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Análise: Distortions (PC): um conceito distorcido por problemas

Jogo brasileiro era promissor, mas inúmeros problemas técnicos estragam experiência.

Aqueles que se interessam um pouco que seja pelo cenário nacional de criação de jogos já devem ter ao menos ouvido falar de Distortions, game desenvolvido pela Among Giants e que chamou bastante atenção em alguns eventos do ano passado como BGS, BIG e SB Games, ganhando inclusive alguns troféus.


Distortions fala sobre memórias e traumas. Sob a visão de uma protagonista chamada simplesmente de Garota, encaramos de forma metafórica suas próprias memórias nas quais fatos reais e idealizações de pessoas se misturam. Neste cenário é preciso que a Garota supere suas lembranças distorcidas para conseguir lidar com a vida real e seguir em frente.



Conceitualmente, a ideia trabalhada no jogo é bem interessante, com margem para vários caminhos. Contudo a parte técnica do game tem vários problemas que conseguem abalar qualquer virtude que o jogo possua. A começar pelos controles que, particularmente, me deram um baile nos primeiros minutos de jogo. Apesar de suportar o uso de joysticks, acertar a configuração dele foi um problema, obrigando-me a usar teclado e mouse mesmo. A ausência de um botão para restaurar a configuração padrão também fez falta.

Nesse tempo de acertar tudo, eu acabei passando pelo tutorial. Essa sequência traz vários recortes de momentos da campanha, com o objetivo de passar logo de início os comandos a serem usados pelo jogador, que não são muitos, sendo bem verdade. Tal segmento, no entanto me deu a impressão que eu ia começar a jogar Tomb Raider ou algum game de ação, o que não é exatamente o caso.

Na minha visão, essa pequena seção acaba expondo o principal problema de Distortions, que é sua falta de foco. O jogo tenta abraçar tantas coisas que acaba não primando em nenhuma delas.

Após um primeiro trecho linear chegamos ao grande mapa, que pode ser explorado livremente e onde o jogador começa a entender melhor a trama, através de animações e folhas de papel espalhadas pelo mundo. Esse período da jornada é também quando adquirimos novos poderes, que acabam sendo mais úteis em outros dois momentos: os de plataforma e os de ação. Proteções contra inimigos e pontes temporárias são alguns exemplos.


As habilidades são usadas através de pequenas sequências usando o violino. O uso dessa mecânica me lembrou bastante Brütal Legend, na qual você tem que tocar pequenos solos para executar algumas ações, muitas vezes no meio de combates.

Essa alternância de momentos de gameplay, novamente, é uma ideia boa, mas cuja execução deixa a desejar em cada uma das três fases. Nas partes da exploração e plataforma, a Garota se mexe muito devagar e seus movimentos são bem travados. Errar pulos não foi algo raro, bem como enroscar-se em algo do cenário. Alguns momentos beiravam o tédio, especialmente em grandes corredores. A parte do barco também foi sofrível nesse sentido.

Agora pegue tudo isso, adicione cavernas e inimigos que te perseguem e temos as partes de ação. Eu sinceramente não entendi o porquê de ter as criaturas pequenas ameaçando sua vida. Em nenhum momento me senti desafiado de uma forma positiva, era só chato. Seções totalmente dispensáveis ao meu ver.


A câmera do jogo é outro ponto que deixa a desejar. Por vezes ela se move para mostrar alguma animação e não volta de forma correta para a personagem. O jogo oscila entre a primeira e a terceira pessoa, mas não há nada que justifique isso, o que me faz pensar que foi usado somente para resolver um problema com ambientes fechados.

Outras decisões de design também me incomodaram, como o sistema de salvamento, que só pode ser feito em pontos específicos e demora muito. O jogo peca também em dar algumas explicações só depois de introduzir uma mecânica, como no caso dos comandos do barco ou dos três níveis dos poderes do violino.


Um belo mundo distorcido

Esteticamente, o jogo é bonito, com uma direção de arte que traz belos visuais e animações interessantes. Quando o game roda, contudo, os gráficos não seguram essa barra, com itens sendo construídos na hora e algumas quedas de frames em momentos específicos. A saber: joguei com tudo no máximo, resolução de 1920x1080.

Quanto a parte sonora, o jogo merece elogios. A trilha consegue casar bem com os diversos momentos, especialmente no mais tensos (a melhor parte dessas sequências, na minha opinião). Meu único porém é que o áudio é meio estourado nas músicas pesadas, não sei se isso foi intencional ou não.

Falando de som, uma das partes principais do gameplay é o uso do violino. Como já disse acima, o jogador ganha alguns poderes ao longo da campanha que são ativados tocando sequências específicas com o instrumento. As melodias dessas partes não são lá muito empolgantes e, às vezes, só executar parte delas já é suficiente para prosseguir, o que quebra um pouco o clima.


Encarando o monstro

Distortions foi um projeto que levou nove anos para ser desenvolvido e, conhecendo um pouco sobre o mercado brasileiro, posso imaginar o quanto de trabalhado deve ter sido envolvido nesse projeto. Ainda assim, isso não isenta o fato que o produto lançado traz diversos problemas de execução.

Problemas de performance, fluxo de jogo, controle e outros bugs atrapalham muito a experiência do jogador, podendo tirar o foco da narrativa e a discussão que ela propõe, que até tem seus momentos, mas é diluída em meio a tantos pontos baixos. Uma pena.

Prós

  • Conceito da narrativa;
  • Trilha sonora.

Contras

  • Configuração de controles;
  • Bugs de física e travadas pelo cenário;
  • Encontros com inimigos;
  • Desempenho gráfico;
  • Parte de exploração fraca.
Distortions  — PC — Nota: 5

Revisão:João Pedro Boaventura
Análise produzida com cópia digital cedida pela Among Giants


Flávio Augusto Priori é formado em design de jogos e tenta ganhar a vida com esse negócio chamado video game. Para ele Metal Gear é a melhor série já feita e ainda acredita na volta da SEGA. Escrevia para o saudoso Minha Tia Joga LoL e hoje pode ser achado no Facebook e no Twitter.

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