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Análise: The Council — Episódio 1: The Mad Ones (Multi), uma história promissora em um jogo mal feito

Point and click traz figuras históricas em uma trama de mistério, mas falha na execução do jogo.

Algo que me chamou a atenção no point and click de mistério sobrenatural The Council (Multi), da Big Bad Wolf, foi o apoio da União Europeia e tomando contato com a trama do jogo é fácil entender o motivo. A obra interativa mergulha em um enredo político e mescla o tema a uma história sobrenatural, contudo a má execução de uma trama promissora colocou este primeiro episódio no limbo.

Uma reunião de ícones da história

The Council é um point and click episódico e neste primeiro episódio, intitulado The Mad Ones, o jogo apresenta o protagonista Louis de Richet. Ambientado em 1793, o protagonista e sua mãe, a aristocrata francesa Sarah de Richet, são membros da sociedade secreta Ordem Hermética da Aurora Dourada, quando ambos roubam um livro inestimável de Von Borchert, Sarah desaparece um mês depois e cabe a Louis encontrá-la.

Com o desaparecimento de sua mãe, Louis de Richet é convidado pelo enigmático Lorde Mortimer em sua ilha particular na Inglaterra para participar de uma festa com as mais importantes figuras políticas, religiosas e militares do período. Entre os convidados estão o primeiro presidente dos EUA, George Washington; o político alemão Johann Christoph von Wöllner; e o líder da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte.


O enredo é repleto de referências a cultura da Era Vitoriana, trabalhando com diversos conceitos de política, arte e militarismo da época. Contudo, todos esses temas carregam uma aura de sobrenatural e ocultismo que vão se revelando à medida que o jogador avança na história. Neste primeiro episódio, The Council apresenta sua trama de cunho histórico combinada com elementos místicos.

Jogo histórico com entretenimento

Os gráficos do jogo estão aceitáveis. Como The Council se propõe a uma arte de animação mais fotorrealista, o veredito sobre esse aspecto deve levar em consideração o estilo visual escolhido pelo jogo. E neste quesito, majoritariamente, The Council apresenta gráficos agradáveis, mas em alguns momentos a física dos personagens é mal realizada ou sem textura, o que acaba frustrando a experiência de realismo do jogador.


Apesar dos personagens sofrem deste mal, a ambientação da época está impecável. Inclusive com direito as maiores obras de arte do mundo, como os quadros Saturno Devorando um Filho, de Francisco de Goya e A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, que decoram os cômodos da mansão de Mortimer, bem como clássicos da literatura como O Príncipe, de Maquiavel ou Do Contrato Social, de Jean-Jacques Rousseau, espalhados pelos cenários.

O gameplay de The Council segue a mecânica de point and click com ações e consequências, criando finais alternativos. O jogo também possui progressão ao estilo RPG, no qual o jogador opta por uma das três classes disponíveis — Diplomata, Ocultista ou Detetive — e que o levará a encontrar diferentes tipos de pistas.


Por exemplo, um Ocultista possui melhores habilidades para reconhecer símbolos místicos, sinais de rituais satânicos e inscrições religiosas em latim ou outros idiomas. Enquanto um Detetive tem maior capacidade de lógica e reconhecimento de padrões e detalhes, como interpretar as expressões faciais de uma pessoa ou perceber pormenores em roupas ou objetos. Essa mecânica gera diferentes pistas e caminhos dependendo da escolha do jogador, afinal as pistas encontradas pelo Diplomata podem não ser reconhecíveis para um Detetive e vice-versa.

Essa progressão ao estilo RPG adaptada para um point and click de ação e consequência impressiona, porém ela ainda é muito falha na questão de continuidade da narrativa. Além dos diálogos comuns, The Council possui os chamados confrontos, no qual o jogador deve vencer uma discussão com outro personagem, o convencendo de suas intenções.


Tudo estaria bem se houvesse consequências permanentes para as decisões, todavia o que ocorre são informações ditas durante um confronto que são reprisadas ou reveladas posteriormente a outros personagens, entretanto sem acarretar consequências para o protagonista. Por exemplo, no primeiro confronto com o cardeal Giuseppe Piaggi, Louis pode afirmar que sua mãe está bem, mas durante a conversa com o Sir Gregory Holm, ele também pode revelar a verdade sobre o desaparecimento dela na frente de Piaggi e o personagem não reage à informação. Isso acaba por destruir o sistema de ação e consequência, afinal, parece que o que é dito durante um confronto não tem relevância em conversas comuns. E se não há essa troca de ação e consequência, a intenção do jogo é completamente fracassada em seu objetivo.

Bugs, péssimos enquadramentos e trilha sonora duvidosa

Os problemas com The Council começam cedo, desde o contato com os gráficos, passando pela prometida mecânica de ação e consequência aos problemas técnicos como bugs e más escolhas cinematográficas e musicais. O jogo possui um problema de glitch em diversas ocasiões, quando itens ou parte das vestimentas dos personagens sofrem com o defeito. Outro grave problema técnico são os crashs ocasionais e o bug de desaparecimento de cenários e personagens.


No âmbito das cinemáticas, The Council possui closes de câmera e enquadramentos bem questionáveis. Em algumas cenas, o close foca demasiadamente na reação de um personagem a partir de uma determinada parte do corpo, como se o jogador precisasse dessa informação de forma tão óbvia e chula para compreender as atitudes geradas por suas escolhas. Em outros momentos, há cenas que filmam apenas a testa ou nariz de um personagem! A impressão que fica é de um material audiovisual completamente mal feito e mal editado.

A trilha sonora é outra falha que beira o ridículo. The Council trabalha temas como conspiração, rituais satânicos, sociedades secretas e exorcismo, então a atmosfera que acompanha o jogador é o tom de terror. Porém, em determinados momentos, a trilha sonora sombria muda para músicas quase de comédia pastelão tamanho desvario das escolhas musicais do jogo. O protagonista está investigando um assunto sério e com possíveis consequências mortais e, de repente, a trilha parece de um desenho animado da Hannah-Barbera! Por favor, né?!


The Council possui uma premissa interessante, explorar momentos e personagens históricos com misticismo e sobrenatural, porém o jogo está muito longe de ser uma experiência imersiva ou de ter um gameplay que incentive o jogador a explorar os finais alternativos do episódio. Não adianta ter uma boa ideia, mas não saber colocá-la em prática e foi justamente isso que ocorreu com The Council. The Mad Ones possui uma introdução intrigante a trama, mas é completamente apagado devido à falta de polimento e aperfeiçoamentos técnicos do jogo. Para os próximos quatro episódios, a Big Bad Wolf tem muito o que corrigir.

Prós

  • Enredo que mescla narrativa histórica com ficção;
  • Mecânica de confrontos de diálogos;
  • Progressão ao estilo RPG em um point and click.

Contras

  • Bugs em várias situações;
  • Cinemáticas com péssimos enquadramentos;
  • Crashs periódicos;
  • Descontinuidade das decisões tomadas;
  • Física incorreta;
  • Gráficos abaixo da média;
  • Mecânica de ação e consequência falha;
  • Trilha sonora mal aplicada.
The Council — Episódio 1: The Mad Ones — PC/PS4/XBO — 5.0
Versão usada para análise: PC
Karen K. Kremer é mestre jedi em história pela UEPG e game designer pela Universidade Positivo. Viajante do tempo e cinéfila, considera Quantum Break uma obra-prima. Cresceu fazendo Meteoro de Pégasos e jogando videogame. Apaixonada por literatura, ilustração e dinossauros. Diz a lenda que com um bat-sinal no Twitter ou DeviantArt ela aparece.

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