Discussão

Que legado Shadow of the Tomb Raider (Multi) pretende deixar?

A Square Enix querer ir além da evolução óbvia em Shadow of The Tomb Raider trazendo uma Lara Croft que enfrenta consequências de suas escolhas individualistas.

No dia 14 de setembro deste ano, a comunidade será apresentada a Shadow of The Tomb Raider (Multi), o terceiro jogo da trilogia responsável por dar um reboot na série. A questão das viabilidades e aceitações de reboots nos jogos é outra discussão, mas o fato é que eles são bem recebidos, em geral. E foi assim com Tomb Raider (Multi), de 2013, marcando o início de uma trilogia.


Mas depois de passarmos por dois jogos e viver na pele uma evolução óbvia e nítida de Lara Croft, o que podemos esperar do terceiro e último jogo da trilogia? Somente um notável e digno amadurecimento da personagem ao longo de três enredos incríveis ou algo mais profundo que possa nos proporcionar reflexões?

A observação óbvia


Quando se fala de uma cronologia dividida em três partes, a observação mais óbvia diz respeito à evolução dos personagens. Isso é algo que acontece em toda linha do tempo, mas nunca ficou tão claro na franquia Tomb Raider como nesta trilogia recente. Nos outros lançamentos, Lara sempre foi incrivelmente hábil, resistente a dor, precisa, calculista, alpinista… Veterana. Era a proposta dos outros jogos, e enredos incríveis foram lançados sob esse contexto.

Mas sempre faltou identidade e identificação com a Lara: Identidade porque as origens da personagem só haviam sido mencionadas em lembranças e flashbacks. E identificação porque, justamente devido à falta de origens de Lara, poucos jogadores da comunidade se identificavam com ela. Gostavam, mas não se identificavam.



Então o incrível trabalho da Square Enix com o lançamento de Tomb Raider em 2013 chegou na hora certa. Logo em seus primeiros confrontos, ela grita por ajuda e foge daquele desconhecido que a captura na praia. Lara vê velas de rituais, corpos e caveiras dentro da caverna e só quer sair dali.

Quando consegue, após uma correria de tirar o fôlego com tudo desabando, há um momento de calma (quando o nome “Tomb Raider” aparece na tela). Todo esse prelúdio serviu para mostrar ao jogador os aspectos que ele teria que lidar na jogatina: Lara Croft, embora destemida, está absolutamente perdida e assustada. Nada anormal, afinal ela tem 21 anos e acabou de sair da faculdade de arqueologia. Em sua primeira aventura, ela é inocente, nem um pouco calculista, está desesperada e faz muitas coisas no impulso, seguindo apenas seus instintos.



Logo ela adquire o mínimo de equilíbrio emocional interno e o jogo se desenrola. Para quem está jogando, a sensação é óbvia: no final dessa trilogia, Lara Croft estará incrivelmente forte. Fazer essa pontuação não é questão de esperteza e nem de análise profunda. É só observar a lógica: ela está na primeira expedição importante, é óbvio que vai se desenvolver e se tornar uma Tomb Raider.

E no jogo seguinte, ela realmente esteve mais definida.

Rise of The Tomb Raider

Neste segundo jogo, Lara Croft evoluiu. Está à procura de uma Fonte Divina, pela qual seu pai morreu obcecado. Dessa vez ela tem mais confiança em si e está emocionalmente mais envolvida com a pesquisa do que esteve no conflito da aventura anterior. Isso é por conta da relação que seu pai tinha com o projeto de descoberta.

Ela encontra evidências da possível localização do artefato e faz as malas. Descobre que um grupo religioso com força militar, a Trindade, está empenhado em pôr as mãos no objeto antes dela e aí começa uma correria entre gato e rato. Aqui já existe uma mudança de perspectiva, de ótica, ao olhar para Lara Croft. No primeiro jogo, ela teve que lutar pela sobrevivência, para sair da ilha amaldiçoada.

Mas em Rise of The Tomb Raider, ela tinha a opção de não se envolver na pesquisa do pai (o que não é do feitio da personagem, mas tinha). Não foi o que ela escolheu. Continuou sua procura e quando a mídia passou a criticar o nome da família devido à busca por questões de imortalidade, Lara se empenhou mais ainda.

Ou seja, o início de tudo foi por uma questão individual e egoísta. Ela não tinha compromisso com ninguém para adquirir o artefato, isto é, não foi como no primeiro Tomb Raider (1996), em que Lara foi contratada por Jacqueline Natla para procurar o Scion, em uma narrativa distinta do Tomb Raider de 2013.

Só que quando ela descobre que a Trindade quer pôr as mãos na Fonte Divina para, primeiramente, curar a doença da irmã do líder e, posteriormente, montar um exército de militares imortais que irão liderar a idealização de um novo mundo, Lara passa a se cobrar para impedir que isso aconteça. Sem qualquer contrato formal de papéis e assinaturas, ela assume um compromisso com a humanidade e com o povoado de Kitej, que esconde a Fonte Divina e está sendo ameaçado pela Trindade.



No início, quando ela conhece Jacob – o maioral do povo de Kitej – ela diz que o ajudará contra a Trindade, mas que seu objetivo de investigar a Fonte Divina prevalece. No entanto, ao saber mais a respeito deste item sobrenatural, ela passa totalmente para o lado de Jacob, pois vê que a imortalidade não é algo bom para o ser humano – teoria defendida pelos habitantes de Kitej e razão a qual escondem a Fonte.

Ao saber mais sobre aquele povo, Lara vê que a luta por adquirir a Fonte Divina é algo muito antigo, e tal resistência é contínua da parte de Kitej. Aqui vemos uma Lara mais analítica. Em más mãos, esse item poderá trazer problemas, enquanto seu desaparecimento significará a libertação de um fardo que está há gerações nas costas daquele povo.

Lara foi capaz de identificar que sua procura não era benéfica. Isso significa uma evolução na autorreflexão e, principalmente, na humanidade e, por que não dizer, no altruísmo em detrimento ao seu ego.

E Shadow of The Tomb Raider?




Sim, de acordo com a observação óbvia, Lara está mais forte, evoluída e devidamente capacitada. Olhar para a protagonista de 2013 e compará-la com a que teremos em Shadow of The Tomb Raider é dizer “quem te viu, quem te vê”. Muito bem, mas pelo que pudemos ver no último trailer, Lara não se manteve tão altruísta quanto foi em Rise of The Tomb Raider, e teve que recuperar esse instinto tentando corrigir o problema que causou.

Sua individualidade a fez causar um apocalipse maia. Pois é, ela começa tentando pôr as mãos em um determinado artefato e, quando finalmente acontece, o ato é responsável por desencadear a contagem regressiva para a humanidade. Por sinal, isso é exatamente o que a Trindade quer, pois, assim, conseguirá a varredura da maioria dos seres humanos e a ascensão de uma nova era iniciada pelos que sobreviverem. Essa definição faz parecer que Lara foi manipulada para fazer o que fez, mas só teremos certeza após o lançamento.

Enquanto nos outros jogos da trilogia ela lutou pela sobrevivência – Tomb Raider – e foi atrás da imortalidade – Rise of The Tomb Raider – aqui a preocupação se torna catastrófica a nível mundial. E logo no início, ao tomar nota do que realmente acabou acontecendo, Lara Croft mais uma vez se vê em uma questão altruísta. Acontece que o altruísmo deste terceiro jogo é diferente do anterior.

Altruísmo é a preocupação do ser humano com o outro. Em Rise of The Tomb Raider, o altruísmo de Lara floresceu após conhecer Kitej e refletir sobre o que a Fonte Divina é capaz de fazer com o ser humano. Ela passa, então, a lutar contra a Trindade não mais porque a Organização é contra si, mas porque quer algo que pode ser prejudicial a todos. Ou seja, Lara Croft precisou impedir algo.


Mas em Shadow of The Tomb Raider, a própria Lara causou o apocalipse por, novamente, seguir seus instintos unicamente individualistas. Precisará, agora, lutar contra a Trindade mais uma vez enquanto, paralelamente, tenta dar um jeito num apocalipse maia… Tarefa simples.

Com Lara sendo causadora de tudo o que acontecerá no jogo, Shadow of The Tomb Raider não será apenas o jogo em que a senhorita Croft alcançará o topo de suas habilidades. Será a obra conclusiva de uma trilogia épica, que assumiu o tema de humanismo, coletividade e a abnegação (tudo isso para não repetir “Altruísmo”) enquanto pretende deixar o legado de que é sempre necessário pensar em seus desejos pessoais sem excluir uma reflexão do que isso poderá causar em uma escala humanitária.

Sabemos muito bem que reflexões inteiras podem ser desconstruídas com um simples diálogo numa cutscene final. Mas após uma análise deslocada da trilogia e utilizando, do terceiro jogo, apenas o trailer como objeto, podemos esperar que essa seja a principal abordagem e reflexão que veremos em Shadow of The Tomb Raider.

E você, o que mais acha que vai ser refletido e discutido neste terceiro jogo? Deixe seu comentário abaixo.
Revisão: Júlio César
Gunnar Santos escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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