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Análise: The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel II (PC) mantém o ótimo padrão da série

O segundo capítulo da subsérie de JRPGs da Falcon traz poucas novidades em suas mecânicas, porém expande o universo do jogo.


The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel II, na teoria, é uma sequência. Porém, na prática, a continuação está mais para uma “parte dois”. O título altera poucas características das mecânicas do anterior, contudo traz uma trama mais interessante e algumas pequenas mudanças estruturais. É um JRPG vasto e interessante, que não deixa de compartilhar muitas das qualidades (e defeitos) de seu antecessor. Lançado originalmente para PlayStation 3 e PS Vita, o jogo chega ao PC com várias melhorias técnicas.

Estudantes militares em uma guerra civil

Trails of Cold Steel II começa logo após a conclusão do primeiro título, cujo final deixa um grande gancho. O início da nova aventura já mostra a mudança de tom: o segundo capítulo da história tem como cenário um país em guerra civil, levando em conta todas as implicações de um conflito armado. Rean se separou de seus amigos da Class VII e, inicialmente, vai explorar o país em busca de seus companheiros. Além disso, o rapaz terá que descobrir qual é o seu papel no conflito e também decidir qual lado apoiar. Por se tratar de uma sequência, é importante ter jogado o título anterior, por mais que exista um resumo em texto dos eventos e personagens do primeiro episódio no menu principal.


Gostei da mudança da temática introduzida em Trails of Cold Steel II. Enquanto o primeiro episódio retratava a vida escolar, o segundo se concentra nos dilemas pessoais de cada personagem e nas consequências da guerra em suas vidas. Os personagens, em especial, se desenvolvem mais e muitas características importantes de suas personalidades são exploradas — gostei dos dilemas morais que Rean enfrenta pelo caminho, assim como os vários problemas encontrados por seus colegas de classe. A relação entre os inúmeros personagens cativa com várias cenas divertidas e muita interação entre eles. Claro, a guerra, aqui, tem a interpretação clássica de JRPGs, o que significa a presença de magia, tramas dentro de tramas e até mesmo lutas entre robôs gigantes.

O andamento da trama foi algo que me incomodou no primeiro jogo e, infelizmente, está ainda pior na sequência. O início é até ágil, afinal, não é necessário introduzir personagens e universo, mas rapidamente isso muda. A história avança muito lentamente, com pontos importantes muito distantes entre si, trazendo uma sensação de cansaço. Um dos culpados disso é a grande quantidade de diálogos e cenas que, em muitas vezes, são desnecessariamente imensos — eu entendo que essa é uma das características de JRPGs, mas não deixa de incomodar. O resultado é uma trama que se arrasta, principalmente na metade do jogo, com as grandes reviravoltas só mais para o final da aventura. Não é péssimo, porém eu apreciaria um pouco mais de agilidade.


Fiquei um pouco decepcionado com o fato de que o jogo reaproveita muitas localidades do primeiro episódio. Alguns lugares têm mapas levemente diferentes, contudo não são suficientes para acabar com a sensação de déjà vu. Eu gosto bastante do universo e mundo do jogo, ainda assim a direção de arte sem inspiração do primeiro ainda persiste. Os gráficos são um pouco datados, por sorte a versão para PC conta com várias opções gráficas para deixar o visual mais bonito.

Explorando o mundo quase livremente

Por não estarem mais presos ao cotidiano escolar, Rean e seus amigos passam por uma aventura estruturalmente mais livre. Trails of Cold Steel II mistura momentos lineares com trechos abertos, e isso torna a experiência mais prazerosa.

Os membros da Class VII exploram o país de Erebonia como em um JRPG tradicional: cidades repletas de locais para visitar, campos e calabouços infestados de inimigos, missões paralelas, locais opcionais e assim por diante. Alguns momentos, principalmente no início, são lineares e exigem que executemos certas tarefas para avançar na história. O legal é que há muito o que fazer entre um ponto e outro, ajudando a diminuir a sensação de estar seguindo uma linha reta — gostei bastante de desbravar os calabouços opcionais por conta da presença de inimigos poderosos.


No segundo ato a estrutura muda e a aventura passa a ser mais livre: de posse de uma nave voadora, os heróis podem explorar várias regiões simultaneamente. Ainda existem missões a serem cumpridas para fazer a história avançar, porém é o jogador que dita o ritmo. Uma mecânica legal introduzida nesse trecho é a possibilidade de recrutar outros estudantes da academia militar para ativar recursos na nave-base, como lojas e mais. Por causa da guerra, esses alunos estão espalhados pelo país, sendo necessário explorar as regiões em locais não usuais para encontrá-los.

Um recurso legal que retorna do primeiro título é o Bonding Event. Em momentos específicos da história, Rean pode passar tempo com algum personagem. As cenas costumam ser leves e divertidas, aprofundando mais a personalidade da pessoa em questão. Trails of Cold Steel II se diferencia do anterior com uma diversidade maior de heróis para explorar essa mecânica.


Assim como o anterior, a adaptação para PCs de Trails of Cold Steel II disponibiliza algumas opções interessantes que afetam a jogabilidade. O melhor deles, sem sombra de dúvidas, é o recurso de acelerar a ação, perfeito para explorar rapidamente os vastos cenários do jogo e para acabar batalhas em questão de segundos. Há, também, a opção de carregar o último arquivo salvo automaticamente ao abrir o jogo, eliminando a necessidade de ver até mesmo o menu — achei incrível esse recurso, pois permite retomar a aventura muito rapidamente.

Muitas técnicas e robôs nos combates

Meus momentos favoritos em Trails of Cold Steel II são os combates. O sistema de batalha do jogo é por turnos e explora vários conceitos: posicionamento de personagens, manipulação de turnos, interrupção de ataques inimigos, golpes combinados e muito mais. Existem poucas novidades em relação ao jogo anterior, porém os recursos adicionados trazem ainda mais opções de estratégia. Um ótimo detalhe vem do fato de que praticamente todas as mecânicas são liberadas logo no início da aventura, tornando o combate variado e ágil rapidamente.


Um dos novos recursos é o Overdrive, um estado em que uma dupla de heróis recupera energia e ataca em sequência por três turnos, sempre desestabilizando o inimigo. É uma técnica poderosa, capaz de mudar completamente os rumos da batalha. Há também as Lost Arts, ataques especiais tão fortes que só podem ser utilizados uma vez por batalha. Para obter essas habilidades, os personagens precisam vencer monstros especiais.

A sensação inicial é que o combate é praticamente igual ao do anterior, contudo notei algumas mudanças que alteram levemente os confrontos. A principal mudança diz respeito à eficiência de certos ataques: golpes físicos são mais difíceis de acertar, já os feitiços (que usei raramente no primeiro jogo) estão bem mais poderosos. Os inimigos comuns podem ser derrotados em questão de segundos, em contrapartida os subchefes e chefes estão bem mais poderosos e exigem estratégia mais sólida para serem derrotados. No fim das contas, gostei das mudanças — não perdi tempo enfrentando muitos monstros comuns, porém penei bastante nos chefes.


Por fim, em momentos específicos da trama, Rean utiliza o grande robô Valimar em combate. Essas batalhas utilizam uma versão simplificada do sistema de batalha e o objetivo é acertar partes vulneráveis dos robôs inimigos. Esses confrontos apresentam alguns momentos visuais interessantes, entretanto os achei meio enfadonhos: as batalhas demoram demais e a estratégia necessária para vencer é muito simples. É interessante como uma maneira de quebrar o ritmo, mas só isso.

Uma continuação conservadora

The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel II é uma continuação que ousa pouco, sem deixar de oferecer uma experiência sólida. A mudança no andamento da aventura, que apresenta maior liberdade que o antecessor, é muito bem-vinda e torna o jogo menos cansativo. Os ajustes nos sistemas, principalmente no combate, não são muito significativos, porém isso não é grande problema pelo fato deles já serem ótimos inicialmente. No fim das contas, Trails of Cold Steel II continua sendo um ótimo JRPG e é essencial para aqueles que jogaram o primeiro capítulo.

Prós

  • Início ágil, com introdução rápida de boa parte das mecânicas;
  • Sistema de batalha por turnos interessante, com algumas boas melhorias;
  • Estrutura de jogo mais livre torna a aventura menos cansativa;
  • Grande elenco de personagens divertidos e bem construídos;
  • As opções de melhorias gráficas e técnicas tornam a experiência mais ágil.

Contras

  • Trama de andamento lento, com os eventos mais impactantes acontecendo somente no final;
  • Muitos elementos reaproveitados do título anterior;
  • Visual sem inspiração em vários momentos.
The Legend of Heroes: Trails of Cold Steel II — PC — Nota: 8.0
Revisão: Alberto Canen
Análise produzida com cópia digital cedida pela XSEED Games

Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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