Crônica

CDs arranhados e Alien: dois inimigos mortais que me impediram de jogar Final Fantasy IX até o fim

Ou saiba porque Final Fantasy IX é, para mim, o melhor da franquia.



Eu devo dizer que minha relação com o jogo Final Fantasy IX é uma mistura de deslumbre com frustração. E é justamente essa junção improvável que tornou esse jogo tão incrível para mim (Freud e suas lições de psicanálise explicam). Arrisco a dizer que ele é, na minha opinião, o melhor jogo da franquia (soltei essa e corri). Estranho, não? Aqui vai a explicação.


 Eu ganhando meu Playstation (não me pergunte a data porque eu realmente não lembrarei) e na lista de jogos que montei (sim, você montava uma listinha de 10 jogos que vinha junto com seu videogame) eu havia colocado esse tal de Final Fantasy IX. O motivo? Aquela CG do início era algo absurdamente fascinante. Fora que os personagens eram super carismáticos e divertidos. Resultado: levei pra casa e fui jogar.

A empolgação foi tanta que não me atentei a um leve detalhe: o jogo estava em japonês. Sim, eu estava jogando e acompanhando toda a história com base nas imagens porque eu não entendia nada dos diálogos no jogo. E eu tinha uma técnica bem eficaz para executar as missões. Como eu escolhia o nome dos personagens, sempre o jogo indicava um nome para você procurar na cidade e, quando encontrava o bendito, as coisas na história andavam. Claro que, se eu soubesse o que eles falavam, poderia entender, por exemplo, que o personagem X estava no lugar Y e isso me pouparia tempo. E foi no meio dessa dificuldade com o idioma junto da vontade de saber (ou deduzir) o que acontece que cheguei até o final do primeiro CD, com muito suor e esforço.



Na época eu tinha um grande amigo que também era dono de um Playstation. E quando falei que estava jogando Final Fantasy IX, ele imediatamente me disse que estava jogando também. Ao chegar em sua casa, ele colocou o TERCEIRO CD do game, algo que eu nunca havia chegado perto, e me mostrou seus personagens em level altíssimo e em um estado bem avançado da história. E eis que meus olhos brilharam pois, pasmem, o jogo dele estava em inglês. Tudo bem que eu nessa época não entendia nada de inglês, mas pelo menos os detonados disponíveis em revistas ou até mesmo na internet davam conta do jogo na versão inglesa. Sem delongas, pedi para que ele copiasse os 4 CDs na versão em inglês. Ele imediatamente fez isso e eu pensei comigo mesmo “agora vai!”. Voltei e joguei do zero, só que agora em inglês, o Final Fantasy IX. Com menos dificuldade, passei facilmente por tudo que eu já havia feito e alcancei meu amigo ao chegar no terceiro CD.

Coincidentemente, meu aniversário estava próximo e o que todo bom garoto gamer pede de presente? Um jogo, é claro. De todas as opções na loja, o que mais me chamou a atenção foi Alien Ressurrection. Cheguei em casa animado para jogar o tal do Alien. No entanto, antes do jogo começar, ele pedia para liberar um espaço no Memory Card para que eu pudesse jogar. Lembra do meu conhecimento nulo em inglês na época? Pois é, soma isso com minha empolgação para jogar Alien. Dei ok e fui pro jogo. Resumo de Alien: morri, morri, morri e morri. Fiquei com raiva e decidi voltar para o meu querido Final Fantasy.



Coloco o CD 3 e me aparece uma mensagem dizendo que não tenho nenhum jogo salvo. Desligo o videogame e ligo novamente. Mesma coisa. Comecei a suar frio. Alguma coisa tinha acontecido.Coloquei o CD 1 e tentei logar um save lá e nada. Fiz o mesmo com o CD 2. E aí, resolvi abrir a tela do memory card com todos os saves. E o que eu encontro? Apenas Alien.E foi aí que a ficha caiu: quando o Alien pediu espaço para gravar o jogo eu fui perguntado se eu queria apagar tudo e eu respondi sim. E nessa brincadeira, adeus Final Fantasy IX.



Respirei fundo e falei: tudo bem, eu consigo fazer tudo novamente. Lá vai eu, no barco voador do Zidane, encontrar a princesa Garnet, fugir com ela de sua monstruosa mãe, enfrentar todas as criaturas que o reino enviava para capturar a princesa etc etc etc. Cheguei com muito esforço e com muito tempo (a escola também não deixava jogar direto) novamente no bendito CD 3. Agora vai!

Coloco o tal do penúltimo disco e começo a jogar. Chego em uma parte no início do capítulo e o que acontece? O CD trava. Simplesmente para de funcionar. Reseto o videogame e tento outra vez. Mesma coisa. Retiro e CD e ele está completamente arranhado. Na hora um espírito de calma, algo meio budista, me atingiu e eu pensei: relaxa, é só voltar no teu amigo e copiar o disco. Foi o que eu fiz.

Chegando lá fui direto ao assunto. Eis que ele riu e disse: “Rafael, eu vendi meu PS e o jogo junto. Não tenho ele mais pra fazer a cópia”. Lembra o espírito pacificador que me habitava? Esquece. Comecei a ter ódio desse jogo. Afinal, foram anos e anos dedicando e sempre algo me impedia de jogá-lo. A dificuldade do idioma, o save do Alien que deletou tudo, o CD arranhado e a impossibilidade de uma nova cópia.

Digamos que mais de dez anos depois, me encontro novamente diante de meu maior inimigo e também de minha paixão: FInal Fantasy IX. E, felizmente, dessa vez não há barreiras idiomáticas, nem CDs que me impeçam de chegar ao seu final. Será?
Rafael C. Oliveira é goiano e já foi astro do rock (no Guitar Hero), líder de uma grande civilização (no Age of Empires) e bem casado (no The Sims). Ele diz que está escrevendo um livro de ficção científica numa tentativa de fazer novos amigos assim. Você pode tentar convencê-lo de desistir dessa ideia absurda no Twitter ou Facebook dele.

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