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Dark Souls III (Multi) revisitado: o fogo desvanece, mas o legado permanece

O final digno de uma das séries mais épicas da atualidade teve sua mitologia expandida com dois conteúdos adicionais.

A série Souls chegou ao fim, pelo menos por enquanto, com seu terceiro jogo em 2016, deixando algumas pontas soltas no que diz respeito à mitologia criada com sua narrativa sutil e interpretativa. Sabendo que era sua a responsabilidade de sagrar o fim desta franquia com chave de ouro, o influente diretor Hidetaka Miyazaki planejou dois DLCs para dar um pouco mais de vida a este universo que parecia tão morto e vazio ao fim do ciclo.

Uma jornada punitiva, mas contemplativa

Seja nos arredores da Muralha do Castelo de Lothric, no Calabouço de Irythill ou na Capital Profanada, Dark Souls III (Multi) é o tipo de jogo que te apresenta ao inesperado. Cada atalho aberto, novo inimigo que encontramos e item coletado representa uma peça essencial para resolver esse gigantesco quebra-cabeças — que vai exigir um olhar interpretativo aguçado, estratégias de combate e muita dedicação para aproveitar esta obra por completo. A verdade é: Dark Souls III é um jogo difícil e complexo — é também o título da empresa mais próximo do verdadeiro divisor de águas, Dark Souls (Multi) —, mas é justamente isso que destaca a franquia do resto da indústria de games atual.

Tecnicamente falando, o título tem uma jogabilidade muito polida e precisa — isso sem mencionar o sistema de habilidades, que é um dos meus favoritos. O combate é muito mais fluido e dinâmico que nos títulos anteriores e o título recebeu atualizações regulares a cada dois meses, aproximadamente, para garantir sua qualidade tanto na campanha offline quanto no PvP/cooperativo online. Algumas armas receberam atualizações para correção de hit box, enquanto outras receberam versões alternativas nos DLCs posteriormente lançados.


Estrelando uma ambientação mais apática, arruinada e hostilizada que outros títulos da atualidade, há muitos detalhes a serem apreciados no quesito direção de arte. Para os fãs de PC, isso não é problema — a depender da configuração do seu sistema —, já que o jogo roda a 60 fps e até possui mods para suporte a 4K. No PS4 e Xbox One, porém, o desempenho deixa um pouco a desejar, rodando a 30 fps apenas em áreas com menor quantidade de elementos — as atualizações corrigiram apenas quedas de framerate mais abruptas e preocupantes.

Mesmo com falhas (ainda) não corrigidas e decisões precipitadas de level design para algumas áreas do conteúdo adicional, a FromSoftware se preocupou em entregar não somente um jogo AAA que faz jus ao preço de lançamento, mas também um final a altura para a obra idealizada por Miyazaki. Certamente, o reflexo da complexidade e qualidade da franquia já está sendo visto com o surgimento gradual do subgênero soulslike, e toda essa influência será importante para o que teremos no futuro, tangenciando os gêneros de ação e RPG.

Uma última esperança em forma de arte

O primeiro conteúdo adicional de DS3, Ashes of Ariandel, foi lançado em outubro de 2016. Com uma premissa e temática um tanto similar ao DLC Artorias of the Abyss, do primeiro Dark Souls, essa expansão nos introduziu ao Mundo da Pintura de Ariandel, que ilustra algumas das localidades presentes em jogos passados de uma perspectiva distinta. O acesso ao DLC é realizado do modo mais comum aos jogos da FromSoftware: durante o curso normal do jogo,  conversando com um NPC em particular ou usando um item coletado em uma localidade específica.  Ao chegarmos à Catedral das Profundezas, encontramos Gael ajoelhado em frente a um altar, suplicando por alguém que leve a chama até o Mundo da Pintura de Ariandel — local para onde somos transportados.


O frio excessivo, a ausência quase total de esperança e a corrupção pela ganância fizeram desta realidade um pesadelo incompreensível e insuportável. Assim como o ciclo do fogo de Dark Souls III, essas terras respeitam um ciclo de purificação, que foi interrompido pelo Father Ariandel e pela influência maliciosa da Sister Friede. Além desses dois poderosos inimigos,  que travam uma das batalhas mais épicas e desafiadoras da série, Ashes of Ariandel traz mais um chefe opcional, 16 novas armas e escudos, 5 novas armaduras completas, novas magias, entre outros.

Uma cidade esquecida

O segundo e último DLC, The Ringed City, lançado em janeiro de 2017, ilustra bem o final da série com um pouco de tudo que já foi feito de melhor na franquia: lore profunda e interessante; mestres terrivelmente desafiadores; level design inteligente, com atalhos e checkpoints (fogueiras) bem posicionados; e armas/escudos individualmente característicos. O acesso à expansão é desbloqueado por uma fogueira na Fornalha da Primeira Chama (jogo original) ou pela Catedral onde batalhamos Sister Friede (Ashes of Ariandel).


Particularmente, achei que a primeira parte deixou um pouco a desejar dentro dos padrões da série, com inimigos excessivamente poderosos (sim, estou me referindo aos Anjos) e áreas desconexas. O visual do mundo em ruínas, porém, pode ser colocado como ponto forte nesse primeiro momento, concatenando construções artificiais e natureza com desarmonia e assimetria, um setting apropriado para o DLC. Após derrotarmos o Príncipe Demônio, somos guiados até a segunda parte dessa expansão.

A Cidade Anelar, por outro lado, é uma aula de level design em muitos sentidos. O senso de interconectividade entre áreas menores e mais isoladas, muito presente em Demon’s Souls (PS3) e no Dark Souls original, foi bem executado. Isso é perceptível quando desbloqueamos atalhos e quando chegamos a uma torre literalmente caindo aos pedaços. O labirinto vertical, criado pelos escombros e deslizes à medida que desbravamos cada andar e somos obrigados a cair, só é superado em sua genialidade pelo encontro inesperado com o lendário Midir na ponte conseguinte. E por falar em dragão, The Ringed City tem uma seleção especial para os fãs da série em variedade de inimigos e chefões, um prato cheio para aqueles que gostam da série por sua dificuldade elevada.

Considerações finais sobre as expansões

Os dois DLCs de Dark Souls III estão disponíveis digitalmente na forma de Season Pass; no PS4, porém, os conteúdos adicionais não estão disponíveis na PlayStation Store brasileira até o momento. Por conta disso, muitos jogadores optaram por adquirir a edição completa do jogo em mídia física, intitulada Dark Souls III: The Fire Fades Edition, lançada em abril de 2017.


A parte mais interessante e, possivelmente, promissora do final definitivo de Dark Souls III é, justamente, reencontrar a Painting Woman no Mundo da Pintura de Ariandel e a entregar aquilo que corrompeu Gael e o transformou em um monstro: o Sangue da Alma Negra (Blood of the Dark Soul). É por esse desfecho que a série Dark Souls pode seguir, caso outras entradas sejam idealizadas para a franquia. Miyazaki afirmou, em entrevista, que não pretende trabalhar em um novo título Dark Souls tão cedo. Portanto, nossas esperanças dependem do que a Bandai Namco poderá criar a partir do mundo frio, escuro e gentil pintado pela sobrinha de Gael.

Revisão: Diogo Mendes

Arthur Maia escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.

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