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Análise: Into the Breach (PC) — defendendo a Terra com robôs e estratégia intensa

Controle grandes mechas e acabe com uma ameaça alienígena nesse indie recheado de batalhas intensas e dificuldade acentuada.


Quando os Vek, uma raça alienígena insetoide, ataca a Terra, a humanidade contra-ataca com robôs gigantes vindos do futuro. Essa é a premissa de Into the Breach, novo título para PC dos criadores de FTL: Faster Than Light (PC/iOS). Cada um dos combates é uma batalha estratégica repleta de escolhas difíceis e desafio acentuado por conta da presença de vários detalhes e sistemas.

Acabando com insetos e defendendo cidades

Em Into the Breach, controlamos um grupo de três robôs em várias missões contra os invasores Vek. Todas as batalhas são por turnos e acontecem em mapas pequenos (oito por oito espaços). A inspiração é claramente inúmeras outras obras em que imensas máquinas enfrentam monstros, por mais que aqui o foco é outro: o objetivo mais importante é proteger as cidades das investidas dos inimigos, fazendo o máximo possível para evitar estragos. Cada construção destruída reduz a energia da malha energética que alimenta os robôs, e quando ela esvazia completamente é o fim da partida. O estado dessa energia persiste pelos estágios, fazendo com que proteger as cidades seja uma questão de sobrevivência.


O mais curioso é que este título executa as mecânicas do gênero estratégia tática de uma maneira bem diferente. Ao contrário de outros jogos similares, como Final Fantasy Tactics e Disgaea, Into the Breach te dá o máximo de informações possíveis — a aleatoriedade é mínima, restrita a um único aspecto. No começo de cada turno, sabemos com exatidão quais serão todos os movimentos dos Vek e nossa tarefa é impedir os estragos. Para isso, os robôs contam com inúmeros movimentos de ataque, porém os mais importantes são os que empurram os monstros para outros espaços. Com isso, é possível fazer com que os insetos ataquem espaços vazios ou até mesmo criar situações em que eles ataquem uns aos outros.

Saber com exatidão o que vai acontecer e como nossos ataques afetam os monstros cria uma dinâmica única. Cada situação é um pequeno puzzle: precisamos pensar com cuidado que movimentos precisamos fazer para salvar as cidades (ou minimizar os danos). Mesmo com tanta informação, erros devastadores podem acontecer, afinal, às vezes deixamos passar um detalhe que bagunça tudo. Por sorte, os heróis podem usar uma “fenda no tempo” e voltar para o início do turno uma vez por combate. Achei impressionante como a interface do jogo consegue mostrar de maneira elegante e clara tantas informações.


Há progressão no esquadrão: os pilotos sobem de nível e ganham habilidades novas, como aumentar a energia do robô, aumentar o alcance do movimento ou receber uma célula de energia para ativar equipamentos da máquina. Também é possível obter novos movimentos e habilidades passivas. Cada nova partida de Into the Breach começa do zero, porém é possível mandar um dos pilotos da partida anterior para o futuro, trazendo uma pequena vantagem em uma nova investida. E cada tentativa de salvar o mundo é diferente: os mapas, as estratégias dos inimigos e objetivos variam de acordo com a partida.

O mundo pós-apocalíptico de Into the Breach é representado com gráficos 2D em pixel art, e os campos de batalha são representados de longe — parece que estamos observando uma pequena maquete animada, sendo o resultado bem interessante e agradável. O robôs, em especial, me chamaram a atenção com designs criativos e repletos de personalidade. Uma trilha sonora recheada de sintetizadores, cellos e guitarras complementam o tom sci-fi tenso da ambientação.


Decisões difíceis e muita análise de situações

Para mim, o foco em proteger as cidades, e não os robôs, é uma sacada bem interessante. Durante as partidas, encontrei situações em que seria impossível impedir diretamente todos os ataques às construções, porém eu poderia colocar um dos membros do esquadrão para receber o dano no lugar das cidades para frustrar os planos dos Vek. A questão é que, ao ser derrotado, o piloto do robô morre e é substituído por um computador nas partidas seguintes — os humanos sobem de nível e ganham melhorias, ao contrário da inteligência artificial. Sempre tive que lidar com esse dilema durante as missões do jogo.

Gostei da variedade de situações em Into the Breach. Na jornada para derrotar os Vek, os combatentes exploram quatro diferentes ilhas, cada qual com biomas específicos: a região de gelo tem blocos frágeis que mudam o campo de batalha ao serem destruídos, a ilha industrial está repleta de esteiras capazes de alterar a posição das unidades, já no local desértico, há a presença de nuvens de poeira capazes de anular ataques. Além disso, as missões contam com desafios bônus, como defender uma estrutura, alterar parte do cenário ou derrotar uma quantidade específica de inimigos. As recompensas são boas, e esses objetivos adicionais, às vezes, criam ainda mais dilemas — muitas vezes escolhi receber dano na grade de força para conseguir completar uma missão opcional.


As mecânicas de estratégia do título oferecem multiplicidade de situações, e isso é expandido por meio de novos esquadrões. Ao alcançar conquistas durante as partidas, recebemos moedas para liberar novas equipes de mechas, cada qual com movimentos bem únicos. O esquadrão Blitzkrieg tem robôs que utilizam eletricidade para atacar várias unidades adjacentes (entre cidades, aliados e inimigos); o Steel Judoka é especializado em empurrar oponentes; os Flame Behemoths não possuem ataques de dano direto e dependem de colocar fogo nos cenários para danificar inimigos; já o grupo Hazardous Mechs desfere ataques poderosos ao custo de danificar os próprios robôs; e outras opções. O mais interessante é que os outros esquadrões não deixam o jogo mais fácil, pelo contrário: cada um deles apresenta mecânicas tão distintas que é necessário praticamente reaprender as estratégias do zero. Gostei bastante de explorar as várias possibilidades dos times.

Essas características fazem com que Into the Breach seja um jogo muito denso e repleto de nuances que aprendemos aos poucos. Os melhores momentos, para mim, são aqueles em que quatro ou mais inimigos atacam em uma situação aparentemente impossível de evitar, e depois de minutos pensando e ponderando as opções consigo frustrar completamente os planos dos Vek — é ótima a sensação de triunfo por conseguir esse tipo de feito. Quanto mais eu jogo, mais técnicas eu aprendo: consigo aprender novas maneiras de usar os ataques ou entendo particularidades dos inimigos e cenários. Este é um título que premia a experimentação e pensamento cuidadoso — qualidades necessárias, afinal, situações novas acontecem a todo momento, mesmo jogando em um mesmo mapa novamente.


Todas as características do título são bem amarradas, porém fiquei com uma leve sensação de que alguns vão se decepcionar com a sua rejogabilidade. Mesmo com características que trazem variedade, como missões opcionais e equipamentos, é possível terminar Into the Breach em menos de duas horas, pois o estágio final aparece logo após completamos duas áreas. Sendo assim, a rejogabilidade fica por conta de testar as outras equipes, completar os outros níveis de dificuldade e liberar as conquistas. Há poucos desbloqueáveis e incentivos para revisitar a aventura, o que traz pouca sensação de progressão. Particularmente, gostei bastante de explorar as várias outras opções, e cada partida foi uma experiência distinta, mas entendo que alguns possam terminar uma única vez e deixar de lado.

Estratégia viciante

Into the Breach me conquistou com suas incríveis opções de estratégia e desafio intenso. Cada missão traz uma série de dilemas complicados de resolver, e é muito recompensador sair ileso dessas batalhas (algo incomum, mas acontece). Além disso, o jogo oferece várias alternativas para deixar as partidas distintas — gostei, especialmente, de testar os outros esquadrões de robôs. Into the Breach é intenso e demanda muita atenção, criatividade e experimentação, e são justamente essas características que o fazem excepcional.

Prós

  • Mecânicas sólidas de estratégia tática;
  • Diferentes times de robôs oferecem opções distintas de partidas;
  • Variedade de situações fazem com que cada partida seja bem única;
  • Visual simples e charmoso.

Contras

  • Pequena sensação de progressão entre as partidas.
Into the Breach — PC — Nota: 9.5
Revisão: Alberto Canen
Análise produzida com cópia digital cedida pela Subset Games
Farley Santos é brasiliense e gosta de explorar games obscuros e pouco conhecidos. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de boardgames, game music, fotografia e livros. Além de mostrar seus cliques no Flickr, tem também um blog onde escreve sobre inúmeros assuntos e também pode ser encontrado no Twitter.

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