A febre dos jogos em FMV nos anos 1990

Com o advento de uma nova mídia – CD ROM – surge a oportunidade de explorar um jeito diferente de se fazer jogos, nascem então os Full Motion Videos.



A popularização do CD ROM como mídia, no final da década de 1980, abriu um novo leque de oportunidades na confecção dos jogos. A Sega e a NEC são as primeiras a investir nessa tecnologia com o advento do Turbo Grafx CD e o Sega CD. Com isso, as produtoras resolveram explorar um conceito diferente: os Full Motion Videos (FMV).

Jogos do gênero não eram nenhuma novidade. Em 1987, a empresa World of Wonder havia criado o videogame Action Max, cujo foco eram títulos em FMV. Porém, este ainda não utilizaria o CD ROM como mídia, mas sim fitas em VHS (isso mesmo que você acabou de ler) e, ainda por cima, dependia de conexão a um videocassete para funcionar.
 

Seus games eram basicamente filmes gravados nas fitas, e o console, junto de uma light gun, apenas registrava a quantidade de tiros que o jogador acertava. Foram lançados apenas cinco jogos para este console (haveria um sexto – o Fright Night – mas este não chegou a ser vendido). Mesmo assim, o conceito seria muito bem aproveitado futuramente pela desenvolvedora de jogos American Laser.

O pioneiro

Engana-se quem acha que a técnica dos jogos em FMV, usando mídia digital, foi usada somente nos anos 1990. Em junho de 1983 o estúdio Cinematronics arrisca numa empreitada um tanto quanto ousada, contrata o ex-animador da Dysney, Don Bluth, para dar vida ao jogo interativo Dragon’s Lair.


O jogo era uma animação baseada em quick time events, em que o tempo de resposta nos controles determina o destino do protagonista. Se você respondesse os controles no tempo certo, salvaria a princesa, caso contrário, virava um monte de ossos, literalmente.

O jogo se destacou também por já usar uma mídia digital, o Laser Disc. Isso permitia trazer uma animação perfeita ao game. Para quem estava acostumado com os títulos pixelados do início da década de 1980, aquilo foi revolucionário. Era como controlar um desenho animado, participando diretamente da sua história. Foi um sucesso enorme na época.

Porém, como o jogo usava o Laser Disc como mídia, acabou se tornando um transtorno para quem possuía o arcade. O formato da mídia era muito grande, para se ter ideia, um LD é quase do tamanho de um disco de vinil. Com isso, o fliperama se tornava monstruoso e difícil de ser manejado.

Anos 1990 e a popularização dos FMVs

No início dos anos 1990, uma importante mídia havia se popularizado, era o CD ROM. Os consoles caseiros tentavam alcançar esse caminhar tecnológico, e logo surgiram os primeiros videogames que aproveitavam a novidade.


Assim, algumas desenvolvedoras resolveram apostar numa outra fórmula de fazer jogos e, aproveitando as fórmulas usadas no Dragon’s Lair e no Action Max, os filmes interativos ganham força. Começa a febre dos FMVs.

O revolucionário Dragon’s Lair foi um dos primeiros e logo teve seu port para o Sega CD, porém, devido às limitações do próprio Mega Drive, o jogo ficou bastante inferior ao original de 1983. Aliás, o Sega CD foi um dos consoles que abusou dos jogos em FMV. Boa parte de sua biblioteca se baseia nesse estilo, tendo alguns exemplos excelentes como o TomCat Alley; mas muitos sofríveis também, como o Sewer Shark e o Make My Video.

Night Trap; um dos clássicos jogos em FMV

No início da geração 32 bits, os jogos ganharam mais qualidade, pelo menos gráfica. Nessa geração, podemos destacar uma desenvolvedora: a American Laser Games. Dela nasceu um dos maiores clássicos dos FMVs, o Mad Dog McCree. A produtora se especializou em jogos de tiro, todos em FMV. Todos contando com uma péssima atuação dos atores, histórias clichês, mas sempre divertidíssimos. É possível destacar, além do próprio Mad Dog, Crime Patrol, Space Pirates e Who Shot Johnny Rock?.
Participações famosas:

Alguns destes jogos tiveram participações ilustres, como a de Mark Hamill em Wing Comander III, e a da estrela do filme “Quanto mais Idiota Melhor”, Tia Carrere, em The Daedalus Encounter.

A polêmica Phantasmagoria

Lançado em 1995 pela Sierra, o jogo foi desenvolvido pela designer Roberta Williams, responsável pela franquia King’s Quest. O jogo levou ao extremo o gênero FMV, abusando das cenas de violência. A maior polêmica ficou em torno de um trecho em particular, em que ocorre um estupro, chocando boa parte da sociedade.


Por conta do clima pesado, Phantasmagoria foi o primeiro jogo a receber classificação “M” nos Estados Unidos, inclusive muitas lojas se recusaram a vendê-lo. Ele também chegou a ser banido em alguns países, como a Austrália.

Phantasmagoria ainda teve uma continuação em 1996, Phantasmagoria 2: A Puzzle of Flesh. Porém, perdeu muito da jogabilidade que tinha o seu antecessor e rapidamente caiu em esquecimento.

O ressurgimento dos Full Motion Movies

Recentemente, algumas produtoras resolveram apostar nos FMVs, mesmo após mais de 20 anos do abandono da tecnologia. Grandes franquias, como Guitar Hero, adotou a solução em Guitar Hero Live, que soube usar com maestria uma técnica já considerada obsoleta.
Guitar Hero Live


Produtoras independentes também vêm apostando no uso do FMV. Her History e Missing: An Interactive Thriller, ambos lançados em 2015, chamaram bastante a atenção, resgatando muito bem a técnica.

Os jogos em FMV surgiram de um modo bastante experimental, muito pela força da nova mídia que surgia. Foram capazes de transmitir uma experiência diferente aos jogadores, de interagir com obras cinematográficas, algumas divertidas, outras nem tanto.

Esta fase de desenvolvimento foi muito importante no caminhar tecnológico dos jogos. Foi a oportunidade das produtoras explorarem um novo caminho para os videogames, trazendo alguns bons resultados. Atualmente, mais de 20 anos do seu abandono, alguns estúdios reutilizam a tecnologia, trazendo uma nova experiência para os jogadores.
 
 
Para quem se interessar pelo gênero, vale a pena conhecer:

  • Dragon’s Lair
  • Night Trap
  • TomCat Alley
  • Mad Dog McCree
  • Crime Patrol
  • Strahl
  • Wing Comander III
  • Phantasmagoria

Lúcio Amaral escreve para o GameBlast sob a licença Creative Commons BY-SA 3.0. Você pode usar e compartilhar este conteúdo desde que credite o autor e veículo original do mesmo.
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