é necessário ter conhecimento a respeito do assunto. Como já foi dito, quando se trata de microtransações, o leque é grande.


Certo, então microtransações aplicadas às lootboxes são jogos de azar?

Há argumentos a favor e contra essa atribuição de azar às caixas. Para refletir, é necessário levar em consideração que o perfil individual varia muito. Já vi uma mulher gastar exatos R$109,00 na minha frente com os jogos da loteria e considerei que, com certeza, aquela não era sua primeira vez. Se aquela mulher joga videogames, é fácil concluir que também tenta a sorte com as lootboxes.

Porém, esse é o perfil dela. Eu não tenho esse costume e, assim como não gastaria nem mesmo R$20,00 na loteria, também não tentaria a sorte com caixas de azar nos games por mais de R$2,00. Juntando os dois perfis, o da mulher e o meu, a dualidade nos faz chegar a um ponto em que se torna necessária uma análise social antes de dizer “não tem problema, só compra quem quer”.

Outra dualidade: assim como é muito difícil ganhar na Mega-Sena, caso um item raro seja igualmente remoto para se conquistar nas lootboxes, fará os jogadores comprarem mais caixas a fim de aumentarem suas chances de conseguir o “Santo Graal”. Porém, se invertemos a operação e tornarmos fácil a obtenção de itens raros nas caixas, os jogadores não hesitarão em comprá-las e ficarão tentados a adquirir mais.

Como podem ver, existem muitas faces nesse jogo, e todas giram em torno do comportamento do ser humano. Como esse tópico é estudado por cientistas sociais desde a antiguidade, falar sobre microtransações em lootboxes torna-se algo um tanto complexo e que é impossível de se resolver com apenas algumas horas de discussão e debate.

E você, o que pensa a respeito das microtransações de modo geral e aplicadas às caixas de azar? Deixe seu comentário!

Revisão: Link Beoulve
Gunnar Santos escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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